Eu li em algum lugar que “What we can know” (tradução livre: ”O que podemos saber”), do Ian McEwan, era o melhor romance dele em anos. Quando alguém falou que se passava em 2119, não pude fazer mais nada; a rata de ficção científica foi correndo na Amazon e comprou.
Eu já resenhei vários outros livros dele aqui; o mais recente foi Máquinas Como Eu, que gostei muito.
Mas vamos à história.
Estamos em 2119, nas terras altas, Reino Unido. Tom Metcalfe é um acadêmico de literatura e está trabalhando no seu doutorado — o foco dele é o período de 1990 a 2030, tempo da história pelo qual ele é fascinado.
Para Tom, essa foi a melhor época da história da humanidade. Estávamos no auge da tecnologia, com a popularização da inteligência artificial; o planeta ainda era habitável na maior parte, a comida era maravilhosa, as pessoas podiam se locomover livremente por terra.
Em meados de 2030 começou a acontecer o que ele chama de “desarranjo”. Tempestades, furacões, enchentes, a fúria da natureza que reduziu a população da terra de 9 bilhões para 4; menos da metade.
Quem sobrou teve que se adaptar à comida escassa e ultraprocessada, condições climáticas irascíveis, transporte principalmente por meio de barcos desconfortáveis para maximizar o espaço.
A tecnologia ficou parada em 2030, pois a extração de terras raras, necessárias para a construção de computadores mais potentes, ficou inacessível.
Em 2119, o sistema GPS começou a perder satélites por velhice, já que não se conseguiu colocar mais unidades em órbita.
O Reino Unido, antes concentrado na grande Ilha, agora é um arquipélago formato de ilhotas pequenas que sobraram nas terras altas. Cidades como Londres e Glasgow desapareceram no mar.
A Nigéria lidera a tecnologia; a ordem global está uma bagunça. As guerras continuam, desordem e insegurança imperam.
No meio disso tudo está Tom, na sua universidade, instalada em uma das ilhas, estudando o período em que ele queria ter vivido, com um misto de ódio por seus habitantes saberem o que viria e não terem feito nada para evitar — e o sentimento de saudade e nostalgia por um tempo e lugar onde ele nunca viveu, a não ser em sonhos.
A tese dele é sobre um poema (no formato corona, com 15 sonetos), do famoso poeta Francis Blundy. Esse é considerado a maior obra de poesia da humanidade nesse período; mas o curioso é que ninguém leu o trabalho, exceto o autor, num evento em 2014.
No começo dos anos 2000, Francis casou-se com Vivien, uma estudiosa, pesquisadora e ex professora universitária, e foram morar num sítio na área rural.
Ela dedicou sua vida a cuidar dele e da casa, abandonando sua carreira para se tornar sua secretária particular. Em “agradecimento”, Francis escreveu seu maior poema em homenagem a ela, e o apresentou publicamente na festa de aniversário de 54 anos de Vivien.
O poema se chama “Corona para Vivien”e ele escreveu o texto à mão, num pergaminho, destruindo todos os esboços anteriores e não deixando nenhuma cópia, pois era um presente especial para ela.
Como diz Tom, antes desse período, tudo o que os estudiosos podiam fazer era especular o que aconteceu na época; mas a partir da popularização da internet, dos emails, das mensagens, das fotos e vídeos digitais, começou a ser possível fazer uma imersão no universo do autor e sentir o que acontecia no momento da concepção da obra.
E foi o que ele fez; imergiu no universo de Vivien a ponto de se apaixonar por ela. Mergulhou no mar de arquivos digitais com fotos, vídeos, mensagens para tentar descobrir o que aconteceu com o poema.
Ele resgatou como cada convidado do jantar de aniversário de Vivien descreveu a experiência de ouvir o poema da boca de Francis Blundy; ele sabia do menu, das tensão no casamento de um dos casais, das conversas paralelas, dos problemas pessoais de cada convidado. Ele gastou anos escavando informações para descobrir porque o poema não foi publicado.
E toda essa saga é acompanhada por sua namorada, depois colega, depois esposa, depois ex, também professora universitária.
Até que um bibliotecário idoso e doente que cuidava do acervo físico de Harry, principal editor e curador da obra de Francis, mais a sua brilhante sobrinha adolescente, descobrem uma pista que muda tudo.
E aí vem a segunda parte do livro com um fantástico plot twist.
Eu confesso que me arrastei um pouco na primeira parte, que levou alguns dias. Tinha trechos meio chatos e detalhados demais (mas que fazem sentido depois).
Mas, para você ter uma ideia, as últimas 150 páginas eu li numa sentada só.
Pensa numa virada sensacional e inesperada!
De fato, realmente muito bom.
Tem em português e você pode comprar seu exemplar na Amazon do Brasil clicando nesse link (você pode comprar qualquer coisa entrando na loja por esse link, que vai ajudar muito a manutenção do podcast Minha Estante Colorida, onde publico todas as resenhas).

