Mulher e cachorro
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Monique se liberta

Édouard Louis é um escritor de autoficção super famoso; eu é que não tinha ainda lido nenhuma obra dele. Confesso que autoficção não é meu gênero literário preferido — nela, o autor mistura fatos de sua vida com algumas partes inventadas. Para mim, uma espécie de autobiografia, com todos os vieses que as autobiografias têm, só que aqui com um pouco mais de liberdade criativa.

Assim, quando vi num sebo “Monique bricht aus”( tradução livre: “Monique foge” ou “Monique se liberta”), levei. Pelo menos para formar uma opinião. 

O livro começa com um telefonema da mãe do protagonista (o próprio Édouard), chamada Monique, ligando para o filho em busca de ajuda. Ela está sofrendo maus tratos de seu segundo marido, que bebe, xinga, bate nela e ameaça sua vida, exatamente como o pai dele fazia na sua infância.

O autor está em Atenas, numa residência artística, mas consegue organizar tudo com a ajuda de uma amigo e abriga a mãe em seu apartamento vazio em Paris.

E aí começam as lembranças e a reconciliação.

Porque a infância do autor foi miserável. A família, a mãe e cinco filhos, moravam num vilarejo no norte da França e sofriam horrores com o pai. Ele bebia, ficava violento, quase nunca trazia dinheiro para casa e tornava a vida de todos um inferno.

Monique se casou muito jovem e logo foi engravidando de um filho atrás do outro. Ela tentou sair da relação muitas vezes — mas não tinha estudado, não tinha experiência profissional e nem de vida independente; como iria sustentar e criar os filhos? Um dilema que muitas mulheres passam. Casam e engravidam cedo e passam a vida prisioneiras de escolhas que fizeram quando ainda não tinham nenhuma noção do seu impacto (muitas vezes, as escolhas foram inconscientes, por pressão dos pais e da sociedade — e, algumas vezes, nem escolhas foram).

O amigo de autor, também escritor e vizinho, conta que aconteceu o mesmo com a mãe dele, só que 40 anos antes. E ambos refletem que a situação das mulheres não mudou em duas gerações, pelo menos entre as pessoas pobres. 

O fato é que os filhos foram escapando enquanto cresciam (eu não li o livro anterior, mas nesse aparecem apenas Édouard e uma irmã, também jovem e já casada e com filho; não sei o que aconteceu com os outros).

Édouard tornou-se escritor famoso por causa de um livro que ele escreveu justamente sobre sua infância precária e cheia de violência (ainda mais porque num trecho, ele fala sobre os xingamentos do pai por ele ser homossexual; no que a mãe tenta colocar panos quentes, dizendo que era apenas uma brincadeira, ou modo de falar).

Esse livro causou um rompimento entre ele, a mãe e a irmã. A mãe se sentiu profundamente humilhada; ela não se via como coadjuvante do marido, apesar de ser igualmente violenta com os filhos. A irmã tomou as dores da mãe e não gostou que a família fosse retratada em cores tão cruas.

Só que agora, ironia das ironias, é o dinheiro que esse livro proporcionou que permite o autor salvar a sua mãe. Ele consegue alugar uma casa na mesma cidadezinha que a irmã e pagar todas as suas despesas mensais, já que ela não tem nenhuma fonte de renda.

Aos poucos, os dois vão reorganizando a relação, preenchendo as lacunas de comunicação, e ele fica feliz e aliviado em poder ajudar. Ela, por outro lado, nunca foi tão feliz na vida: com uma casa só dela, sem ter que servir marido ou filhos, só alegrias com seu cãozinho e seu jardim.

Para coroar o final, os dois vão a Hamburgo assistir a pré-estreia da peça baseada no tão polêmico livro e ela é ovacionada como heroína. 

Sentindo-se totalmente renovada, como a vida toda pela frente começando aos 55 anos, ela pede para o filho escrever a continuação, que é justamente sobre a fuga dela. 

Olha, como eu disse, esse não é meu gênero favorito, mas o livro é claro, bem escrito (recomendo para quem está aprendendo alemão; achei-o bem fácil) e a história é bonita e com final feliz. Não tem grandes reviravoltas, não tem nada de especial do ponto de vista literário — eu me senti lendo o diário de alguém. E é isso.

Mas é uma leitura agradável e recomendo sim. 

O bom é que já tem em português com o título “Monique se liberta” e você pode comprar o seu exemplar clicando nesse link da Amazon do Brasil. 

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