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A hora azul

Eu encontrei “The Blue Hour” (tradução livre: “A hora Azul”), de Paula Hawkins, num sebo aqui de Berlim. Não gosto muito de livros de capa dura; são belíssimos, mas chatos de segurar enquanto a gente lê — mas esse me chamou especial atenção não apenas pela capa, muito bonita, mas também porque já li os outros 3 livros da autora (A garota no trem, Dentro D’Água, e Queimando em fogo lento) e gostei muito.

A história é bem diferente das outras (de fato, essa moça é muito criativa!). 

Tudo começa com uma peça exposta na Tate Modern, de Londres. É uma escultura que mistura cerâmica com folhas de outro e objetos diversos suspensos por arames e um pedaço de osso (aparentemente uma costela de algum animal). A composição, chamada Division II, está roda encerrada em um cubo de vidro construído pela própria artista, a famosa Vanessa Chapman, morta há alguns anos.

Só que o diretor do museu recebe a carta de um visitante que é antropologista forense e ele diz, por experiência profissional, que aquela costela é de um ser humano. 

Aí começa a desenrolar uma história cheia de perguntas e mistérios. Começa que todo o acervo da artista foi doado em testamento, após sua morte, para a Fundação Fairburn, cujo presidente era seu ex-marchand, ex-amante e arqui-inimigo, contra quem se defendia de muitos processos judiciais nos últimos anos de existência.

A briga começou com uma grande exposição individual de Vanessa que ia acontecer em Glasgow, em que ela preparou uma coleção inteira para o evento e fez várias reuniões com Douglas. Só que Vanessa acaba entregando apenas uma pequena parte da lista de obras que havia prometido, sem dar nenhuma satisfação para o marchand e causando um enorme prejuízo.

Douglas Lennox, o tal homem, era riquíssimo, casado, e foi acidentalmente morto algum tempo depois pela esposa (que pagou um funcionário para assumir a culpa, mesmo acidental).

James Becker, o curador responsável pela coleção é um admirador de longa data da artista que dedicou seu doutorado a ela, tem uma história complicada, pois, sendo de uma classe social inferior, acabou se casando com a ex-noiva do então filho de Douglas Lennox, Sebastian, que agora preside a fundação e é seu chefe. A relação aparentemente civilizada entre os três é cheia de tensão, principalmente agora, que Helena, sua esposa, está grávida.

Tem uma história bem mal contada de que Grace, melhor amiga de Vanessa, a artista, não entregou todas as obras para a fundação. Ela entregou boa parte do acervo

A história das duas também é cheia de lacunas. Pelos cadernos, cartas e diários que vão sendo reproduzidos ao longo da história, Vanessa parece ser uma pessoa muito intensa; temperamental, emocional e muito talentosa, a moça, belíssima, compra uma ilha no litoral da Escócia, daquelas que só é acessível por terra durante a maré baixa (eu imagino algo como a Ilha de San Michel, na França). 

Ela mora sozinha lá numa casa antiga e tem um depósito, no alto de um morro e com uma estupenda vista, que serve como seu atelier.

Vanessa é casada com Julian, um playboy charmoso, porém, puro lixo. Ele a trai de várias maneiras possíveis e está sempre precisando de dinheiro, pois não trabalha e tem um estilo de vida incompatível. Apesar de tudo, toda vez que ele aparece na Ilha, Vanessa se derrete e os dois vivem dias tórridos.

Um dia Vanessa se machuca e procura o posto médico local, onde encontra Grace, a médica de plantão. As duas acabam virando amigas, a ponto de Vanessa convidá-la para morar na Ilha com ela.

O marido de Vanessa desaparece sem deixar rastros, a polícia investiga, mas não descobre nada. Anos depois, Vanessa morre de câncer de mama e Grace fica sozinha na ilha.

Becker é destacado para ir até a ilha fazer mais pressão sobre Grace para que ela entregue o resto do material para a fundação; os cadernos, diários, alguns quadros, e as peças da exposição que continuam desaparecidas. 

Ele tenta encontrar a resposta para muitas perguntas: por que Vanessa deixou seu legado para o homem com quem passou os últimos anos lutando judicialmente? Onde está Julian? Por que Grace não ficou com o espólio, já que foi a pessoa que apoiou Vanessa até o final de seus dias e cuidou de tudo? De quem é o tal osso humano que está na escultura de Vanessa?

Com Paula Hawkins, nada é o que parece, e a gente vai descobrindo os vários plot twists aos poucos, numa tensão sempre crescente.

Se você gosta de suspense (e de arte), recomendo demais.

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