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O gourmet

Um dos livros mais incríveis que eu li na vida foi “A elegância do ouriço”. Conta a história de uma concierge em Paris (que no Brasil seria o equivalente a uma zeladora) e trabalha num prédio de ricos intelectuais. A questão é que ela ama estudar filosofia (ela sim, é uma verdadeira intelectual), ler artigos e assistir filmes mais profundos. Só que isso poderia ofender e ameaçar o status dos seus patrões — que têm uma organização do mundo em mente onde concierges são pessoas simples, ignorantes e com limitações intelectuais — claro, num mundo meritocrata, só isso explicaria ela estar fazendo o trabalho que está.

Para não ameaçar seu emprego, ela precisa disfarçar a sua inteligência e encenar a simplicidade esperada. Tipo: ela tem duas televisões; uma fica na sala de entrada passando programas de auditório em um volume alto de forma que os moradores possam ouvir dando suas risadinhas, enquanto ela fica quietinha no quarto dos fundos deliciando-se com filmes iranianos. Daí já dá para imaginar o tanto de divertimento e reflexão dá para ter com os comentários de Renée, a protagonista.

Bom, isso foi há muitos e muitos anos, numa época em que eu nem sonhava em escrever resenhas de livros.

Pois semana passada estava visitando um sebo e vi “The gourmet”, que é o primeiro livro da Muriel Barbery (ela mesma professora de filosofia). Não tinha como resistir, né?

O Gourmet em questão é Pierre Arthens, um sujeito narcisista, egoísta e desprezível, porém com uma incrível e rara habilidade de descrever sabores (a gente até olha a comida de um jeito diferente depois de ler o livro).

Quando a história começa, Pierre está no seu leito de morte, em casa, e o amigo médico lhe dá apenas mais 48 horas de perspectiva. Pierre então sente uma súbita necessidade de comer novamente a coisa mais deliciosa que já provou na vida; uma reminiscência da infância que ele não sabe qual é.

Em desespero, ele começa a relembrar sua trajetória, na esperança de descobrir o tal sabor. Pierre vem de uma família totalmente disfuncional, mas cuja avó cozinhava muito bem e provavelmente é a responsável pelo seu paladar refinado. Ele se lembra das férias em Rabat (a autora é francesa nascida no Marrocos), dos restaurantes de estrada, das experiências diversas até seu primeiro encontro com um gourmet profissional, tão pretensioso quanto ele, mas que lhe concedeu a atenção que ele precisava para se estabelecer.

Por causa de seu talento único em apreciar a comida e escrever sobre ela, Pierre torna-se o principal crítico gastronômico da França, temido e admirado por todos os chefs. Com a fama veio muito dinheiro e muita vaidade.

Ele se casa com Anna porque a acha linda, mas a trata como um objeto decorativo. Jamais leva a sua existência em consideração; tem amantes diversas e passa a vida participando de jantares, avaliações em restaurantes, degustações, viagens internacionais e concursos. Anna é aquela mulher totalmente humilhada que o trata como se ele fosse um deus; está sempre em busca de uma desculpa para o comportamento indesculpável do marido.

Eles têm 3 filhos, mas ignora totalmente a existência deles, que lutam, cada um a seu modo, pela sua atenção e respeito. Pierre acha que crianças são seres desinteressantes que não sabem apreciar a comida como se deve (e se esquece de sua própria infância); não tem a menor paciência para interagir com seus próprios descendentes.

Vários personagens participam da narrativa; alguns capítulos são narrados por eles (Anna, seus filhos, a chef de um restaurante próximo que também é sua amante, um gato de estimação, um mendigo que está sempre na esquina, seu amigo médico, etc) e outros por Pierre, que deixa claro que a única coisa realmente importante na vida dele é a comida. A ironia é que uma das personagens é a concierge Renée, aquela do segundo romance, veja só.

Amor é um sentimento que ele só conseguiu desenvolver uma versão mais ou menos próxima por dois seres: um gato e um cachorro.

O livro é curtinho, mas muito bem escrito e as descrições dos pratos que Pierre experimenta são de dar água na boca!

E o final, de alguma forma, consegue surpreender. 

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