literatura livros resenhas

O filho de mil homens

Eu soube que o filme sobre esse livro tinha saído e sido um sucesso estrondoso; só elogios (realmente, o cinema brasileiro está numa fase brilhante).

Aí corri para ler “O filho de mil homens”, de Valter Hugo Mãe, porque quando passar aqui em Berlim, quero assistir. E se a gente não lê o livro antes, não dá para ler depois. Estraga toda a experiência e o exercício da imaginação.

Então meu conselho: leia essa resenha, leia o livro e só então veja o filme. Eu acredito que realmente deva ser belíssimo.

Mas vamos à história. Tudo começa com o protagonista, um homem de 40 anos chamado Crisóstomo. Ele é um pescador e mora sozinho numa casa na beira da praia. Já teve alguns relacionamentos que não deram certo; também não tem família; seus amigos são os outros pescadores que compartilham o barco. Ele se sente só e toma uma decisão: precisa de um filho. Para ele, essa é a prioridade máxima, a necessidade básica para continuar sua existência.

Em paralelo, em uma vila próxima, temos a história de uma anã (que não tem nome) e que vivia sozinha. As pessoas tinham pena e cuidavam dela como se fosse uma criança. Mas a anã era uma mulher, e como qualquer outra, queria ser amada e respeitada como todas merecem. Carente de afeto, acaba deitando-se como todos os homens do lugar. 

Assim que souberam da gravidez, as mulheres do lugar começaram a rejeitá-la — só dá para tolerar o diferente se for de cima pra baixo — tendo pena e fazendo caridade. A partir do momento que o diferente é visto como uma pessoa igual, com necessidades e desejos iguais, já não há mais respeito — o diferente vira ameaça. 

A anã conseguiu ter o bebê, Camilo, mas não sobreviveu ao parto. O menino foi adotado por um idoso muito amoroso, viúvo de poucos anos, que morria de saudades da esposa e achava que ela ficaria feliz em vê-lo criar o filho que nunca conseguiram ter. 

Quando o rapaz estava na pré adolescência, o velho morreu, deixando o menino só. Depois de 20 dias sozinho em casa e sem saber o que fazer, uma vizinha foi resgatá-lo dizendo que ele tinha que trabalhar, pois a vida não estava fácil para ninguém e ele precisava seguir. E onde ele conseguiu trabalho? Veja só, no barco do Crisóstomo!

O pescador nem acreditou quando viu o menino franzino e tímido, sem o menor jeito para a pesca. Já colocou o rapaz na escola (ele amava matemática) e assumiu a paternidade que tanto queria. Mas agora seu filho precisava de uma mãe (ele queria mesmo montar uma família).

É então que entra Isaura, uma moça tímida que perde a sua virgindade para um pretendente Jurandir (daqueles piores) e agora não “vale” mais nada. Ninguém quer casar como ela — naquela vila, esse é o único propósito de existência de uma mulher. Então ela passa os anos cuidando da mãe doente, da horta e dos animais da casa. Já não espera mais nada da vida; não tem respeito de ninguém.

Tem também o Antonino, um rapaz gay que é chamado de maricas por todos da vila. A mãe, Matilde, uma viúva, quer muito amá-lo, mas passa a vida tendo que ouvir os piores conselhos das vizinhas (que acham que ela tinha que ter matado o rapaz ainda menino, quando começou a mostrar traços da “imundície”) — o moço é tratado como uma aberração; apanha na rua, sofre humilhações de todos os tipos. A mãe morre de vergonha e mal olha para ele.

Até que um dia, Matilde tem a ideia de fazê-lo casar com Isaura, a única que o aceitaria, pois já não tem mais nada a perder. Antonino é gentil de uma maneira de Isaura nunca foi tratada e nem sabia ser possível. Mas ele foge logo depois do casamento, pois sabe que não pode continuar com a farsa; e Isaura continua sozinha.

Até que um dia, Crisóstomo vê Isaura na praia e decide: é ela que estou procurando para formar a minha família. Só que Isaura já é casada, pelo menos no papel. Como fazer?

Crisóstomo acolhe os dois, para a surpresa de todos. Ele quer uma família de verdade, e família é onde as pessoas se amam e se respeitam.

Porque o coração desse homem é do tamanho do mundo. Ele queria fazer um lar de verdade e consegue. Agora ele tem um filho, o amor de Isaura, mas também o carinho de Antonino e Matilde , que finalmente fica em paz com o filho (Matilde adota ainda outra menina, mas essa é outra história paralela com pitadas de realismo fantástico).

O livro é muito poético e sensível; como Valter é português, dá quase para ler ouvindo o sotaque lusitano. É lindo demais. Fala sobre amor, convenções, valores, tolerância e, principalmente, humanidade.

E, olha, agora acabei de assistir o trailer. Pensa numa fotografia bonita. 

Mas leia o livro antes, por favor! Se quiser comprar o seu na Amazon do Brasil, clique nesse link.

Você também pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *