Eu sou fã da escritora Madeleine Miller (Canção para Achilles e Circe), e não sabia que ela tinha uma companheira na missão de recontar as histórias da mitologia grega de um ponto de vista feminino. Pois ela tem, e agora não quero mais ler outra coisa.
Descobri “Stone Blind: Medusa’s story” (tradução livre: “Completamente cega: história de Medusa”), de Natalie Haynes e estou completamente encantada — Stone charmed? ;).
Ela diz que a história é da Medusa, mas também é da deusa Atenas, que participa de toda a história.
Aliás, a delícia desse livro é que são várias histórias variadas de deuses e semideuses que no final, vão convergir para o triste destino de Medusa.
Mas vamos lá. Existia uma ilha afastada habitada por apenas duas górgonas, que são seres mitológicos com asas de ouro, garras de bronze e cobras no lugar de cabelos. Filhas de deuses marinhos monstruosos, as duas viviam de boas fazendo as coisinhas de górgonas, quando um belo dia aparece uma bebezinha na praia.
No início, elas acham que é algo de comer, mas então reparam que a criança tem asas como elas. Logo, concluem que ganharam uma irmãzinha mortal (essa parte não fica bem explicada; se o bebê era mortal, então o pai deveria necessariamente ser algum mortal também — alguma escapadela de Ceto, a mãe delas…).
A dupla de górgonas (Esteno e Euríale) entende então que a mãe delas deve ter enviado o bebê para elas cuidarem; o que tentam fazer da melhor maneira possível. A menininha, chamada de Medusa, cresce cheia de amor e carinho, com as irmãs monstruosas sempre cuidando dela.
Até que um dia Medusa, já adolescente, resolve dar um rolê com suas asinhas pelas terras próximas. Ela encontra um templo de Atenas e fica encantada com a construção. O que ela não sabe é que os deuses gregos, principalmente os mais velhos, são, na verdade, pedófilos, e adoram abusar de meninas mortais. Pois Poseidon, o deus do mar, já estava monitorando a mocinha há tempos e aparece para ela no templo, tentando aquele papinho de homem poderoso.
Eu amo a cena onde ela não se impressiona, não sente medo e apenas pensa: imagine ser um deus e ainda assim ter necessidade de contar para todo mundo o quão poderoso você é…
Depois ela provoca o velho dizendo que se ele é tão poderoso, porque construíram um templo para Atenas e não para ele? Poseidon tenta explicar que eles estão construindo um templo para ele; que esse era só para o povo treinar as habilidades (tá bom…rsrsrs).
Irritado, sem paciência e vendo que a linda não vai se deixar seduzir, ele simplesmente se aproveita do fato dela estar longe das irmãs e a estupra sem cerimônia (a mitologia grega é bem violenta mesmo, como a vida real).
Medusa fica chocada e vai chorando para casa, onde se enfurna na caverna sem falar nada. Mas as irmãs, que não nasceram ontem, adivinham o que aconteceu e ficam furiosas, porém, não podem fazer nada, exceto roubar um pedaço de mar, pois Poseidon é um deus e ele pode fazer tudo o que quiser.
Agora vamos à Atenas, a deusa da guerra. Ela é filha de Zeus, o deus mais poderoso de todos, rei do monte Olimpo, onde mora toda a família da elite dos seres imortais. Zeus é outro velho safado e casado com Hera, que fica irritadíssima, com o comportamento dele, mas faz o papel de boa esposa para a sociedade Olimpiana.
Um belo dia, Zeus aparece com uma dor de cabeça que não passa; o mau humor toma conta, ele manda raios de destruição para tentar se acalmar e nada funciona.
Ninguém aguenta mais o infeliz, até que o filho bastardo de Hera (sim, ela também tinha suas vingancinhas), que é um sujeito muito habilidoso, pede para examinar o padrasto e percebe um calombo na sua testa.
Ele faz uma incisão no negócio que parece um ovo, a coisa explode e…tcharam! Nasce Atenas!!!! Uma mulher dourada, maravilhosa, belíssima, perfeita e muito mal humorada. Não é muita criatividade?
Pois é, já falei que Zeus é um escroto, né? Além do monte de filhos deuses nascidos das formas mais criativas, como Atenas, ele também coleciona semideuses (mortais com poderes especiais), filhos das moças que ele seduz ou estupra.
Pois ele ataca uma princesa num reino distante chamada Dânae e a engravida; a moça é expulsa de casa pelo rei (é sempre assim) e vai parar numa ilha, com seu bebê Perseu (eu sei que está se complicando a história, mas espera que tudo vai se juntar).
