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Eu que nunca conheci os homens

Ouvi falar muito de “I Who Never Known Men”, de Jacqueline Harpman como sendo um livro de ficção científica. Gostei muito da obra, mas de ficção científica não tem nada. É uma distopia, sim, mas para mim não se enquadra no gênero Sci-Fi.

Mas vamos a essa história perturbadora.

Tudo começa com a nossa protagonista, que não tem nome. Ela tem por volta de 15 anos de idade e está numa prisão com mais 39 mulheres. Essa prisão fica num bunker e estão todas numa mesma cela, vigiadas por guardas 24 horas por dia.

Ninguém sabe porque está lá. Uma bela noite, quando todas levavam uma vida normal, o caos se instalou, com fogos, explosões e gritos. Quando acordaram estavam na cela. Nenhuma se conhecia previamente. Ninguém sabe o que aconteceu com filhos, marido, família.

Nessa prisão, a luz se acende e apaga indicando o horário de dormir, elas são obrigadas a se exercitar e recebem comida uma vez por dia (elas mesmas cozinham — têm panelas, pratos, talheres e facas cegas, para que não possam se ferir, como várias já tentaram).

Elas não podem gritar umas com as outras e nem se atacar; basta uma voz alterada que os guardas lançam mão do chicote, sempre pronto para colocar ordem no lugar. O mais cruel: elas não podem sequer se tocar. Nada de abraços, nada de carinhos. Cada uma isolada em si mesma, tentando descobrir o que aconteceu. Também são proibidas de atentarem contra a própria vida, mesmo que seja deixando de comer. Elas recebem chicotadas e vão sendo tratadas para se manterem vivas e sofrendo para não repetir o feito. 

De tempos em tempos elas recebem alguns rolos de tecido, que cortam com a faca cega e fazem vestidos. Não têm agulha e nem linha; costuram com fios de cabelo.

A protagonista, que todas chamam de Child (criança), não tem nome e nem passado. Ela chegou muito jovem, com talvez 7 ou 8 anos de idade — e não se lembra de absolutamente nada. Todas receberam doses de drogas muito altas durante um longo tempo para esquecer o passado.

Mesmo assim, todas se lembram, mesmo que vagamente, como o mundo era: suas famílias, seus trabalhos, os objetos e cenários do dia-a-dia. Child é diferente: ela mal conhece as cores — somente o cinza das paredes. Ela nunca viu o céu (ou não se lembra), a chuva, nunca viu um bebê ou um cachorro. Quando as mulheres falam de amor, ciúmes, amizades, crianças, flores ou música, ela não faz ideia do que se trata. São apenas palavras sem significado para ela.

Child também não sabe ler nem escrever (lá não tem lápis, papel; ela também nunca viu um livro). E a vida vai se arrastando em volta dos horários de receber os legumes e às vezes a carne para colocar no panelão e compartilhar a comida. 

Child é isolada das outras presas, tanto por causa da diferença de idade (ela é muito mais jovem) como pela ignorância completa que ela tem da vida. 

Anos se passam na mesma monotonia, até que um dia, tudo muda.

Bem na hora em que os guardas estão abrindo a cela para entregar comida, toca uma sirene. Eles entram em choque, saem correndo apavorados e deixam tudo como está. 

Child é a primeira a perceber que deixaram as chaves na fechadura, e, depois de um breve intervalo, abre a porta e sai para explorar o lugar. As outras, depois de alguma hesitação, seguem a moça.

Elas descobrem que estão num bunker que só tem uma espécie de cabine de acesso para cima da superfície de um vasto deserto. 

Elas se organizam, descobrem a estrutura do lugar e que há comida congelada e enlatada para muitos e muitos anos. O ar condicionado continua funcionando; aparentemente, as fontes de energia elétrica não foram afetadas.

Elas resolvem explorar as imediações e encontram um rio com algumas árvores; uma espécie de oásis, e decidem acampar. De vez em quando, Child e algumas mulheres voltam para pegar comida.

