Eu geralmente gosto de ler Dan Brown em alemão, porque ele tem um texto fácil, capítulos curtos e muita ação, o que facilita muito a leitura em um idioma mais difícil. Por isso recomendo muito para quem estiver aprendendo outro idioma e quiser praticar.
Porém, ganhei “The secret of secrets”em inglês, capa dura, do meu querido cunhado Hugo. Aí fica difícil de recusar, né? Bora ler em inglês, que é bem mais fácil que alemão.
Bom, finalmente, dessa vez, o professor Robert Langdon conseguiu uma namorada; é Katherine Solomon, uma pesquisadora neurocientista que está prestes a lançar um livro sobre suas pesquisas que vai revolucionar a forma como a humanidade entende o conceito de consciência.
É claro que forças ocultas vão fazer de tudo para impedir que esse livro seja publicado e a história é basicamente sobre as aventuras que o casal passa para sobreviver aos vilões que não querem que esse conhecimento chegue ao grande público.
Mas vamos ao conceito que a Dra. Katherine tem sobre consciência, que ela chama de ciência noética — fui pesquisar e isso existe mesmo, mas é considerada pseudociência porque a maioria dos experimentos não segue o rigor do método científico.
Mas vamos à essência da ideia, que eu achei super interessante. Tudo começa com alguns fenômenos de experiências fora do corpo que até agora não têm explicação na ciência — além de alguns comportamentos estranhíssimos — tipo uma pessoa que bate a cabeça e acorda falando outro idioma; uma criança que compõe sinfonias aos 6 anos de idade; pessoas que mudam totalmente de personalidade depois de um determinado evento ou acidente.
Eu sou uma pessoa cética e agnóstica, isso é, na minha essência, eu duvido das explicações simples. Mas eu nunca duvidei dos fenômenos.
Sempre penso que antes de a gente saber sobre os campos geomagnéticos e tempestades solares, a explicação para a existência da aurora boreal era religiosa — algo relacionado com o deus Odin. O mesmo acontecia com os eclipses; até algum tempo atrás, acreditava-se que era obra de deuses, assim como enchentes, relâmpagos e outros fenômenos naturais.
Eu acredito que pelo simples fato de a gente não conhecer uma explicação, não significa que ela não exista. Penso que a questão é questionar e estudar mais, até entender o que acontece. E, olha, tem tanta coisa ainda para aprender, que ninguém pode reclamar de tédio…rs
Então, algumas religiões apresentam explicações para esses fenômenos, como a reencarnação — e respeito. Como sou agnóstica, não tenho certeza de nada. Então não descarto essa possibilidade. Mas não considero a única possível resposta — estou aberta a procurar outras.
E essa explicação da Dra. Salomon parece muito interessante. Ela entende que a consciência, esse conceito que ninguém entende direito o que significa, mas faz a gente ser quem é, é algo externo ao nosso corpo.
A ciência clássica tem algumas evidências de que alterações físicas no cérebro podem provocar alterações na consciência. Então, o ser, a identidade, a pessoa, é o que está dentro do cérebro dela. Se o cérebro se estraga, por algum motivo, a integridade da pessoa se perde. Em alguns casos, ela pode perder a própria consciência. Então ela estaria limitada ao nosso corpo físico.
As religiões consideram a existência de algo chamado alma, que seria o que fica depois que o corpo se extingue, porém, não há evidências científicas que suportem essa ideia (não significa que não exista — só significa que temos que estudar mais para entender melhor o fenômeno).
Mas a alternativa que o livro apresenta é muito instigante e, para mim, faz mais sentido. Dra. Salomon diz que o volume de conhecimento e memórias que um ser humano acumula durante a vida não é compatível com o número de células do cérebro (meus conhecimentos não são suficientes para concordar ou discordar — vamos aceitar por hora e ir adiante, então).
Por causa disso, a teoria noética é de que a consciência não está numa pessoa ou numa alma; mas numa rede que permeia o universo.
Como se fosse a internet com seus dados circulando pelo espaço. O cérebro nada mais seria do que um receptor — que sintoniza o canal da consciência daquela pessoa. Quanto mais a pessoa vive, estuda ou tem experiências — mais ela refina a sintonia e consegue mais informações da rede geral, ao mesmo tempo que também contribui mais para o bolo.
