Ganhei “Aos pés da letra”, de Gregorio Duvivier, de presente da minha irmã; ela me disse que eu iria gostar. Como você me conhece bem, hein, Andréa?
Pensa numa delicinha! Eu me senti de novo na adolescência, quando praticamente comia Luís Fernando Veríssimo em todas as refeições. Aquela prosa irresistível, brincando com o nosso idioma e fazendo a gente pensar além do óbvio.
Gregório Duvivier não fica devendo nada ao grande mestre. Ele joga, levanta e corta; no final a gente ainda ri.
A tese inicial vem de estudos (clássicos dos princípios de design) que defendem que as palavras transmitem ideias por si mesmas, independente do significado. O exemplo mais conhecido é o Kiki-Buba; se orientados pelos sons, veremos que Kiki vai ser representada por uma forma cheia de pontas e Buba vai ser toda redonda e fofinha.
Como não é um trabalho acadêmico, é claro que ele não cita as fontes e, pior (ou melhor) — a tese é só um pretexto, pois, apesar de concordar na maioria das vezes que a palavra tem “a cara” do seu significado, em outras ele se contradiz e mostra o contrário, o que faz a coisa ficar mais divertida.
O livro é um conjunto de crônicas que podem ser lidas de maneira independente, porém estão encadeadas de maneira que a primeira palavra da próxima é quase sempre a última da anterior.
O bom é que a gente começa a ver palavras conhecidas por um novo ângulo, sempre bem-humorado e original — há também muitos termos novos que eu não conhecia. Outra coisa interessante é a comparação de algumas expressões usadas no português europeu com o português brasileiro; essa parte é divertida demais!
Ele fala de expressões brasileiras que são intraduzíveis (é claro que ele não cai na fake news da “saudade”— o moço realmente pesquisou e é muito mais original). Antes dele, eu nunca tinha reparado que quando a gente pede para alguém caprichar em algo (um suco, um sanduíche, por exemplo), não é a mesma coisa de pedir para a pessoa ser generosa — não é somente sobre isso — tem uma questão afetiva envolvida, assim como o “chorinho”e a “saideira”.
Brincadeiras muito legais que só quem realmente se ocupa do assunto percebe que LUAR (que também é difícil de traduzir em outros idiomas) é exatamente RAUL ao contrário. Você já tinha reparado?
Fala do prefixo DES (como em desacreditar), para logo em seguida sugerir novas palavras muito mais adequadas que as que são usadas hoje. Desdormir, em vez de acordar (desacordar nada tem a ver com isso); desenvolver, significando o término de uma relação (deixar de se envolver). E por que temos desleixo como falta de cuidado, se cuidado não é leixo? Fica o questionamento…
Ele analisa nomes próprios, apelidos, palavras inventadas, palavras que já morreram e depois ressuscitaram, palavras que mudaram de significado.
Dá uma aula de poesia quando explica o homoteleuto (duvido que você conheça essa), sobre o privilégio que é termos os verbos ser e estar (a maioria das línguas só tem ser, significando os dois).
Discute também as palavras que vivem num relacionamento aberto, mas só para um lado (pro exemplo, ledo, só aparece com o engano, apesar do segundo passear sozinho por aí); o mesmo acontece com rio caudaloso, árvore frondosa, crime hediondo, terreno baldio e erro crasso, entre outros.
Ele explica palavrões, questiona a origem etimológica controversa ou desconhecida de algumas palavras, e, para o deleite final, honra os humilhados que falam “pobrema”.
Enfim, se você gosta de se divertir com a nossa língua, as nossas manias, as nossas gírias e o nosso jeitinho, esse é o livro.
Se você não gostar, desculpe, mas bom sujeito você não é….rs
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