Quem comprou “Stop reading the news: a manifesto for a happier, calmer and wiser life” (tradução livre: “Pare de ler notícias: um manifesto por uma vida mais feliz, calma e sábia”), de Dolf Robelli, foi o Conrado, meu marido, em alguma livraria de museu (não me lembro mais qual e nem onde).
O Conrado é uma pessoa muito mais controlada do que eu, já que ele não está em nenhuma rede social. Lê alguns fóruns e jornais, mas não é viciado como eu…rs
Então, como uma boa news-adicta, resisti muito tempo à ideia bizarra que o título do livro propunha, mas minha curiosidade foi maior e esses dias o livrinho estava olhando pra mim com muita insistência — então resolvi dar uma chance.
Rolf Dobelli já tinha conquistado minha confiança quando escreveu o maravilhoso, incrível e indispensável “A arte de ver claramente” que eu praticamente uso como manual, apesar de nunca ter criado a vergonha na cara para fazer uma resenha. Mas pode ir que eu garanto!
O autor, que nasceu no mesmo ano que eu, porém na Suíça, tem doutorado em filosofia e administração, foi CEO e CFO da Swissair e é co-fundador de uma comunidade que reúne pensadores e de uma empresa que faz resumo de livros. O moço ainda escreve romances nas horas vagas (que ele ganha não lendo notícias..rs).
Bom, Dobelli começa contando que ler notícias sempre foi parte de sua rotina; ele era viciado desde criança. Seus pais costumavam ler o jornal no café da manhã, e ainda ouviam o noticiário no rádio. Adolescente, ele passava horas na biblioteca lendo jornais e revistas (a coisa deu uma amainada na universidade porque a lista de livros para ler era gigante).
O negócio atingiu o auge quando trabalhou na Swissair, pois passava a maior parte do dia dentro do avião e a pilha de jornais que ele ganhava no embarque era devorada avidamente — se sobrasse algum “farelo”, ele levava para terminar no hotel.
O autor diz que sempre sentiu que esse vício (como qualquer outro) tinha alguma coisa errada, mas ele não sabia dizer o que era.
Porque quando você é alcoólatra, tem alguns obstáculos para contornar a fim de sustentar seu vício: tem que comprar a bebida (o que nem sempre é fácil), guardá-la em algum lugar, dar uma disfarçada para não parecer embriagado — às vezes precisa achar um jeito criativo de esconder o vício ou mesmo se livrar das garrafas vazias.
Já com as notícias, especialmente depois da popularização da internet, é o contrário — você é socialmente empurrado para elas o tempo todo, sem nenhum obstáculo. A maior parte é de graça (não precisa comprar), não tem que armazenar, esconder ou mesmo jogar fora a embalagem depois de ler. E você não precisa disfarçar ou disfarçar o vício. Aí complica demais resistir, né?
Quando se deu conta da situação, Dobelli, como bom filósofo, fez as seguintes perguntas:
- Ele estava entendendo melhor o mundo agora, com essas notícias todas?
- Ele estava tomando melhores decisões?
Para as duas questões, a resposta foi um convicto não.
Além disso, com notícias pipocando o tempo todo em todos os lugares, ele começou a perceber que não conseguia mais ler uma matéria inteira. Sempre tinha um hyperlink para clicar e se perder ou outra coisa mais chamativa ou interessante. Ou seja, sua atenção estava sendo disputada e ele não conseguia mais mantê-la íntegra.
Com todo esse desconforto, ele resolveu cancelar todas as assinaturas de newsletters e feeds de RSS (há alguns anos tinha isso, para a agente ficar sabendo das atualizações dos blogs) e selecionou poucos websites para visitar. Não funcionou muito. Então ele reduziu as fontes de informação para somente duas e restringiu a visita de sites novos para apenas 3 por dia. Também não adiantou.
Frustrado, um belo dia Dobelli resolveu fazer um experimento. Jejum completo de notícias. Nada. Zero. Mas, finalmente, funcionou.
Não substituir esse vício por outro qualquer foi uma tarefa gigante e demandou muita força de vontade, mas a motivação era compreender esse fenômeno como um estudioso mesmo. Ele queria também responder às seguintes perguntas:
- O que são notícias?
- O que as faz tão irresistíveis?
- O que acontece com o cérebro quando a gente as consome?
- Como a gente consegue estar tão bem informado e mesmo assim saber tão pouco?
Dobelli conta que o experimento foi especialmente difícil para ele porque todos os seus melhores amigos eram jornalistas — pessoas que ele adora e admira.
