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Danielle: crônicas de uma super heroína

Depois de ficar muito impressionada com o livro “How to Create a Mind: The Secret of Human Thought Revealed” (resenha aqui), de Ray Kurzweil, fui procurar outras coisas do autor.

Pesquisando, achei “Danielle: chronicles of a superheroine”, com ilustrações de Amy Kurzweil (filha dele; talvez isso explique porque as ilustrações são bem “mais ou menos”…). Na época (2019), só tinha para vender em ebook, então deixei pra lá. Até que um belo dia encontrei o livrão num sebo.

Bom, minha impressão sobre a obra é, digamos, um misto de sentimentos. Mas acho melhor ir contando a história.

Tudo começa no Haiti, com Claire, uma menina de 6 anos que acaba de sair da escola e vai para a fábrica onde a mãe trabalha como costureira, num lugar sujo, escuro e mal ventilado. Claire é muito inteligente e aprendeu a ler sozinha, e em inglês ainda por cima (as línguas oficiais do Haiti são francês e haitiano). Ela também tem um violãozinho de brinquedo com o qual adora fazer suas apresentações para as mulheres da fábrica.

De repente, o chão começa a tremer e o copo de café que a mãe está tomando cai sobre o rosto da pequena. Ela leva um susto, mas nem consegue reagir, pois logo o prédio inteiro explode e ela se vê sozinha num buraco escuro. Tenta não entrar em pânico e imagina que está em uma das histórias que ela inventa (eu também faço isso).

O que ela não sabe, é que um homem chamado Richard, que veio até o Haiti fundar uma escola, resolveu ajudar no resgate e está munido de um radar especial para encontrar sobreviventes do terremoto (estamos em 2010). 

Richard logo se encanta pela inteligência da menina e a leva para os Estados Unidos, onde ele mora com a esposa. Os dois então adotam Claire Pierre-Louis, que passa a ter todas as condições e oportunidades que ela precisa para se desenvolver, além de pais acolhedores e incentivadores.

Aí, quando Claire tem 8 anos, nasce sua irmã, Danielle. As duas são grudadíssimas e se adoram. Danielle ama livros desde bebê, e passa os dias folheando os volumes, como se estivesse lendo-os. Ela só começa a falar e andar com 2 anos de idade, mas quando abre a boca, já é para discutir em profundidade os significados psicanalíticos de Alice no País das Maravilhas. Pensa num monstrinho…rs

Os pais, que sempre quiseram fundar uma escola, colocam o projeto em prática. O local tem um sistema de ensino diferente, onde as crianças escolhem o que querem aprender e têm que apresentar um projeto por disciplina a cada período escolar. É claro que Danielle já começa a frequentar todo o tipo de aula que lhe interessa, mesmo com as turmas mais adiantadas.

Daí pra frente, é exagero atrás de exagero; a coisa vai escalando até que aos 5 anos de idade, ela pega um avião para Washington, a fim de protestar contra a diferença de tratamento em relação aos imigrantes, que o governo trata como cidadãos de segunda classe. Claire, que narra a história, acompanha a irmã em todas as viagens e elas ficam na casa de uma tia. Danielle aparece sendo entrevistada pela televisão cheia de opiniões bem fundamentadas sobre história e antropologia, o que impressiona a todos (claro, né?).

Aos seis ela escreve um projeto para a Organização Mundial da Saúde e consegue um financiamento para levar máquinas que transformam esgoto em água potável para a Zâmbia. Ela mesma vai até o país africano fazer as primeiras instalações (sempre acompanhada de Claire) e conhece Amu, também inteligentíssima, que fica sendo sua melhor amiga e assistente (elas gravam tutoriais para instalar as máquinas).

A parte boa dessa história é que todas as meninas são inteligentíssimas e fazem trabalhos em todas as áreas. 

Amu passa a trabalhar com Danielle, que cria uma fundação para angariar mais fundos e ampliar o projeto. O pai de Amu também participa (os pais têm papel importante nessa história; estão sempre apoiando as filhas).

Danielle também acredita que a memória não é a melhor parte do cérebro humano; é falível e fácil de enganar. Então ela cria um projeto chamado Life Bits onde grava trechos da sua vida. Alguns vão para as mídias sociais, outros ficam guardados em privado.

Aos 7 anos, Danielle se interessa por física das partículas e cria uma teoria que é o desdobramento da ideia de um chinês de 13 anos de idade — os dois são destaque no mundo da física.

Aos 8 anos Danielle monta uma banda de rock (ela toca vários instrumentos, compõe e canta), vira uma pop star e estampa a capa de todas as revistas e jornais. Ganha vários prêmios e duela com o executivo de uma gravadora conhecida, montando seu próprio negócio de streaming (ela é fera na programação e consegue desenvolver a plataforma inteira sozinha) — fica riquíssima e coloca todo o dinheiro na sua fundação. Amealha fãs por todo mundo com as “Danielletis”, no mesmo modelo de sua poderosa colega de profissão, Hailor Sweet.

Desnecessário dizer que Danielle fala vários idiomas — já que ela se interessa por relações internacionais, aos 10 anos de idade, decide negociar com o então presidente da Lybia, Muamar Qaddafi. Ela quer discutir o movimento do país para a democracia. Danielle vira conselheira de estado, nada menos que isso. 

