Eu vi em algum lugar uma pessoa elogiando muito esse livro (agora não me lembro mais). Sendo “The Employees” (tradução livre: “Os empregados” ou “Os funcionários”), da dinamarquesa Olga Ravn, indicado para tantos prêmios, inclusive de ficção científica, não resisti e fui comprar o meu na Amazon.
Esse é o livro mais esquisito que eu já li na vida; a sensação é que eu estou visitando uma exposição de arte contemporânea daquelas bem enigmáticas.
Os capítulos têm um formato diferente; parecem declarações ou relatórios de pessoas que trabalham numa nave espacial chamada Six-Thousand Ship (algo como Nave 6000).
Essa nave viaja pelo espaço e sua tripulação é formada por humanos e humanoides (misto de humanos e máquinas, como ciborgues).
É interessante porque eles eles se misturam e convivem como iguais (na medida do possível) no trabalho, mas algumas pessoas têm crises de identidade porque parte da tripulação (os humanoides) pode ser desligada e fazer um upgrade, adicionando habilidades ou redesenhando diretivas. Já os humanos sabem que vão morrer.
No momento, a nave está orbitando um planeta e alguns tripulantes humanos desembarcam periodicamente para recolher o que eles chamam de objetos — elementos na superfície do planeta que tanto podem ser seres vivos como inanimados (isso não fica muito claro).
Eles recolhem esses elementos e os colocam em uma sala especial da nave, chamada de Sala dos Objetos, onde todos os tripulantes podem entrar e interagir com eles (é ou não uma exposição de arte contemporânea?).
Os relatórios (capítulos do livro) são depoimentos de integrantes da tripulação (humanos e humanoides) que a empresa dona da nave está recolhendo para entender o impacto que os objetos têm sobre o emocional dos trabalhadores.
A formas são muito diversas: uma tem o formato de um ovo; outras têm um formato bem abstrato e consistências variadas; algumas pulam, algumas brilham, algumas têm secreções, outras têm cheiro (há vários depoimentos enfatizando a questão do cheiro dos objetos). As descrições são bem vagas e para mim foi bem difícil de visualizar esses elementos expostos.
Os funcionários humanos parecem muito gratos por terem esse emprego; alguns estavam na Terra e precisaram sair porque todos os animais morreram e a variedade de vegetais sobreviventes é muito baixa. Algumas mulheres perderam seus filhos e convivem com hologramas deles para amenizar a dor (tudo indica que houve uma grande tragédia e alguns “sortudos” foram resgatados e puderam ficar na nave morando e trabalhando).
Aparentemente os problemas emocionais de toda a tripulação (incluindo os humanoides) são bem profundos e, por isso, a direção da empresa está tentando minimizar essa questão com duas salas cheias desses objetos recolhidos no planeta (pelos relatórios não dá para entender muita coisa; não há um narrador na história).
Pelo que eu entendi, de vez em quando os objetos são trocados, mas algumas pessoas se apegam e isso causa mais problemas.
É tudo muito estranho, porque a gente vai conhecendo a história através de textos de trabalhadores diversos; a gente não sabe se quem escreve o relatório é ou não humano; a gente não sabe o gênero; a gente não sabe a forma física; a gente só sabe que eles de alguma maneira são impactados pelos objetos (que às vezes são descritos em minúcias, outras vezes de uma maneira mais geral, dependendo do estilo e estado emocional do autor).
Outra coisa muito constante nos depoimentos são sonhos; todos eles têm sonhos e alguns são bem perturbadores.
Os reports vão seguindo uma sequência e a gente vai acompanhando o aparecimento de uma epidemia de erupções de pele (seria causada por algum dos objetos?); depois vamos percebendo que acontece uma rebelião, até crimes e assassinatos.
Olha, eu achei uma experiência muito interessante porque é diferente de tudo que eu já li na vida. A maneira de descrever o que está acontecendo, a gente tentando imaginar os cenários, as pessoas, as emoções, os tais objetos, as tensões e os mistérios que estão rolando na nave. Um belíssimo exercício de imaginação em seu estado mais puro.
Certeza que você vai achar esquisito, mas acho que vale a leitura. Se quiser experimentar essa aventura, clique nesse link e compre o seu exemplar na Amazon do Brasil.