Mas o autor conta que está “limpo” desde 2010 e que sua qualidade de vida aumentou demais; além disso, agora ele consegue pensar com mais clareza, tem insights mais valiosos e muito mais tempo.
Tudo começou com um experimento e agora se tornou uma filosofia de vida. E é isso que ele compartilha nesse livro, publicado pela primeira vez em 2019.
O QUE SÃO NOTÍCIAS?
Bom, primeiro Dobelli vai responder à primeira pergunta, para a gente entender melhor com o que está lidando. A definição clássica diz que é a informação sobre eventos ao redor do mundo (tipo, o encontro de dois presidentes, um acidente de avião, um terremoto ou furacão, um prêmio conquistado, a separação de um famoso).
Muitas vezes a notícia é estampada em letras garrafais na manchete, mas, a realidade é que, na maioria dos casos, ela não muda em absolutamente nada a nossa vida (e discordo bastante, mas, seguimos).
A invenção dos jornais e agências de notícias é relativamente recente (século XVII), mas a questão é que isso se tornou um negócio que precisava ser lucrativo.
Então, sendo relevante ou não, alguma coisa tinha que estar na capa de um jornal diário (e nem todos os dias acontecem coisas relevantes). É aí que a fraude começa — a audácia e a veemência com que essas empresas trabalham fazem a gente acreditar que tudo é relevante, quando a maior parte dos produtos que eles vendem não chega nem perto disso.
Ele não fala isso, mas de 2019 pra cá piorou muito, porque a métrica comercial baseia-se em cliques e engajamento — então, quanto mais polêmica, bizarra e contraditória, mais lucrativa é a notícia. Às favas com a ética e o escrúpulo. Os acionistas, esses seres famintos por dinheiro, só querem saber de dividendos.
Mas será que tem uma maneira de consumir notícias de uma forma menos nefasta? Dobelli diz que artigos mais longos geralmente são fruto de pesquisa e de um trabalho mais cuidadoso, além de fornecem insights mais interessantes — são menos viciantes, mais ainda assim não são garantia de qualidade e relevância.
Quanto mais curta, mais barata, precária, mal feita e viciante é a notícia, melhor para a empresa que a publica (e a gente sabe muito bem disso pelas redes sociais — a maioria das pessoas não passa da chamada e nem sequer lê o primeiro parágrafo).
ABSTINÊNCIA RADICAL
A proposta de Dobelli é bem radical: simplesmente cortar as notícias da sua vida. Faça tão difícil quanto possível acessar as fontes de notícias que você costuma usar, cancele a assinatura de todas as newsletters, apague os apps de notícias de seu telefone e tablet. Venda o seu aparelho de televisão. Apague todos os sites de notícias da lista de favoritos do seu browser — aliás, escolha um site imutável como a homepage do seu browser, jamais um dinâmico, atualizado constantemente.
Quando viajar, leve um monte de livros bacanas. Fuja da tentação de pegar um jornal que esteja esquecido em algum canto. Fique longe das telas dos terminais de aeroporto.
Se ficar muito nervoso de não saber o que está acontecendo, leia semanalmente uma, e apenas uma fonte de notícia que tenha o resumo da semana (ele sugere a seção Week da revista The Economista — o que eu acho realmente uma contradição para uma pessoa que escreveu um livro inteiro sobre vieses cognitivos).
Se não tiver outro jeito, prefira jornais e revistas com artigos bem longos, que se aprofundem no tema e que tenham sido escritos por especialistas.
Ele também recomenda tentar ler um livro por semana e quando encontrar um onde você tenha alterado ou expandido a maneira como você vê o mundo, releia-o de cabo a rabo com atenção duplicada. Ele diz que o efeito é 10 vezes maior. Faça o mesmo com artigos longos. Olha, eu faço pelo menos uma resenha de livro por semana, leio artigos longos e nem por isso deixei de ler notícias.
Dobelli diz que a gente devia ler mais livros texto, do tipo que a gente usa como base para aprender uma disciplina num curso. Melhor você aprender alguma coisa básica de química orgânica ou geografia do que gastar seu tempo lendo lixo.
Ele também diz que usar o Google é permitido, mesmo que leve você a sites de notícias; mas é você que decide se clica ou não.
O autor diz que tem praticado esse jejum de notícias consistentemente por 10 anos (até o momento que o livro foi publicado, em 2019) e disse que nunca viveu tão bem e nem foi tão produtivo. Eu acredito.
