Quem me deu a dica desse livro com mil recomendações foi a Marcelle Otubo, minha amiga querida que também ama ler ficção científica. Eu fiquei enrolando um pouco para comprar “Project Hail Mary” (“Projeto Ave Maria”, numa tradução livre), de Andy Weir, até que, dia desses, vi um reels falando que o filme era sensacional. Fui pesquisar e ele sai de cartaz semana que vem em Berlim — então corri para comprar e comi o livro todo em 4 dias (isso porque estou lotada de trabalho e só tenho à noite, antes de dormir, para ler).
Obrigada, Marcelle!! Realmente o livro é muito bom!
Mas vamos à história: o livro começa com um homem acordando em uma nave espacial, como que voltando de um coma induzido. Na sala, estão ele e mais duas pessoas. Ele descobre logo que as duas estão mortas — só sobrou ele, que não se lembra de como foi parar ali.
Aos poucos vêm flashes: ele dando aulas de física numa escola secundária; um fórum de curiosidades astronômicas onde ele lê a mensagem de uma astrônoma russa pedindo ajuda para decifrar um rastro de luz infravermelha que ela viu perto do sol. Uma colega do doutorado em física comentando que descobriram o motivo do rastro; organismos vivos estão devorando o sol aos poucos — eles “comem” partes do sol e depois migram para Venus.
No processo, o sol vai diminuindo de tamanho e as consequências para a Terra são as mais apavorantes — a previsão é de que uma nova era glacial chegue em menos de 50 anos.
Antes disso, haverá guerras, fome e luta por comida e abrigo em dimensões globais, com todas as armas disponíveis e mais algumas a serem inventadas. É o inferno imediato desenhado em cores fortes.
No final ele também se lembra do seu nome: Dr. Ryland Grace.
A nave onde ele está se chama Hail Mary (Ave Maria) e a missão dela é ir até a próxima galáxia e descobrir porque uma estrela chamada Tau Ceti, a 12 anos-luz da Terra, está sobrevivendo ao ataque desses seres devoradores de luz, chamados de Astrophages (algo como astrofagos, numa tradução livre).
Ok, e o que isso tem a ver com essa nave e a situação atual dele? Grace não é astronauta e há milhares de cientistas e engenheiros mais qualificados para participar dessa missão que, aparentemente, só tinha 3 pessoas. Como um professor de adolescentes cai numa situação dessas?
Aos poucos a gente vai descobrindo que todas as potências do mundo se uniram para essa força-tarefa (essa é parte da ficção mais difícil de engolir..rsrs) e a chefe da missão, Eva Stratt, literalmente obrigou Ryland a participar.
A gente fica sabendo que ainda durante o doutorado em microbiologia, ele publicou um artigo defendendo que poderia haver formas de vida que não dependiam da água para viver — e foi ridicularizado e desprezado por toda a comunidade científica.
Foi aí que Ryland chutou o balde e resolveu ganhar a vida dando aulas de física para o ensino médio. E descobrimos também que ele é um excelente professor porque ama fazer isso; é daquele tipo que desperta a curiosidade e muda a visão do mundo e o futuro dos alunos.
Stratt vai procurá-lo na escola, oferece amostras dos organismos que uma sonda conseguiu capturar, já que ela acredita que seres que “comem” estrelas como o sol, vivem em temperaturas tão altas que seria impossível precisarem do nosso precioso líquido para viver. Ela vê uma possibilidade da tese de Ryland estar certa, e por isso o procura antes de toda a comunidade científica.
Ryland se vê num laboratório equipadíssimo e parece uma criança num parque de diversões.
Aliás, essa é a principal característica do personagem: ele realmente ama ciência; curte cada descoberta, bola os experimentos mais criativos para testar suas teorias, mal consegue conter a empolgação quando vê um fenômeno acontecer. Por isso é tão bom professor — a curiosidade dele contagia os alunos. Straat, inteligentíssima, não deixa essa característica passar batido.
Mesmo analisando os organismos (que Ryland nomeia como astrophages) têm água dentro e que, por causa disso, sua tese não se aplica, ele descobre muitas coisas importantes no processo, inclusive, como esses organismos se reproduzem.
Com o tempo, Dr. Grace passa a ser o braço direito de Straat na organização da missão. A ideia original é que ele fique na Terra pelos próximos pelo menos 28 anos dando aulas para seus queridos alunos, que é o tempo que a nave vai levar para ir até a tal estrela e mandar mensagens por meio de sondas que levarão o mesmo tempo para voltar. Isso considerando que a tripulação vai chegar lá, descobrir o problema e enviar a solução logo em seguida. Como eles não têm combustível para ida e volta, a missão é suicida (e isso é o que mais apavora Ryland).
Mas um monte de coisas acontecem (muitas mesmo) e ele acaba embarcando na última hora, sem o treinamento específico para ser astronauta. Porém, o moço é a reencarnação do McGiver (quem pegou a referência?) e consegue achar soluções criativas para todos os problemas.
Tem bastante física bem explicada, como convém a uma boa história de ficção científica — as com base na ciência de verdade são as minhas preferidas.
O talento se potencializa quando ele faz contato com uma nave extraterrestre cujo também único tripulante sobrevivente está na mesma situação que ele — procurando algo em torno de Tau Ceti que salve o seu planeta.
Rocky (nome que Grace dá para o ser que parece uma aranha gigante feita de pedra que percebe o mundo através dos sons e não enxerga a luz) é um engenheiro brilhante — os dois conseguem inventar um jeito de se comunicar e viram melhores amigos.
Juntos, encontram maneiras de sobreviver, colocam em prática experimentos para descobrir o segredo de defesa de Tau Ceti e, vou dizer, o final é realmente surpreendente e nada hollywoodiano.
Agora vou ao cinema e já volto para falar se o filme está à altura do livro (tomara que não tenham mudado o final).
Em português o livro saiu como “Devoradores de Estrelas”e você pode comprar o seu exemplar na Amazon do Brasil clicando aqui.
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Meus dois centavos de opinião sobre o filme resumidos na frase “o livro é muito melhor”…rsrs
Então, minha dica é: leia o livro antes, assista o filme depois.
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Sério, a produção está fantástica, a nave do Rocky é a coisa mais maravilhosa de todas as galáxias e a Eva Stratt está perfeita — e o melhor — não mudaram o final!
Fora isso, o Ryland tem um figurino bem esquisito (nem dá para dizer que é nerd; é como se ele fosse um estudante de teatro alternativo e só se vestisse em brechós) e um comportamento que desvaloriza totalmente o talento incrível que ele tem para se divertir com ciência e ter ideias criativas para testar hipóteses. Os astronautas de verdade devem ter ficado putíssimos (quem usa boné, tênis Converse e casaco de tricô dentro de uma nave espacial?).
O Rocky, por sua vez, parece um pet exótico, não o engenheiro brilhante e inovador que o autor construiu. Dá para dizer que o filme é divertido, mas não chega aos pés do livro — para mim, ficou meio sessão da tarde.
Sim, eu tenho ranço de filmes baseados em livros porque isso quase sempre acontece (exceto, talvez, a série Harry Potter e “Ensaio sobre a cegueira”). De resto, surpresa nenhuma. O livro é sempre muito melhor.
Podem me julgar…rs