Enquanto desenvolve uma cura para o câncer e é presa nos EUA porque disponibiliza a droga antes dela ser liberada pela FDA, participa de reuniões nas Nações Unidas para tratar das paz entre israelenses e palestinos. Depois de solta (Obama tem que intervir pessoalmente, por conta da pressão dos Danielletis), passa a integrar o governo da Arábia Saudita como conselheira.

Em paralelo, Claire vai ganhando prêmios como roteirista e música, entre outras áreas, mas sempre acompanha a irmã.

Enquanto testa sua teoria com o colega chinês (por quem ela está apaixonada) no CERN (um centro acelerador de partículas), a gênia participa de discussões para a paz entre o governo chinês, Dalai Lama e o Tibete. 

No final, ela é eleita presidente da China para fazer a transição para a democracia com apenas 16 anos de idade! Pensa!

Aos 19, o gran finale (ou o gran começo!): ela vira presidente dos Estados Unidos! E aqui, temos a maior viagem do autor: ela concorre pelo partido Republicano (nada mais anti-republicano do que Danielle, a rainha Woke…hahahaha). Hillary Clinton concorreu pelos Democratas e nem ficou chateada de perder…rs

Com 22 anos a moça tem no currículo prêmios Nobel de Medicina, Física e da Paz, e a história acaba (ou começa) com Danielle se casando com seu amado namorado chinês.

Bom, o que dizer? Esse livro é uma utopia, Danielle é o superego de Ray Kurzweil e a história, a meu ver, tem um monte de problemas básicos, começando pela síndrome do branco salvador.

Uma menina branca, americana, superdotada, vai e resolve todos os problemas do mundo, somente contando com seu carisma e superinteligência. O mundo é simples, todos amam Danielle. Todos os homens são respeitosos com meninas, ninguém é abusador, pedófilo ou desonesto.

Também não gosto muito da ideia de uma super heroína (ou super herói), pois é sempre alguém com super poderes que surge do além para resolver magicamente todos os problemas que nós mesmos criamos e não temos competência ou vontade suficiente para resolver. 

Assumir a responsabilidade pelas consequências dos nossos próprios atos é complicado demais para nações e povos inteiros — melhor esperar pelo salvador — ou, no caso — a salvadora, que faça milagres. 

Mas aí vem a segunda parte do livro, que, acredito, justifica todas as alucinações e exageros da primeira. Foi aí que comecei a entender a proposta do autor. 

Ele quer que a Danielle seja uma referência para as meninas, um exemplo, um ícone, um ideal de pessoa — que usa a sua inteligência, o seu talento e o seu carisma para fazer o bem para o mundo. 

E essa segunda parte (que também acho que é vendido como um livro separado), chama-se: Como você pode se tornar uma Danielle.

E olha os capítulos:

  • Aprendendo a programar computadores desde cedo
  • Ajudando a erradicar a mutilação genital feminina
  • Promovendo a democracia na China
  • Promovendo o desarmamento nuclear
  • Gravando a sua vida (preservando a sua memória)
  • Avançando no pensamento crítico
  • Combatendo o totalitarismo no mundo
  • Promovendo a igualdade racial e de gênero
  • Prevenindo futuros genocídios
  • Aproveitando a sabedoria dos corvos (como tomar melhores decisões coletivamente)
  • Ajudando a promover a paz no oriente médio
  • Combatendo a seca e a poluição das águas nas nações pobres
  • Tornando-se uma física
  • Ajudando a cura do câncer
  • Fundando sua própria empresa
  • Avançando na inteligência artificial
  • Ajudando a curar doenças do coração
  • Promovendo a paz e o entendimento no mundo
  • Adotando o aprender fazendo
  • Encorajando meninas e mulheres a seguirem carreiras STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática)
  • Ajudando a promover direitos iguais para as mulheres
  • Ajudando pessoas a desenvolver nações
  • Promovendo a saúde no mundo

Cada capítulo tem um texto explicativo do porque esse tópico é importante e segue com links, endereços e contatos de organizações que podem ajudar nesse objetivo.

Olha, fiquei ainda mais admirada com esse sujeito. Ele é um idealista, com certeza.

Fico aqui pensando como deve estar a cabeça dele e da família que o apoia — uma vez que os Estados Unidos está se tornando o contrário de tudo o que ele acredita. 

Como fundador da Singularity University e um dos futuristas mais respeitados do mundo, ele lançou em 2024 “The singularity is nearer” (tradução livre: “A singularidade está ainda mais próxima”), que ainda não li.

Enfim, sinceramente, queria muito tomar um café com esse senhor e saber o que está passando pela cabeça dele nesse momento (nas entrevistas que pesquisei, ninguém toca nesse assunto — todos só falam de tecnologia).

Conclusão: acho que o livro, principalmente a segunda parte, pode ser bem benéfico para as meninas (e meninos também, por que não?).

O livro que eu li, de capa dura e 470 páginas, só existe em inglês (você pode comprar o seu na Amazon do Brasil clicando aqui). Mas achei também a versão em espanhol e alemão.

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1 comentário

  1. […] Resenha do livro  “Danielle: chronicles of a superheroine”, de Ray Kurzweil com ilustrações de Amy Kurzweil. O texto escrito está nesse link. […]

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