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Bom dia, inverno

Não tem nada de errado em levar uma vida ordinária, comum, sem grandes riscos. Eu mesma tenho uma vida assim (apesar de já ter vivido alguns momentos de grandes riscos…rs). 

Mas que coisa maravilhosa existirem pessoas que levam uma vida extraordinária e compartilham suas experiências para nos inspirar. A Tamara Klink é uma dessas pessoas; e, assim como o pai, além da ousadia, da competência e da criatividade nos desafios, escreve super bem.

Mas eu admiro a Tamara ainda mais que o Amir; ela faz tudo o que o pai faz, mesmo sendo muito mais jovem e menstruando (quem é mulher sabe que isso não é nem de longe pouca coisa).

Em Bom dia, Inverno, Tamara Klink conta a experiência de ter passado um inverno inteiro sozinha na costa da Groenlândia.

A gente fica conhecendo os desafios e perrengues da compra e da preparação do barco; ela até relata um relacionamento abusivo que teve na época, do medo e da vergonha que sentiu — tudo descrito de maneira muito sensível e delicada.

Além da coragem para chegar até o lugar onde iria hibernar (que ela ainda não sabia exatamente onde era), tem todas as coisas que a pessoa tem que se preocupar para fazer a correta gestão de riscos: levar comida, remédios variados, ferramentas e equipamentos; fazer cursos de primeiros socorros, aprender a dar pontos, aprender a consertar motores). Estar em excelente forma física, pois tem muito trabalho braçal na operação das velas e no conserto de coisas que se quebram nas tempestades. Tem a bagunça, as roupas molhadas, os canos congelados, os bichos que aparecem, a renúncia ao veganismo  (porque ela precisa pescar para comer coisas frescas). 

A Tamara conheceu groenlandeses pescadores, que a deixaram trabalhar no barco deles por alguns dias; participou de uma caça a focas, mesmo horrorizada. Enfim, ela só tem 27 anos e a biografia mais variada que muita gente de 90.

Mas a parte melhor do livro são as reflexões inspiradas; ela fala sobre a solidão, sobre o autoconhecimento, sobre a (des)motivação para fazer as coisas, sobre a importância de ter pessoas com quem contar para desabafar ou pedir ajuda (e ela realmente pede quando precisa).

Ela também reflete sobre a nossa vida em sociedade e como, de alguma forma, a solidão liberta e abriga o amor próprio. Fala como na cidade a gente renuncia ao sono, ao descanso, aos prazeres, para manter necessidades desnecessárias que prometem nos dar sono, descanso e prazeres.

Achei muito interessante quando ela fala sobre o quanto a gente se violenta para entregar o que se espera de nós — eu me vi muito no discurso dela sobre o uso do salto alto como controle do corpo e comportamento das mulheres. Sobre como a gente aprende a achar normal e perfeitamente aceitável se machucar para agradar os outros ou cumprir rituais corporativos. E ainda completa: “O mundo todo é plateia de um homem e fiscal de uma mulher”. Mais cirúrgica, impossível.

Tamara conta que ainda não sabe se quer ou não filhos, por isso tem pressa para realizar seus projetos. Ela tem 27 e já fez coisas incríveis sob qualquer ponto de vista — o pai dela só começou a velejar com 28 anos. É claro, um homem pode sumir e viajar pelo oceano por meses, mesmo tendo bebês — uma mulher, jamais.

Essa moça é mesmo muito especial; ela diz que brigou com as palavras e fez as pazes com elas porque precisou delas para fazer a ponte entre o que acontecia fora e dentro dela. Não é lindo?

É, amiga (desculpe a intimidade, mas queria muito), você conseguiu o que queria: que a sua existência seja maior que a sua vida.

Parabéns e obrigada por me levar junto…

Não dêem bola para o que ela falou e comprem o livro! Vale demais a pena. Clique aqui no link da Amazon do Brasil para encomendar o seu.

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