Eu tinha amado “The long way to a small angry planet” (tradução livre: “Um longo caminho para um pequeno planeta raivoso”), que é o primeiro livro de uma trilogia. Para mim, uma aula de liderança para botar no bolso qualquer livro de negócios sobre o tema.
Eis que estava visitando minha livraria preferida de ficção científica quando vi, na seção de livros usados em inglês, “A closed and common orbit” (tradução livre: “Uma órbita fechada e comum”), da maravilhosa Becky Chambers, que é o segundo livro da trilogia.
Essa moça, para mim, é uma das maiores descobertas literárias dos últimos tempos. No primeiro livro, como eu disse, ela deu uma aula magna de liderança.
Nesse segundo livro, o tema é diversidade e adaptação, identidade e o papel do corpo nisso tudo. E tem muitas camadas sobre desigualdade, tecnologia e poder.
Mas vamos à história.
No livro anterior, tínhamos a Lovelace (amo esse nome), o computador de bordo da nave Wayfare, uma nave espacial especializada em furar buracos de minhoca que cortam caminho entre galáxias. A nave tem uma tripulação de 9 seres contando a Lovelace, sendo 5 humanos e os demais de outras espécies alienígenas.
Lovelace é uma Inteligência Artificial senciente, isso é, tem consciência e sentimentos.
Lovey, como é chamada pela tripulação, desenvolve um relacionamento afetivo com o engenheiro de software, a um ponto em que ela pede para ser transportada para um corpo físico.
Ela quer ter uma forma humana, mas corpos humanos sintéticos são ilegais. Os dois têm longas discussões sobre as consequências dessa decisão, não só pela questão jurídica, mas também sobre o emocional dos dois.
Em um corpo humano simulado, Lovey não vai mais poder fazer seu trabalho cuidando da nave e do bem estar de todos — ela tem sensores para monitorar a saúde de cada um, todos os motores, o ambiente externo, ajudar na pilotagem, enfim, é um ser vivo no corpo de uma nave espacial. Eles conversam muito sobre isso, falam sobre os problemas, mas a paixão é maior.
Enquanto isso, Jenks, o engenheiro, reúne todas as suas economias e pede para sua amiga Pepper descobrir como se consegue comprar um kit, que é como se chama um corpo humano artificial.
Pepper mora numa lua chamada Port Coriol e trabalha consertando e reaproveitando equipamentos eletrônicos em sua pequena oficina. Ela é super nerd e consegue comprar o tal kit, que fica guardado até que a Wayfare possa fazer uma visita ao local.
*** a partir daqui tem spoiler do primeiro livro ***
*** leia por sua conta e risco ***
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Preciso dar spoiler do primeiro livro para contextualizar o segundo. Recomendo que você leia o primeiro livro antes!
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Bom, só que nesse meio tempo, a Wayfare sofre um ataque (quando está perto do planeta raivoso do primeiro episódio) e Lovey acaba precisando ser reiniciada — só que no processo, ela perde a memória. Jenks fica arrasado, inconsolável. É claro, ele perdeu seu grande amor de anos.
Quando Lovey reinicia, ela está zerada, como uma máquina que acabou de sair da loja. Não entende porque ninguém da tripulação quer falar com ela e porque estão todos com cara de enterro.
Pepper vai até a nave a pedido da colega de Jenks, Kizzy, explica a situação para Lovey e lhe faz uma proposta: levar o “cérebro” de Lovey para o corpo que está na oficina dela e ir morar com Pepper e o marido, Blue. Ela também oferece um quarto na sua casa e um emprego na oficina. Sabendo que nunca será aceita de coração pela tripulação da Wayfare, mesmo que a culpa não seja dela e nem de ninguém, ela acaba aceitando.
E esse segundo livro começa justamente quando Lovey, que agora se chama Sidra, reencarna em seu kit.
E aí temos um verdadeiro estudo antropológico sobre o quanto o corpo físico influencia na percepção que a pessoa tem sobre si e sobre o mundo.
Sidra estranha demais as limitações do corpo; antes ela tinha câmeras espalhadas pela nave, por dentro e por fora — agora ela só tem um par de olhos. Ela fica muito perturbada em não conseguir ver o que está atrás dela.
A outra coisa é que, como nave, ela monitora tudo o tempo todo. Mas num ambiente aberto, ela não consegue processar todas as informações e fica sobrecarregada. Outro problema é que na nave, ela está sempre conectada com os links de informação (como se sempre estivesse online, caso precise buscar um dado) — mas como humana, ela precisa se conectar em uma base. Existem soluções sem fio, mas chamaria muita atenção, já que é ilegal também.