Ele diz que a primeira semana é a mais difícil (acho que para qualquer vício). Mas depois de 30 dias, você vai se dar conta de que não perdeu nada de muito importante. Se algo realmente relevante acontecer, você vai ficar sabendo; seja por amigos, família, por alguém com quem você esteja conversando ou pela mídia especializada (aquela que escreve longos textos e análises).
Depois desse tempo, você vai decidir se fica ou se volta à vida antiga. Se você decidir ficar, vai desenvolver uma verdadeira aversão a notícias rápidas.
A VERSÃO LIGHT
Para quem achou isso tudo muito radical (eu achei), ele sugere uma versão mais light. Ela consiste no seguinte: evite jornais diários, rádio, TV e mídias sociais. Em vez disso, leia um jornal ou revista semanal; de preferência, não sensacionalista. Mas é UMA.
De preferência leia na versão impressa, pois ela não tem hyperlinks. E leia isso em uma sentada, não estenda a leitura por vários dias.
O próximo passo é limitar o número de artigos que você vai ler por edição — de preferência sempre as mesmas seções, que já estão nas páginas reservadas usualmente.
Ele diz que essa versão parece mais fácil, mas é mais dura que a radical, pois você ainda tem contato com o objeto do vício.
NOTÍCIAS SÃO IRRELEVANTES
Dobelli diz que a gente devora, em média, 20 mil notícias por ano. Ele estima que uma ou duas ajudam a tomar uma decisão melhor a respeito de carreira, família ou bem-estar, o que, convenhamos, é um índice tão baixo que ele conclui que não vale os malefícios.
Ele coloca em palavras o que a maioria de nós está pensando: ué, mas não seria melhor selecionar as notícias que lemos? Ele diz que não tem como saber antes de lê-las; esse é o problema.
E se a gente terceirizar a seleção das notícias mais relevantes? Ele rebate respondendo que relevância é um conceito pessoal e subjetivo. Se fosse esse o caso, as notícias para ele deveriam dizer como estão seus amigos e filhos, por exemplo, ou o que está passando na mente da esposa dele. Em vez de saber como vai o casamento de uma celebridade ou a separação de uma banda.
Seria útil também saber sobre as condições de trânsito na cidade onde ele mora, os dias da coleta de lixo, como vai a reforma na cozinha ou onde eles vão passar as próximas férias. Mas ele consegue saber tudo isso sem olhar o noticiário.
TUDO DE RUIM QUE AS NOTÍCIAS SÃO
A partir daí, cada capítulo explora uma “ruindade” das notícias:
- Notícias estão fora do seu círculo de competência; leia apenas o que tem a ver com o seu trabalho.
- Notícias erram feio na avaliação de riscos (tudo parece mais sério, sensacional e grave do que realmente é).
- Notícias são tempo jogado fora — elas prejudicam a sua capacidade de foco e não trazem nada de relevante em troca.
- Notícias escondem o panorama geral; elas não dão conta de explicar a complexidade do mundo.
- Notícias são tóxicas para o seu corpo — temos a tendência a ficar ansiosos, nervosos, inclusive porque más notícias são sempre percebidas como mais relevantes, mesmo que não sejam nem perto disso.
- Notícias confirmam nossos erros, já que todos estamos sujeitos ao viés da confirmação. Trata-se de praticamente ignorar aquilo que contradiz as nossas crenças e tratar como mais relevante aquilo que as confirma.
- Notícias reforçam nosso viés da retrospectiva, que é aquele que, depois que as coisas acontecem, dá sentido a tudo o que ocorreu antes, mesmo que as coisas não tenham necessariamente correlação, simplificando muito o evento e forçando uma relação de causa e efeito.
- Notícias reforçam o nosso viés de disponibilidade, ou seja, aquilo que está mais disponível para nós é o que aparece primeiro na nossa mente. Se você está num McDonalds e alguém pedir para você falar o nome de uma cor, a probabilidade de você falar vermelho é enorme — muito, mas muito maior do que você falar azul. Então, se você vê muitas notícias sobre um assunto, ele começa a ter uma relevância artificial.
- Notícias mantém a opinião pública sempre fervendo; quanto mais polêmica, manifestações exaltadas e escândalos, mais lucro.
- Notícias inibem o pensamento. Pensar requer concentração, e concentração requer tempo sem interrupção. Mesmo que você não esteja lendo as notícias o tempo todo, você acaba pensando nelas.
- Notícias reconfiguram o seu cérebro, pois você se adapta para não ficar muito tempo focado em uma coisa, não controlar muito seus impulsos e ter uma moral mais flexível (se você fica vendo horrores todos os dias, por exemplo, passa a normalizar).