A gente acompanha Child descobrindo o mundo: o por do sol, as cores que ela nunca viu, as árvores, o rio, as mulheres se abraçando e formando casais, a mudança de temperatura.

Child não conhece nada, para ela tudo é novo. Então também não tem medo de nada, ao contrário das outras mulheres.

Child quer explorar o mundo, mas algumas mulheres são mais velhas e não conseguem se locomover com agilidade e grandes distâncias. Então elas passam anos andando de ponto em ponto, só para descobrir dezenas de outras cabines com grupos de 40 pessoas (geralmente mulheres, mas também há grupos de homens) mortos. Aparentemente, ninguém teve a sorte da sirene ter tocado bem na hora em que os guardas estavam abrindo a porta; apenas elas.

As mulheres, na maioria, eram trabalhadoras simples ou donas de casa, sem grandes pretensões intelectuais — no geral, apenas vivem a vida, sem questionar ou pensar muito a respeito. Estão exaustas e muito sofridas. Apenas Anthea, uma mulher um pouco mais velha, tinha feito um curso de enfermagem e tem um pouco mais de conhecimento.

Quando uma das mulheres, desesperada de dor e não encontrando conforto ou esperança, resolve se enforcar no bunker mais próxima (para poupar as companheiras da visão), Anthea se sente culpada por ter deixá-la sofrer sem ajudá-la a abreviar o martírio.

Ela é a única que sabe um pouco de anatomia e Child, a mais corajosa de todas, se oferece para fazer o trabalho, quando necessário. Ela aprende onde está o coração e, quando alguém percebe que vai morrer  de algo muito doloroso, pede ajuda a ela, que respeitosamente, afia muito a sua faca e acaba com a dor.

Nem todas precisam da ajuda de Child; algumas se vão de maneira mais calma, inclusive Anthea.

Até que a última companheira morre e Child fica sozinha.

Ela agora está livre para explorar o mundo e é isso que ela faz. Tem uma parte interessante em que Anthea, reconhecendo que Child não tem referência nenhuma do mundo passado, é a única que realmente pertence a esse mundo atual. No que Child corrige: eu não pertenço a esse mundo. Ele me pertence. Eu sou a dona.

E sendo aparentemente a única sobrevivente, ela vai conhecer seus domínios. Encontra mais bunkers, mais mortos, e até um ônibus cheio de esqueletos de soldados  (agora já são mais de 20 anos desde que a sirene tocou).

Eu fui até o final para saber o que aconteceu, e não vou enganar ninguém: não sabemos. Esse cenário é apenas um pano de fundo para investigar como seria uma mulher sem nenhuma referência social; apenas um ser humano, solitário, sem fazer parte de nenhum grupo, sem nenhum condicionamento.

Eu achei tudo muito forte, daqueles livros que fazem a gente pensar em cada página, cada trecho, cada frase.

O original foi escrito em francês, pois a autora é belga, mas sua família fugiu dos nazistas para Casablanca durante a guerra. Ela era psicanalista (morreu em 2012) e publicou 15 romances, vários deles premiados internacionalmente.

Esse romance foi publicado originalmente em 1995 e voltou à tona em 2019, como uma nova tradução para o inglês mais fiel ao original (a tradução de 1997 tinha “The Mistress of Silence”). As pessoas recomeçaram a ler distopias principalmente depois da segunda eleição do Trump, que bagunçou a ordem mundial que estava até então relativamente organizada depois da segunda guerra e trouxe de volta o medo do impacto do fascismo na sociedade, em especial para as mulheres.

O livro foi traduzido para o português em 2021 e você pode comprar seu exemplar na Amazon do Brasil nesse link.

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2 comentários

  1. Susanne diz:

    „Eu achei tudo muito forte, daqueles livros que fazem a gente pensar em cada página, cada trecho, cada frase.“

    Foi essa frase que me pegou. Coloquei na minha lista. Obrigada, Lígia.

    1. É realmente muito instigante! Obrigada você, seguidora fiel! 🥰

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