Quando acontece algum acidente, dano ou perda no receptor, no caso, o cérebro, pode ser que ele passe a receber canais que não são o seu.
Aí pode haver recepção de mais de um canal (como a esquizofrenia, onde a pessoa tem mais de uma personalidade) ou canais que antes não estavam acessíveis (conhecimento sobre um idioma com o qual nunca teve contato antes). Ou perder mesmo a capacidade de recepção (casos de demência, por exemplo). Ou a pessoa pode já nascer com canais mais alinhados ou menos (talentos específicos ou deficiências em algumas áreas).
Mas no geral, é como se toda a informação sobre todas as consciências estivessem misturadas numa nuvem e cada um, ao nascer, ganhasse um receptor específico para acessar o seu canal.
Quando o corpo morre ou o receptor deixa de funcionar, a informação toda volta para o servidor central com mais aquelas experiências e contribuições que vão para o acervo universal.
Isso também explicaria experiências fora do corpo (onde o receptor, no caso, o cérebro, é “hackeado”), muitas vezes causadas por drogas ou substâncias alucinógenas (Dra. Salomon diz que isso é muito arriscado, pois pode provocar danos físicos permanentes e estragar o receptor).
Achei uma explicação bem razoável e que, para mim, faz sentido. E não tem nada a ver com religião (a função da ciência é tentar entender o COMO e não o porquê). Dar significado ao mecanismo é próprio dos humanos, por meio da filosofia ou da religião.
Além de tudo achei poético, pois há muito se entende que estamos todos interligados, pois cada ação individual tem impacto sobre o todo — mas não tinha pensado nessa metáfora da nuvem e do receptor de rádio que sintoniza o seu canal.
A partir dessa linha de raciocínio as pessoas fazem desdobramentos que acho meio viagem e acho que estrapola bastante a ideia inicial — além do que não podemos perder de vista que é um livro de ficção — a ideia aqui é entreter e exercitar a imaginação. Então a realidade, o que é ou não possível, não estão em questão.
Também tem aquela parte que eu odeio-detesto-abomino que é a ideia de um gênio (no caso a Dra. Brigita Gessner, a arqui inimiga da Dra. Salomon) toca um laboratório de desenvolvimento absolutamente sozinha, somente com uma assistente leiga.
Eu fico tão irritada com a ideia de que um único ser humano tem o conhecimento todo necessário para desenvolver um projeto de pesquisa super complexo, que envolve diferentes áreas da neurociência e da realidade virtual — isso é simplesmente impossível. Se a pessoa é muito especialista, aí mesmo é totalmente impossível fazer tudo sozinha — pois precisa de outros igualmente especialistas em outras áreas para fazer a coisa andar. Sem dizer que conseguem guardar segredo e fazer experimentos em um laboratório imenso; quem instalou as máquinas, fez a parte elétrica, encanamento — não tem ninguém que entra lá nem para fazer a limpeza? Sério, essa parte da brincadeira acho muito mal feita.
Outra coisa que me pegou foi a doutora Salomon, em vez de publicar vários papers sobre sua pesquisa em revistas científicas especializadas, resolve pular essa etapa e ir para a publicação de um livro voltado para leigos (típico de pseudociência…).
Mas, para aém dessa metáfora que achei muito interessante, toda a história se passa na belíssima cidade de Praga e uma coisa que o Dan Brown faz muito bem é ser um ótimo guia turístico. Eu estive em Praga uma vez (foi só um final de semana) — então já preciso voltar para visitar os lugares que ele cita com muita propriedade. Uma coisa que eu gosto no autor é que ele não economiza na pesquisa; a equipe dele é muito competente e, apesar de fantasia e ficção, os fatos históricos são bem fundamentados.
Então, se você quer se divertir enquanto passeia pelas ruas de Praga enquanto simplesmente devora quase 700 páginas sem nem perceber, vai que eu garanto!
A versão em português saiu como “O segredo final” e está nesse link da Amazon do Brasil.