Hera, a esposa de Zeus, sabe que o velho não vale nada, mas como ela não pode bater de frente com o maior deus de todos, o que a mona faz? Dedica sua vida eterna a infernizar a vida das pobres moças seduzidas por seu marido (como se ser estuprada por ele não fosse castigo suficiente).
Pois é, e voltemos a Atenas, a deusa da guerra, para quem a cidade que leva seu nome e muitos templos são dedicados, pois os deuses são vaidosos e amam puxa-sacos; então ficam o tempo todo pedindo sacrifícios e templos para afagar seus egos já infladíssimos.
Lembra que Poseidon abusou de Medusa no templo de Atenas?
Pois é, a deusa fica putíssima! E não podendo se vingar do velho putanheiro, ela faz o quê?
Descarrega toda a sua raiva em Medusa e amaldiçoa a pobre transformando seus cabelos em cobras vivas (igual às irmãs), mas com um feitiço adicional: tudo o que Medusa olhar, vira pedra instantaneamente. A coitada tem medo até de olhar para as irmãs. Ela fica muito infeliz, traumatizada, cega, e passa o dia dentro da caverna escura tentando sobreviver à tanta desgraça.
Agora voltemos a Teseu, o menininho filho da princesa e de Zeus, o velho podre. O moleque cresce numa aldeia de pescadores, na casa de um homem chamado Dictys, que o acolhe e à sua mãe. O casal vive de boas (o homem não é muito chegado em mulheres e Dänae, que deve estar traumatizada, não reclama) até que o irmão do pescador aparece do nada.
Eis que o talzinho é um rei (Dictys se encheu de tanto chilique e resolveu se recolher numa ilha e virar pescador, em vez de disputar o reino) e diz que vai se casar com Dänae, só para provocar o irmão.
Teseu é um adolescente bobinho que está contente com sua vidinha simples e fica apavorado. Tentando defender a mãe, ele promete qualquer coisa ao rei para desobrigá-la de se casar com ele. E eis que o reizinho SmallDickEnergy pede que Teseu traga uma cabeça de górgona para liberar a mãe. E o prazo é dois meses.
Teseu não faz ideia do que venha a ser uma górgona (Um pássaro? Um mamífero?), mas aceita na hora.
No dia seguinte ele parte sem ter a menor ideia de onde ir e nem o que procurar. Zeus, que não é bobo e controla tudo lá do monte Olimpo, prefere que Dänae fique com o pescador que não dá muita bola para ela do que com o reizinho; então resolve usar seus poderes para resolver a situação. Eis que ele manda Atenas e Hermes (o deus mensageiro) para ajudar o moleque.
Eles não têm muito boa vontade e o rapaz é muito lerdo e sem noção, mas no final a dupla dá um empurrão (praticamente faz tudo para ele) e a coitada da Medusa tem sua cabeça decepada e colocada numa maleta.
Teseu então vira aquele machinho insuportável; usa a cabeça da Medusa como arma para transformar em pedra tudo o que ele não gosta, como se fosse um mini Zeus (aliás, o embuste dá carteirada “Você sabe de quem eu sou filho?” o tempo todo).
A história de Medusa é muito triste, pois ela nunca fez o mal para ninguém; foi vítima de um velho pedófilo e de uma deusa narcisista e mimada.
Esse é o arco principal, mas tem muitas histórias paralelas, como a de Cassiopeia, rainha da Etiópia, que se acha tão linda que se compara com as deusas aquáticas nereidas — elas, enfurecidas, exigem que Poseidon peça a filha Andrômeda em sacrifício; ele manda o monstro gigante Cetos (mãe da Medusa) para devorá-la, mas Teseu chega e faz sua aparição heróica transformando Cetos em pedra, salvando Andrômeda e casando com ela.
A parte final é contada do ponto de vista da cabeça, que agora pertence ao reino dos mortos, submissa ao deus Hades e a cena final dela com Atenas é muito interessante.
Eu amei o livro, as várias histórias, os diálogos cínicos dos deuses e alguns humanos, a variedade de cenários (fui lendo desenhando as relações de parentesco e olhando no mapa), os plot twists, e, sobretudo, a criatividade.
Não sei você, mas eu quero mais!
A boa notícia é que esse livro tem em português como o título “Olhar petrificante”, e você pode adquirir o seu clicando nesse link da Amazon do Brasil.

