A história desse livro é inusitada (pelo menos para mim). Eu fui buscar um pacote em Paris que o correio se recusou a entregar (um protótipo de um equipamento eletrônico que o Conrado está trabalhando) e levei um livro só para a viagem. Eu li inteiro na ida e meio que bateu o desespero porque não ia ter nada para ler na volta.
Passei muito pela cidade (foram quase 40 km em um dia e meio) e vi muitos sebos, mas infelizmente não leio francês. Então me lembrei que uma das livrarias em inglês mais famosas do mundo fica em Paris; a Shakespeare & Company.
Como virou atração turística, tinha uma fila enorme para entrar, pois o local é pequeno (é uma livraria bem comum; é famosa pela história — era um hub de escritores e intelectuais). Para minha sorte, do lado de fora tinha uma prateleira cheia de livros usados. Escolhi “Bear”, de Julia Phillips, e fui direto no caixa pagar (sim, para quem queria só comprar não tinha fila…rs).
Achei uma boa escolha; a história é triste, mas muito bem contada.
Mas vamos a ela.
A protagonista é a Samantha (Sam), que mora numa ilha pertencente a um arquipélago bem ao norte dos EUA, perto de Vancouver, no Canadá.
Sam mora com a irmã, Elena, e a mãe delas, que está doente.
Sam e Elena sempre foram muito unidas. A mãe trabalhava como manicure e parece meio cabeça de vento. Engravidou das duas, mas elas não sabem quem são seus pais (e talvez seja melhor assim). As duas moravam com a avó e a mãe, mas a avó morreu quando eram pequenas.
Logo depois, a mãe levou um namorado para morar na casa antiga, caindo aos pedaços — ele era um terror. Batia na mãe, maltratava as meninas e transformava a vida delas em um inferno. Até que, depois de anos, Elena teve coragem de contar na escola o que estava acontecendo, e o cara foi afastado (preso?).
As duas terminaram a High School, mas, como a ilha era muito pequena e elas eram apenas as filhas da manicure, não conseguiram bons empregos. Com a mãe doente e os estrago que a pandemia fez nos lugares turísticos, tiveram que aceitar o que tinha — trabalhar como garçonetes (Elena no clube de golfe e Sam no ferry que faz os passeios entre as ilhas).
A vida das duas é um inferno e sem perspectivas; a mãe de cama o dia todo, gastando fortunas em remédios e tratamentos (e viva o SUS!). Elena afundando em dívidas, pois, apesar de somente um ano mais velha, assumiu o papel de mãe e responsável pela casa desde cedo.
Quando elas eram adolescentes, Elena prometeu que, quando a mãe morresse, as duas venderiam a casa e finalmente poderiam tentar a vida em outro lugar. Apesar de velha e mal conservada, a localização era boa, o cálculo era de que o valor podia dar a elas uma vida maravilhosa, talvez no continente.
Nisso, o tempo foi passando e tudo continuou igual (ou pior; pois as dívidas aumentaram muito).
Agora temos duas mulheres, por volta dos 30 anos de idade, vendo a vida passar miseravelmente, presas na ilha cuidando da mãe enquanto tentam sobreviver em subempregos; todo dia as moças são submetidas a humilhações e tentam fazer bicos para complementar a renda.
Até que um dia, Sam está no ferry e consegue ver um urso nadando no canal. Dias depois, o animal aparece na porta da casa delas. O bicho é gigantesco; só a pata é do tamanho da cabeça delas.
Sam, além de apavorada, fica revoltadíssima — ainda mais esse problema para se preocupar. Sam é sempre irritada, mau humorada e não tem amigos. Para ela, o mundo é a irmã — nada mais importa. Sam espera impacientemente a situação mudar (apesar da enorme culpa, pois ela ama muito a mãe) e vive fazendo planos para o futuro. É isso; Sam sobrevive somente por causa da crença de que o futuro será diferente.
Elena vive sobrecarregadíssima; é a pessoa adulta da casa. Cuida das contas, assume as responsabilidades, tenta manter o equilíbrio e o ânimo. A mãe, fraca, passa o dia vendo TV e acha lindíssimo o que as filhas estão fazendo por ela.
Até que aparece o tal urso. Ao contrário de Sam, Elena fica fascinada com o bicho. A ponto de atrai-lo no caminho do trabalho para casa (como elas só têm um carro, Elena anda alguns quilômetros todos os dias), pois ela passa por uma floresta.
Elena leva sobras de alimentos para o animal e tenta fazer amizade com ele. Sam não entende, mas Elena explica que ela se sente viva e especial pela primeira vez na vida. Agora ela é uma pessoa que tem um amigo urso — quase ninguém no mundo é assim. A força e a energia da fera são hipnotizantes para ela.
E aí começa o grande conflito da história — Sam não quer mais ninguém na vida de Elena, muito menos algo que a prenda à Ilha que elas estão sempre prestes a deixar. A racionalização disso é a preocupação que a irmã seja devorada. Então Sam procura ajuda especializada, com uma bióloga que ela aprende a detestar também por ser o seu oposto (calma, simpática, com oportunidades, feliz no seu trabalho).
O jogo psicológico entre as irmãs é pesado — elas se amam muito, mas a ligação entre elas é tão forte que chega a machucar. Elena se sente esmagada e pressionada.
No meio disso, a mãe morre, Sam descobre que as dívidas são maiores que o valor da casa e Elena não tem a menor intenção de se mudar. O mundo dos sonhos de Sam desaba.
Não vou contar o final para não dar spoiler, mas já adianto que é muito triste.
De qualquer forma, recomendo. A história é bem escrita, as personagens são profundas, o conflito é bem real. O livro, não à toa, foi indicado e ganhou vários prêmios.
Achei traduções para o espanhol, francês e alemão, mas nada em português. Se quiser garantir seu exemplar em inglês, é só clicar nesse link da Amazon do Brasil.
Uma curiosidade; fui procurar, e em alemão o título saiu como “Cascadia”, que é um jogo de tabuleiro cujo objetivo é harmonizar animais selvagens com o seu habitat. Não é uma referência muito óbvia, mas achei interessante…

