Quase não acreditei quando encontrei “The strange library”, de Haruki Murakami, num sebo aqui em Berlim. A encadernação é cheia de dobras; há ilustrações diversas de página inteira para dar o clima à narrativa. Uma verdadeira obra de arte!
É uma novela curta, bem no estilo do autor, cheia de realismo fantástico misturado à realidade, com muitos toques psicanalíticos e muitas camadas de interpretação.
Na história, um rapaz tímido que mora com a mãe e tem um passarinho de estimação, vai à biblioteca municipal devolver um livro. A bibliotecária já é uma mulher super esquisita, que ele nunca tinha visto antes. Ela está lendo um livro grosso — e ele tem a impressão que cada olho lê uma página (fico só imaginando a cena).
Ele diz que quer pegar mais um livro e ela diz que então ele precisa descer a escada e se dirigir à sala 107. Estranho, ele pensa. É frequentador assíduo e nunca precisou descer a escada e nem ir a sala nenhuma para pedir um livro. Mas vai.
Chegando lá, ele encontra um velho super esquisito — pensa em desistir e voltar, mas o velho insiste em perguntar o que ele quer. Como bom personagem do Murakami, o menino também tem gostos peculiares. Ele quer algum livro que fale sobre como era o sistema de impostos dos otomanos. Quem nunca, né?
O velho nem pisca e diz para o rapaz segui-lo. Eles passam por vários corredores, um enorme labirinto, até que encontram um outro homem que parece meio bobo, dentes tortos e coberto com a pele de uma ovelha (que ele chama de homem-ovelha) que fica responsável por encarcerá-lo.
Agora o rapaz está preso e vai ter que ler dois livros sobre a coleta de impostos no império otomano para que seu cérebro fique macio o suficiente para o velho devorá-lo. Olha que coisa mais doida.
Bom, não vou contar o resto, mas é esse o nível de aleatoriedade da história. É claro que sendo um livro de Murakami, tem uma moça adolescente com aparência de anjo (desconfio que esse autor tem algumas inclinações que prefiro não nomear).
Eu gostei pela criatividade, tanto da história quanto do objeto livro, da maneira como foi projetado e construído. Mas não considero uma das melhores obras dele; acho que não me identifiquei muito.
Não achei a tradução para o português, mas aqui tem os links da Amazon do Brasil para a versão em espanhol, italiano e inglês (que foi a que eu li).

