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Salvar o fogo

Eu já tinha amado Itamar Vieira Junior no belíssimo Torto Arado”. Então, na lista de livros que minha irmã trouxe do Brasil no ano passado (pensa como a minha pilha está atrasada…), tinha também “Salvar o Fogo”. E acabei de ver que esse é o segundo volume de uma trilogia que começa com Torto Arado.

Esse moço nunca decepciona, mas preciso dizer que o leio com muita tristeza. Sempre acabo os livros dele com o coração apertado.

Salvar o fogo conta a história de uma família que vive no interior da Bahia, à beira de um rio. Eles moram numa pequena vila de pescadores e agricultores, pessoas sem nenhum acesso à educação, saúde, transporte, ou qualquer outro direito. Estão há gerações tentando sobreviver sem nenhuma perspectiva. 

O lugar é dominado por um mosteiro e uma igreja; os religiosos cobram impostos das pessoas miseráveis que mal têm o que comer. A maioria da população é descendente de indígenas e escravizados — mas os padres são todos brancos; alguns estrangeiros. Chamam as tradições de bruxaria e assustam as pessoas simples com castigos e maldições de um Deus que tudo vê, fiscaliza e castiga.

O primeiro capítulo é narrado por Moisés, filho temporão de uma mãe que mal o viu crescer, pois caiu em depressão profunda desde o seu nascimento (pelo menos é o que todos dizem). Ele foi criado pela irmã que ficou no povoado depois que todos os outros irmãos e irmãs se foram em busca de uma vida melhor e oportunidades.

Luzia, que o criou depois da morte da mãe, sempre parece revoltada com a vida sofrida, não é capaz de afetos. Apesar de jovem, ela tem uma corcunda nas costas e é chamada de bruxa pela comunidade, pois alguns acontecimentos sem explicação precisavam de um alvo fácil, dócil e fraco — o que melhor que uma menina?

O pai trabalha numa pequena roça que herdou do avô, mas que mesmo assim precisa pagar impostos para a igreja todo ano. O pai se recusa a pagar porque diz que seu avô estava lá antes da igreja ser construída — então Luzia acaba lavando as roupas do mosteiro e guardando o minguado dinheiro no colchão — para depois devolver aos padres na forma de imposto. Ela não quer mais confusão do que já tem.

Com o tempo, Luzia convence os padres a aceitarem Moisés na escola. Ele estuda com gosto, é curioso e vive na biblioteca. Mas, quando se torna adolescente, entende que foi abusado pelos padres quando ainda era muito novinho. Ele conta para Luzia, que acha mais viável não acreditar (se acreditasse, eram ela e o menino contra os poderosos do lugar; quem os apoiaria?). Revoltado e se sentindo injustiçado, o adolescente foge para a cidade, levando o dinheiro do colchão de Luzia.

Cerca de 15 anos depois, o mosteiro foi destruído num incêndio e alguns comerciantes da cidade passam a ocupar os lotes onde os agricultores trabalhavam alegando terem papeis que lhes dão a posse. O pai de Luzia, alcoólatra há muitos anos, acaba se queimando num incêndio na plantação muito mal explicado. Internado em estado grave na cidade mais próxima, ele pede para rever os filhos.

Dois estão desaparecidos (ninguém mais tem contato), mas além de Joaquim, que mora perto, e Moisés, duas das irmãs de Luzia, Isaura e Mariinha, conseguem chegar.

O reencontro é doloroso; Mariinha, agora Maria Cabocla, só chega depois do enterro.

Cada uma conta a sua parte da história. Doidas para fugir da miséria e aprendendo que a única opção de uma mulher era arrumar um marido e ter filhos, Maria foi a primeira a se deixar levar, quando ainda tinha 15 anos de idade. A mãe não fazia gosto, pois achava que, para a família prosperar, tinha que embranquecer — pois havia oportunidades que só as pessoas brancas podiam ter. E o homem que levou Maria era preto, o que significava que a filha teria o mesmo destino da mãe (achei isso muito forte; e não dá para dizer que ela está errada em pensar que as oportunidades são limitadas e obedecem à cor da pele — nosso país é racista e escravocrata).

Maria viveu por anos de fazenda em fazenda, carregando os filhos e apanhando do marido bêbado, até que ele se foi. Com os filhos já adultos, essa era a primeira vez que ela saía de casa sozinha. Na morte da mãe, o marido não a deixou viajar e ainda lhe deu uma surra pela ousadia de pedir (mesmo que tivessem dinheiro para tal, não era coisa de “mulher direita”).

Isaura não teve melhor sorte — as irmãs se encontram e vão se lembrando das brincadeiras de infância, dos sonhos, e também de eventos traumáticos.

E ficamos sabendo que Luzia foi estuprada muito jovem e é a verdadeira mãe de Moisés.

Sua mãe assumiu o filho para que a menina, que já tinha a pecha de bruxa, não fosse atacada pelos vizinhos (sempre incitados pelos padres). Por isso sempre foi tão amarga; não se conformava com o destino miserável e sem escolha; teve uma depressão pós parto enorme, maior que a da mãe, e não conseguia amar aquele filho que lhe trazia recordações tão pavorosas. A menina mal sabia o que estava acontecendo com seu corpo; subnutrida como toda a família, conseguiu esconder a gravidez de todo mundo — imagina o pavor e o desespero.

Enfim, muita coisa acontece no vilarejo e na cidade; Moisés inclusive consegue reencontrar o padre abusador.

É uma história tristíssima, narrada com muito lirismo e sensibilidade. Até a personagem Belonísia, do livro anterior, aparece como amiga de Maria.

É tão belo quanto trágico, tão triste quanto verdadeiro. Tão doloroso quanto necessário.

Por mim, faria parte da leitura obrigatória em todas as escolas básicas e também para as pessoas que votam entenderem o nosso passado trágico — que a gente não consegue se livrar por ignorância, má fé e falta de empatia. A raiva que fiquei de quem diz que não existe racismo no Brasil me despertou os instintos mais primitivos, sério.

Prepare o lenço para chorar muito, mas leia. Por favor. 

Aqui você pode comprar seu exemplar na Amazon do Brasil.

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3 comentários

  1. Susanne diz:

    Ai ai ai que vou querer ler a trilogia! Acabo de contatar a Valéria pra saber se ela tem o „Tarado“.

    (Lígia, toda vez tenho que colocar meus dados, mesmo tendo feito a cruz no „salvar“… 🫣 Me ajuda?)

  2. Oi, lindeza! Deu tudo certinho! Obrigada por comentar!
    Eu não tenho mais o Torto Arado porque dei de presente, mas o Salvar o Fogo eu posso emprestar sem problemas!

    1. Susanne diz:

      Eu nem perguntei pra ti porque li que tinha comprado pra presentear pra Carla.

      Então quando for a Berlim novamente já tenho mais um motivo pra te encontrar… ☺️ Sabe que devolvo, né? 🌹

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