Estava acompanhando os depoimentos sobre a Feira do Livro de Parati (FLIP) e em quase todos alguém fazia elogios escancarados ao “Os imortais”, de Paulliny Tort.
O que me atraiu mais foi a ideia de contar uma história de pessoas quando a linguagem como nós a conhecemos ainda não havia sido desenvolvida; estamos falando do encontro dos Neandertais com os Homo Sapiens. Como resistir?
Assim, apesar de voltar do Brasil só com uma mala de mão, tive que deixar de trazer paçoquinhas para trazer livros. Mas, olha, valeu muito a pena.
A história é contada por um narrador externo, mas começa com o foco no ponto de vista de um homem, que a autora chama de Homem. No decorrer dos acontecimentos, entendemos que ele não apenas faz parte de um clã de neandertais, como é um dos líderes (ele compartilha a liderança com a Mulher). Ambos são caçadores e foram escolhidos como guias pelo equilíbrio e temperamento.
Há também a Velha e o Velho, pessoas que atuam como conselheiros no grupo. O Velho morre logo no começo e aprendemos que a Velha é a guardiã do fogo (o deus deles) e a única que pode manipulá-lo e autorizar outras (como a Mulher) a fazê-lo. Ela também consegue manipular ervas e é a curandeira oficial.
Por outro lado, a Velha é também uma pessoa extremamente preconceituosa que inventa coisas da cabeça dela para aumentar a sua importância no grupo, tocando terror e falando de maldições.
Há também o Fazedor, um sujeito responsável por construir as armas, todas feitas de lascas de pedras, os Guerreiros (homens e mulheres), as Mães e as Cozinheiras. As mães cuidam dos bebês e dos pequenos; elas podem ser cozinheiras ou guerreiras.
O grupo é nômade e está sempre faminto, sujo e cansado; lutando em busca de abrigo e comida antes que o inverno chegue.
Até que um dia eles chegam numa caverna e descobrem os Sapiens. Ao contrário dos Neandertais, baixos, fortes e atarracados, os Sapiens são mais altos e compridos. Eles também se movem em clãs, também têm suas Velhas, Guerreiros e uma estrutura parecida. Suas armas são mais sofisticadas e eles conhecem até música.
Mas na disputa pela caverna, os Neandertais ganham (estão em maior quantidade e são muito mais agressivos; os Sapiens estavam em poucas pessoas ocupando a caverna, inclusive decorada com desenhos de cavalos).
Na briga, a maioria dos Sapiens morre e fica só um bebê, que a velha insiste em matar para não trazer maus augúrios, mas a Mulher acaba acolhendo a criança e dando para uma das mães amamentar.
O Homem, apesar de não ter muitas palavras para se comunicar, é bem reflexivo e detesta matar. A função de guerreiro e guia pesam muito para ele. Queria ter uma vida diferente e ser como um cavalo, que, a ele, parecem seres mais civilizados (mais belos, mais limpos, menos violentos).
O capítulo seguinte é narrado tendo a Mulher como ponto central. Ela dá graças por ser infértil e aí fica claro que as relações sexuais do clã não são monogâmicas, mas são as mulheres que escolhem como e quando elas acontecem. Ambos os gêneros compartilham o poder e têm códigos de consentimento que, quando não são respeitados (e isso acontece uma vez na história), o grupo todo se rebela e ataca o agressor.
Ainda temos um capítulo cujo foco é a Menina, aquele bebê que cresce (mesmo que à margem da sociedade e sendo desprezada em todas as situações por força e incentivo da Velha) e acompanha a mudança do clã para outro lugar, com mais água e caça.
Temos o Pequeno, um Neandertal mais baixo e forte que os demais, extremamente agressivo, narcisista e egocêntrico —um verdadeiro troglodita — que disputa poder o tempo todo, colocando em risco a paz no clã.
Há as cenas duras de caçadas, as crises existenciais que não conseguem ser bem traduzidas pela falta de vocabulário, as descrições detalhadas das condições de saúde muito precárias (principalmente os cheiros; a autora é muito boa nisso, eu quase consegui sentir os odores fortíssimos corporais que ela traduz tão bem).
Enfim, uma história muito bem contada sobre pessoas que ainda não tinham palavras suficientes para contá-las.
O trabalho de pesquisa é primoroso (a autora é jornalista e deve ter prática nessa tarefa), condizente com tudo que li sobre essa parte da história da humanidade (em especial o livro “Humanidade”, que já resenhei aqui).
Achei que merece o hype, mas se você gosta de histórias sobre povos primitivos, o melhor livro que já li (não só sobre o tema, mas um dos melhores que já li na vida) chama-se “O homem que falava serpentês” e tem uma trama muito mais fantástica e sofisticada. É de um professor de história da Estônia que é uma celebridade local; fenômeno editorial, já foi lançado em vários idiomas — não entendo porque não tem ainda em português (a resenha está nesse link).
Se você quiser comprar o seu exemplar de “Os imortais”(recomento fortemente), por favor use esse link da Amazon do Brasil.

