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A polícia da memória

Eu ganhei “A polícia da memória”, da premiada escritora japonesaYoko Ogawa, da minha querida amiga Valéria Jansen. Olha que presente mais lindo!

Eu classificaria a história como ficção especulativa, quando alguma coisa fora da ordem natural acontece e dá origem à história — mas, pelo resultado, encaixa-se mais numa distopia. 

No caso, a protagonista, que muito convenientemente, não tem nome, é uma jovem escritora que mora numa ilha. Sua mãe era escultora e seu pai, um observador de pássaros. Eles moram numa casa grande e confortável e ela se lembra de algumas passagens com o pai e a mãe antes deles sumirem.

É que na tal ilha impera um regime onde, de vez em quando, sem motivo aparente ou necessidade, alguma coisa desaparece e as pessoas se esquecem para que essa coisa servia ou como funcionava.

Ela se lembra da mãe, no seu ateliê de cerâmica, abrindo um móvel cheio de gavinhas e mostrando para ela um vidrinho de perfume. A mãe conta que as pessoas costumavam usar para cheirar bem, mas a menina não entende, pois aquele odor que o vidrinho exala não tem nenhum significado para ela. 

O pai morre quando ela ainda era muito pequena; mesmo assim ela sentiu muito quando os pássaros desapareceram. Do nada, todos morreram e ela imagina como o pai teria reagido. A plataforma de observação já estava mesmo desativada há anos.

Aos poucos, as coisas vão sumindo: rosas, peixes, alguns tipos de comida. A dieta local vai ficando mais simples e menos variada.

Até que a mãe dela é levada pela polícia da memória, um batalhão de soldados fortemente armados que cuidam para que ninguém se lembre do que é obrigatório esquecer. A maioria das pessoas simplesmente obedece à ordem de esquecer algo que desapareceu, como é o caso da menina. Mas algumas pessoas simplesmente não conseguem, como a mãe dela. Aí, para sobreviver, fingem que esqueceram — mas a polícia é esperta e muita gente precisa fugir e se esconder.

A moça vive de escrever romances (estranho, pois a ilha só tem uma livraria e uma biblioteca praticamente abandonada, como pouquíssimas livros antigos). 

Até que um dia ela percebe que seu editor é dessas pessoas que não consegue esquecer — ele corre risco de ser preso e desvivido pela polícia. Nesse momento, ela resolve usar um compartimento secreto da casa para escondê-lo. 

Para isso, ela conta com um senhor que faz todo tipo de trabalhos manuais — o lugar precisa de eletricidade e ventilação para abrigar um ser humano por um tempo que ela não sabe quanto é.

O senhor conduzia a balsa, que levava moradores da ilha para o continente e outras ilhas. Mas depois que as balsas “desapareceram”,  todos se esqueceram para que elas serviam e ele passou a usar a dele como moradia.

O velho e a moça conseguem esconder o editor, que tenta convencê-los do quão importante é não esquecer, mas eles meio que não entendem muito bem, pois já faltam muitas coisas na memória.

O cenário é bem distópico, com famílias fugitivas, vizinhos desaparecendo, pessoas evitam conversar mais que o trivial, o medo da polícia da memória invadir a casa a qualquer momento, e, principalmente, coisas desaparecendo de vez em quando.

Até que chega um dia onde os livros desaparecem e todos, inclusive ela, são compelidos a queimar todos em fogueiras públicas. A biblioteca é incendiada, assim como a livraria. E ela tem que procurar outro emprego. 

Em capítulos aleatórios, paralelamente, tem o romance que ela estava escrevendo por último, que já não se lembra mais, mas que o editor meio que a força a continuá-lo até o final.

Ao mesmo tempo que os desaparecimento continuam, agora com partes do corpo, como pernas e braços. Eles continuam lá, mas ninguém se lembra deles ou para que servem.

Enfim, são muitas camadas de simbolismo. Eu acredito que os japoneses tenham um apreço especial por memórias e desaparecimentos, pois lembrei agora do “E se os gatos desaparecem do mundo?” que li há alguns anos.

A história poderia muito bem fazer parte de um plot do Murakami, mas, ele é mestre em fazer esse tipo de coisa sem parecer tão literal. 

Achei o formato da história muito óbvio — é uma fábula em um estilo tão claro que não há o menor perigo de confundir com a vida real — Murakami me agrada mais com seu realismo fantástico que faz esse tipo de mensagem ser mais sutil, mesclada com coisas que realmente poderiam acontecer e acontecem.

Acho que esse jeito de escrever onde o simbólico é tão óbvio perde um pouco da força na hora de transmitir a mensagem, pois eu, pelo menos, não consegui me conectar com a história por causa das inconsistências. 

Mesmo assim, gostei muito de conhecer a autora e sou muito grata à Valéria.

Enfim, é uma obra interessante, principalmente para quem gosta do estilo e a autora ganhou vários prêmios. A parte boa é que, como eu li em português, com certeza ele existe no Brasil para vender.

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