Faz tempo que quero visitar Istambul, não só pela geografia única (a cidade está em dois continentes ao mesmo tempo), como pela história (já foi a sede do império Bizantino, depois a sede do império otomano como Constantinopla e agora, Istambul). E para lugares assim, sempre gosto de ler coisas a respeito antes.
Ainda não sei quando vou visitar essa lindeza (provavelmente não esse ano), mas eu sabia que antes tinha que ler The Museum of Innocence (tradução livre: “O museu da Inocência”), de Orhan Pamuk. Como o negócio é um tijolão de mais de 700 páginas, há que se estar preparada (não dá para deixar para ler na última hora).
Então vamos à história.
Kemal é o personagem principal; filho de uma família rica e pertencente à elite local, vive no mundo dos playboys. Restaurantes, festas e viagens para a Europa (onde fez faculdade). Ele namora Sybel, uma moça da mesma classe social, linda, culta, também estudada e moderna.
Estamos em 1975 e o mundo está passando por transformações de costumes. Nessa época eu tinha 9 anos de idade, e o cenário que ele descreve nessa e nas décadas seguintes, parece o Brasil. Apesar das questões políticas, intervenções militares e desigualdades sociais, a maior preocupação de todos parece ser a virgindade das mulheres; quem não é mais virgem, quem está dormindo com quem, quem já não “vale” mais.
Tudo parece ir bem; Kemal e Sybel transam no escritório dele de vez em quando e é claro que todo mundo fica sabendo. Porém, como eles são muito modernos e vão se casar, as pessoas fazem vista grossa.
Eis que um dia, os dois estão saindo de um restaurante e passam por uma loja, onde Sybel gosta de uma bolsa de grife que está na vitrine de uma loja. No dia seguinte, Kemal vai até a loja para comprar a bolsa e fazer uma surpresa. Só que ele descobre que a vendedora é Füssun, uma prima distante, belíssima.
Ele tem 30 anos e Füssun está na flor dos 18. A beleza dela chama muito atenção, a ponto da mãe tê-la inscrito num concurso de beleza (ela não ganhou). Bastou para ser mal vista pela sociedade (imagina, desfilar de maiô na frente de todos — coisa de mulheres fáceis) e segregada pelos parentes. Inclusive, a mãe de Kemal, amicíssima da mãe de Füssun, nem fala mais com ela.
Acontece que Kemal fica fascinado pela moça, e ela, novinha, cai nos encantos do jovem playboy, a ponto de entregar sua virgindade para ele (lembrando que, na época, essa era uma questão seríssima). Os dois então se tornam amantes e se encontram diariamente num apartamento enorme e cheio de tralhas que a mãe dele tem num bairro próximo (ela usa meio que como depósito, para guardar móveis antigos e coisas que ela não usa mais).
Só que o noivado com Sybel já está marcado; vai ser no Hilton, com toda a alta sociedade da cidade, incluindo colunistas sociais, convidados.
É preciso dizer que Kemal é uma criatura extremamente sem noção — ele continua namorando as duas sem tomar nenhuma decisão — achando que a vida dele vai continuar exatamente como está. E está tão obcecado por Füssun, que retira da lista de convidados um antigo admirador dela (a moça já teve vários) e coloca a família dela no lugar (a mãe não tinha convidado por conta da história do concurso).
Füssun acaba ficando numa mesa para pessoas menos chiques, perto dos funcionários, e acaba ouvindo a fofoca de que Kemal e Sybel costumavam transar no escritório dele.
Como era de se esperar, a moça fica devastada (ela tem 18 anos, gente) e some da vida de Kemal.
O homem enlouquece a ponto de virar um zumbi e não conseguir mais trabalhar direito (faz várias besteiras) e Sybel, não sabendo do que se trata, mas achando que ele está doente, acaba indo morar com ele numa espécie de casa de praia da família, num ponto mais afastado da cidade. Eles não transam mais, ele está cada vez mais obcecado e ninguém conversa com ninguém (ai que agonia).
Até que ela se cansa e mesmo colocando seu futuro em cheque (ela já até morou com o noivo, imagina!), resolve terminar o noivado e ir embora (claro, pois se dependesse dele — pensa uma pessoa passiva, que não decide e nem conversa).
Kemal continua na sua obsessão, passando horas do dia sem trabalhar revisitando o tal apartamento vazio. Até que descobre uma amiga do concurso de beleza e consegue informações de Füssun.
O pai dela, para remediar a situação, casou a filha com um amigo de infância dela que, para a surpresa de zero pessoas, sempre foi apaixonado por ela. Como o rapaz quer ser cineasta e não ganha muito bem (é só 5 anos mais velho que Füssun), os dois moram com os pais.
Pois não é que Kemal resolve visitar quase que diariamente os tios (e, consequentemente, Füssun e o marido) por longos 8 anos (quase 9)?
Sério; nenhum dos envolvidos conversa a respeito. Todo mundo age naturalmente — Kemal até abre uma produtora de cinema com o rapaz para ter mais assunto, já que o sonho de Füssun é ser uma estrela de cinema.
Para mim vai dando uma agonia enorme essa situação indefinida — onde ninguém — nem Füssun, nem Kemal, nem o marido dela, tomam uma atitude para resolvê-la.
Füssun e Kemal não são amantes; nunca ficam a sós. Nunca conversam, apenas falam amenidades nas conversas de família.
E Kemal vai roubando objetos do dia-a-dia que pertencem ou já estiveram na mão da sua amada; ele repõe com outros, mas vai acumulando uma montanha de coisas no tal apartamento da mãe, seguindo a tradição familiar…
Bom não vou falar do final da história deles, mas a grande sacada do autor, que ganhou até um prêmio Nobel de Literatura, é que essa história é fictícia, mas ele construiu um museu de verdade com objetos da época, como se pertencessem à Füssun.
Na história, Kemal viaja pelo mundo pesquisando museus autorais (inclusive O Berggruen, aqui em Berlin) e compra a casa de Füssun para fazer o museu. Pensando que é preciso que exista um livro para contextualizar o museu, ele contrata o famoso escritor Ohran Pamuk (o verdadeiro autor do livro) para contar toda a história. Pamuk, inclusive, aparece como um dos convidados da suntuosa festa de noivado de Kemal e Sybel, tendo dançado com Füssun, na oportunidade.
Essa mistura entre realidade e ficção ficaram muito bem combinadas, além de partes da história real da Turquia, que aparece como pano de fundo (a ocidentalização do país, a entrada da Coca-Cola, a invasão dos filmes americanos, os vários golpes militares, a decadência arquitetônica e a degradação que já foi sede do império otomano, a importância da religião, enfim).
Eu achei a história muito bem contada (apesar de bem agonizante; talvez não fossem necessárias tantas páginas).
Pesquisando, descobri que existe uma série na Netflix baseada nessa história; então, se quiser economizar as mais de 700 páginas, é uma alternativa.
Mas se você, como eu, prefere ler o livro, é só clicar nesse link para comprar a versão em português na Amazon do Brasil.

