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A morte é um dia que vale a pena viver

Eu já tinha lido tantos elogios ao “A morte é um dia que vale a pena viver”, de Ana Claudia Quintana Arantes, que não tive outra alternativa senão comprá-lo. E lá estava ele, repousando na minha pilha com seus muitos colegas, quando recebo um email do Ézio Victor, de Guanhães, Minas Gerais. Quando eu li “moça do céu”, meu coração derreteu…rsrs… só podia ser mineiro. Ele me pede para dar spoilers com mais frequência (vou pensar nisso sem estragar a experiência das pessoas, pois o objetivo é fazer as pessoas quererem ler mais), e, no final, sugeriu justamente esse livro (ele tinha lido e gostado bastante). 

Fazer o quê? Fui obrigada…rs

O livro é em forma de crônicas, então acredito que possa ser lido em qualquer ordem (eu segui a sequência normal) e fala sobre a experiência da autora como médica especialista em cuidados paliativos. Ana Claudia dá uma verdadeira aula sobre como morrer bem.

A moça começa falando que as pessoas no Brasil evitam a todo custo falar sobre a morte e por causa disso, o país é um dos piores lugares do mundo para se morrer em termos de cuidados paliativos. Ela tomou como missão de vida mudar esse cenário (e parece estar conseguindo).

Ana Paula escreve com muita sensibilidade e conta como resolveu ser médica e que, por conta da sua hipersensibilidade empática, sofria tanto que chegou a trancar o curso. Com o tempo, muito estudo e autoconhecimento, ela foi transformando essa condição em uma espécie de superpoder.

Ela explica que a empatia é perigosa; pois ela pode nos cegar e nos fazer ir em direção ao sofrimento do outro, nos esquecendo de nós. Já a compaixão vai além da capacidade de se colocar no lugar do outro; ela nos permite compreender o sofrimento do outro sem que sejamos contaminados por ele.

Se eu for sentir a dor do outro, não posso estar presente dando apoio, pois essa também será minha dor. Se eu sinto a dor, estou em mim, não no outro.

Quando tenho compaixão pela dor do outro, respeito essa dor, mas sei que ela não me pertence. E só nessa condição é que consigo dar apoio, suporte, acolhimento. Se também estou fraca e machucada, não terei essa força.

Então, de um jeito meio torto, empatizar poderia ser uma forma de egoísmo, pois acaba fazendo a dor ser sobre nós, e não sobre o outro. Achei isso muito bom.

Ela também fala que o problema mais difícil não é a morte, mas esperar por ela. E Ana cita o psiquiatra francês Eugène Minkowski que explica 3 perspectivas duais desse tempo.

A primeira perspectiva envolve espera e atividade. Esperar alguma coisa significa não fazer, pois o resultado não depende de nós — é uma percepção dolorida do tempo.

A segunda perspectiva é sobre desejo e esperança. Desejo é buscar algo que não temos e esperança é algo que vai acontecer e queremos que seja positivo. Então podemos dizer que a esperança é uma espera com viés de otimismo.

A terceira perspectiva trata da prece e da ação ética. A prece representa a conexão com algo mais poderoso que nós —esperando que essa força maior resolva o nosso problema.

Mas a ação ética muda tudo — é encontrar essa força maior dentro de nós, não fora. É algo que nos leva a fazer pelo outro algo que está além da nossa vontade — é quando o ser humano se torna divino.

Achei meio complicado de entender, mas fica claro quando ela dá um exemplo prático. Essa perspectiva acontece quando uma mãe diz para um filho moribundo: “pode ir”. Ela faz a prece pela cura, mas em algum momento entende que o que ela deseja talvez não seja o melhor — a conexão com a força maior mostra isso.

Enfim, é complexo, mas achei que faz sentido.

Ela também fala da nossa experiência com o tempo — quando ele parece não passar, em geral, é porque ele está sem sentido, pois é geralmente um tempo de espera (seja para receber uma notícia, para chegar a algum lugar, para ser atendido, etc). Ela diz que quando uma pessoa fica à toda hora olhando no relógio esperando o fim do dia, ela na verdade está torcendo para que o tempo passe mais rápido e a morte chegue logo.

Ana Paula ainda fala das religiões (e como, surpreendentemente ateus puros costumam encarar a morte com mais serenidade) e das relações entre as pessoas e a ideia do sagrado.

Tem um capítulo que fala como é importante a gente falar sobre como queremos morrer enquanto estamos bem vivos — e como esse assunto é frequentemente evitado mesmo quando a pessoa está em fase terminal. E como ela acredita ser importante um paciente terminal saber da sua condição com a máxima honestidade para decidir por si como quer passar o tempo que lhe resta.

Acredito que seja mesmo uma questão cultural. Aqui na Alemanha tem um site do governo onde você deixa por escrito a sua Vorsorgevollmacht (uma espécie de procuração), onde você preenche um formulário dizendo quem você quer que tome as decisões quando você não estiver mais apto, se quer ou não doar órgãos, se quer ou não ser ressuscitado ou alimentado por sonda em caso de doença terminal e mais um monte de outros aspectos. É bacana porque, além da família, ajuda também a equipe médica a tomar as decisões.

O Conrado e eu conversamos bastante sobre a morte, então acredito que não vai ser difícil aproveitar bem os últimos tempos quando eles chegarem. 

Li o livro e me deu uma paz sabendo que estou tranquila com a minha morte (claro, da perspectiva confortável de quem não está doente). 

Certamente eu gostaria de viver pelo menos mais uns 30 anos (na verdade, tenho planos para umas 5 encarnações…rsrs). Mas se eu tivesse que ir embora amanhã, e soubesse que ia acabar mesmo, de verdade, iria tranquila e com o coração leve — tive a melhor vida possível, aproveitei o que pude, tentei não fazer o mal (apesar de ter errado muito), amei e fui muito amada, e se quem ficou esquecer da minha existência também não vai ser nenhum drama. Tenho consciência dos privilégios e da imensa sorte — não é assim para todas as pessoas e não tem a ver com a vontade delas.  Mas eu posso dizer que meus dias têm valido a pena viver.

Recomendo muito que todo mundo leia esse livro e pense a respeito da sua vida e da sua morte. Um exercício necessário para a gente entender nosso tempo e o significado dele na nossa vida. Também para aprender a lidar com as perdas e a consciência da finitude. Merece todo o hype que teve. 

A Ana Claudia é um ser iluminado que certamente fez o mundo um lugar melhor para se viver e, por que não, morrer.

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1 comentário

  1. […] Resenha do livro  “A morte é um dia que vale a pena viver”, de Ana Claudia Quintana Arantes. O texto escrito está nesse link. […]

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