- Notícias produzem falsa fama. Antes de sermos inundados por notícias irrelevantes, alguém só ficava famoso por ter uma competência muito acima da média (um cientista, atleta ou artista) ou por ter poder (governantes, nobres, etc). Hoje em dia, basta estar no lugar certo e na hora certa em frente a uma câmera — como na janela de um avião, por exemplo, e não querer ceder seu lugar para uma criança (exemplo meu).
- Notícias nos fazem passivos, pois notícias tratam predominantemente de coisas que não podemos mudar (terremotos, terrorismo, tweets do Trump, divórcio de famosos, etc).
- Notícias são inventadas por jornalistas. Bons jornalistas são sempre necessários, mas maus profissionais existem em maior quantidade — e todos precisam produzir para vender.
- Notícias são manipulavas, pois usam o viés que interessa aos donos do poder.
- Notícias matam a criatividade, simplesmente porque impedem a concentração e o foco necessários para a tarefa.
- Notícias nos dão a falsa ilusão da empatia.
- Notícias destroem a sua paz mental.
MAS E A DEMOCRACIA?
Como o autor já advogava essa causa em palestras antes de escrever o livro, achei muito bom ele adicionar duas perguntas cruciais que ele sempre tinha que responder no final:
Como podemos fazer boas escolhas nas eleições sem ler notícias?
Como podemos acompanhar o trabalho dos políticos eleitos?
Para a primeira pergunta ele começa a resposta com uma falácia, dizendo que na Grécia Antiga, onde nasceu a democracia, não havia jornais e nem noticiários. Dobelli diz que eles debatiam para chegarem às melhores escolhas. Ora, meia dúzia de homens brancos velhos debatiam; mulheres, homens com menos de 30 anos e escravos, que eram a maioria da população, não podiam votar. Além disso, parece que temos um problema de escala, hein, senhor?
Para acompanhar o trabalho dos eleitos, ele sugere que, antes da próxima eleição, a pessoa procure no Google se o candidato cumpriu o que prometeu. E é isso. Sério, eu fiquei com muita vergonha dessa resposta. Não é possível.
Mas ele ainda faz uma adendo; diz que o jornalismo investigativo é importante e esses deveriam ser os únicos profissionais na categoria. E que esse trabalho é longo e caro.
Ele realmente acredita que se todo mundo parar de ler notícias e só ler as longas matérias desses profissionais que passaram pelo crivo dele, o mercado se auto regula e cobre esses custos. Ele realmente escreveu isso. Eu juro.
CONCLUSÕES
Olha, eu fui de coração aberto, pronta para ver o mundo de outro ângulo, mas não consegui.
Lembra daquelas duas perguntas que ele fez no inicio do livro, sobre o hábito de ler notícias?
- Se ele estava entendendo melhor o mundo agora, com essas notícias todas?
- Se ele estava tomando melhores decisões?
Pois é, no meu caso, as duas respostas foram sim.
Eu concordo com ele que existe muito lixo sendo divulgado em forma de notícias; mas faz parte de exercitar nosso pensamento crítico separar o joio do trigo.
Eu conheço pessoas que dizem abertamente que não lêem notícias, não se interessam por política e votam em fascistas nas eleições sem terem a menor ideia do que estão fazendo, pois não têm noção do que seus eleitos pensam e fazem — elas não lêem notícias.
Assim, terceirizam suas opiniões para pessoas que elas acreditam ser de confiança, mas que nem sempre analisam as notícias criticamente. No final, temos gente tomando decisões que as prejudicam diretamente sem nem perceber.
Ele ainda tem a cara de pau de dizer que, se a notícia for realmente importante, os amigos e parentes o avisarão; claro, enquanto o senhor puro e intocado fica em sua torre intelectual com seu tempo livre e sem gastar seu precioso tempo com futilidades, os amigos e parentes que naveguem a selva para fazer a curadoria. Francamente.
Por último, o que mais me incomodou mesmo foi ele falar o tempo todo em relevância. Pessoalmente, acredito que nem tudo na vida seja sobre relevância. Como animais sociais, eu penso que mais importante do que relevância, é conexão.
E às vezes eu só consigo me conectar com alguém que eu amo usando memes, compartilhando notícias bobas e rindo de personagens da política que ambos detestamos.
Lamento, sr. Dobelli, mas vou ficar com seu livro anterior, que é realmente relevante e me ajuda a entender e a me conectar com as pessoas.
Vou deixar aqui o link dos dois livros e deixo a decisão da leitura por sua conta: A arte de pensar claramente e Stop reading the news (não tem tradução em português ainda).