Ela está exausta, infeliz, sentindo-se um peso, e não sabe o que fazer. Até que Pepper e Blue a levam numa festa. Apesar do excesso de estímulos, ela fica encantada e conhece Tak, um ser da espécie Aeluon que também precisa de uma certa ajuda tecnológica para viver.
É que os Aeluon mudam de gênero de tempos em tempos. No planeta de onde eles vêm, o processo é natural, pois estão entre os seus. Mas vivendo no mundo aberto, os adolescentes recebem implantes para ajudar a controlar os efeitos colaterais. Então, de certa forma, Tak também tem seu corpo modificado para conseguir viver com mais conforto.
Então, mesmo que muito de leve, Sidra se identifica de alguma maneira e torna-se amiga de Tak na tal festa. Depois descobre que Tak é tatuadora e resolve fazer uma tatuagem para ver se consegue se ver melhor em seu próprio corpo, com uma mudança decidida por ela própria e não por terceiros. A coisa não dá muito certo, mas a amizade vai se tornando cada vez mais profunda (e é só nesse ponto que Tak descobre que ela não é uma humana, o que traz um monte de questionamentos na relação).
Paralelamente, em capítulos alternados, vamos conhecendo a história de Pepper, que originalmente se chamava Jane 23, e passamos a entender porque tamanha generosidade em acolher Sidra.
Jane 23 é um clone desenvolvido num planeta distante para reciclar eletrônicos. É um planeta muito rico e consome muito, porém, já esgotou seus recursos naturais. Então existe uma indústria gigantesca de separação, manutenção e reconstrução desses resíduos (ninguém quer consertar o que tem, precisa sempre consumir mais — então a indústria recolhe o lixo e o utiliza para construir mais lixo para ser consumido).
Jane nasceu e cresceu dentro da indústria de reciclagem — ela e as outras tantas Janes têm agora, no início da história, 9 anos de idade (Marys têm 12, Hannas têm 13, e assim por diante — elas são separadas por lotes).
As meninas passam o dia separando os eletrônicos na esteira — comem e dormem nos horários certos e são monitoradas pelas mães — robôs de metal. Jane 23 dorme sempre abraçada com Jane 64 — os estudos mostraram que os humanos são gregários e se sentem melhor juntos — então as meninas sempre dormem em duplas ou trios. De fato, funciona. É um mundo horrível, porém controlado e conhecido. Ela adora Jane 64, sua irmã querida.
Um belo dia, quando Jane 23 tem 10 anos, acontece uma explosão na linha de produção que abre um buraco na parede da fábrica. Curiosa, ela olha pelo buraco e vê o céu, sem entender o que era aquilo (ela nunca saiu da fábrica). As “mães” rapidamente colocam um tapume provisório, mas Jane 23 convence Jane 64 a irem à noite visitar o local para verem novamente aquilo que ela não consegue entender.
Pois bem, como esperado, as duas são pegas no flagra e Jane 64 é capturada — mas Jane 23 consegue fugir, cheia de culpa (Jane 64 grita para que ela corra e fuja, sabendo que será morta — as meninas são clones baratos, justamente por isso são usadas como mão de obra em vez de robôs, que custam mais caro).
Jane se descobre no escuro, no meio de um ferro velho gigantesco, perseguida por cachorros selvagens famintos. E é salva por uma voz que a chama para dentro de uma nave. É uma Inteligência Artificial chamada Owl. A nave está abandonada há anos porque os tripulantes foram presos (vieram ao planeta protestar contra o uso de clones nas fábricas).
Owl cuida de Jane da maneira que consegue, mas a menina tem que se virar para conseguir água e comida. Inteligente e muito criativa, Jane leva quase 10 anos para consertar a nave e sair do lugar, para depois se transformar em Pepper (e a história até ela chegar lá é muito boa).
Enfim, há discussões filosóficas sobre propósito, identidade, diversidade, qual o nosso papel no mundo, como a gente se adapta e sobrevive num universo injusto e desigual, sobre o valor da amizade e da conexão com afeto . Tem também plot twists, surpresas, momentos bem tensos e muita aventura.
Um dos melhores livros que li esse ano. Vou procurar o terceiro volume da série. Recomendo com muitas estrelinhas.
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“A closed and common orbit” saiu em português como “A vida compartilhada em uma admirável órbita fechada” e você pode comprar o seu exemplar clicando aqui.

