Vi várias pessoas influencers de livros falando maravilhas de Yesteryear (tradução livre: “Antigamente” ou “Passado”), de Caro Clarie Burke.
A premissa era realmente muito atraente: uma influencer tradwife, com milhões de seguidores, acorda, um belo dia, no século 1800, onde ela realmente vive o papel de esposa tradicional que vende no seu perfil.
A história é muito bem escrita principalmente porque a protagonista, Natalie Heller Mills, é muito, mas muito inteligente, e tem uma capacidade de adaptação e uma criatividade fora do comum. Só que é doidinha de pedra.
O livro começa no meio de um caos; Natalie, que mora numa fazenda gigantesca, com seu marido Caleb e seus 5 filhos, grávida do sexto, recebe o email de demissão de sua produtora, a jovem Shannon.
Ela é uma influencer conservadora, cujo trabalho é convencer todo mundo que tem a vida perfeita de boa esposa cristã graças ao seu comportamento dócil, dedicado à família e à manutenção de seus valores.
Além da produtora, que fazia e editava seus vídeos e fazia todo o trabalho de social media, Natalie também contava com duas babás para ajudar com os filhos e a casa — uma delas inclusive responsável pela educação das crianças (o homeschooling, permitido nos EUA) e mais alguns trabalhadores envolvidos na produção da fazenda.
Natalie é linda e está sempre impecável; passa o dia gravando vídeos cozinhando (sempre do zero), colhendo ovos no galinheiro e temperos na horta; seu marido, fantasiado de caubói, sempre aparece para um beijo carinhoso. As crianças são educadíssimas, não têm acesso a telas e só usam produtos orgânicos e locais, incluindo roupas de puro algodão.
Pois é. Mas na vida real, Natalie é uma empreendedora que ganha muito dinheiro vendendo produtos diversos tipo uma tábua de madeira feita no Brasil, roupas de algodão feitas na Espanha, sal francês, tinta para parede externa (essa sim, feita nos EUA) e mais tudo o que se possa imaginar na lojinha digital.
A fazenda mal consegue produzir vegetais (os poucos são à base de agrotóxicos) e várias vacas e galinhas já morreram por doenças e cuidados inadequados, pois o caubói não tem noção de nada, acha que está brincando de fazendinha.
Na real, ela odeia a vida que leva, odeia ser mãe, odeia crianças e, mais do que tudo, despreza o marido, um incompetente completo e filhinho de papai mimado — mais mais do que tudo ela odeia as feministas, que chama de mulheres raivosas (quando a raivosa mor é ela própria).
Mas como uma boa esposa cristã, ela reza o tempo todo, agradece a tudo o que ela tem e tenta, de verdade, ser uma pessoa melhor (sério, dá pena de ver como a mulher sofre para se encaixar num molde onde ela claramente não cabe).
A mãe, cujo marido saiu de casa quando ela e a irmã ainda eram crianças, sempre foi um modelo de esposa cristã dedicada à família: apesar das adversidades, estava sempre linda, bem-humorada e impecavelmente arrumada. Natalie, que a consulta em praticamente todas as suas decisões, pergunta um dia como ela consegue; e a mãe dá a fórmula: “Comporte-se o tempo todo, mesmo sozinha, como se estivesse sempre sendo assistida por uma plateia”. Natalie pergunta: “Mas isso não é como representar um teatro o tempo todo?” E a mãe retruca, certeira: “Mas Deus não está nos observando o tempo todo? Ele é a nossa audiência…”
Olha…
Voltando à demissão de sua produtora, Natalie descobre que a jovem de 21 anos estava tendo um caso com seu marido. Ao mesmo tempo, a filha mais velha, Clementine, que ela mais detesta, começa a fazer perguntas inconvenientes, como “mãe, o que é uma tradwife?”(certeza que foi armação da produtora, que morre de inveja dela).
Tudo isso acontece enquanto o sogro, um senador bilionário e conservador (o que comprou a fazenda para o filho) se prepara para disputar a presidência da república, aparece com um time de advogados para tentar administrar o escândalo que as entrevistas que a produtora está dando na TV estão causando na sua candidatura.
Ou seja, o mundo de Natalie está desmoronando, seu perfil nas mídias sociais está sendo atacado por todos os lados e ela pode sair dessa com 6 filhos e sem direito nenhum (os advogados do velho fizeram um acordo pré-nupcial que garante a indigência dela em caso de divórcio).
É aí que nossa protagonista acorda em 1855; seu marido, sua casa, seus filhos; tudo parece saído de um filme de época. O caubói parece bem mais velho e ela tem 4 filhos: uma menina de 15 anos, uma pequena de 6 e dois rapazes em idades intermediárias. O mais estranho: a barriga de grávida dela desapareceu!
Ela tenta fugir, se machuca, o marido bate nela. A filha mais velha, que cozinha e cuida da casa, dá pontos no pé que ela feriu numa armadilha na floresta. Tudo parece familiar e estranho ao mesmo tempo.
Será que ela está num reality show? Será mais um teste que Deus está fazendo com ela para provar sua fé como boa esposa cristã?
Sério, eu fiquei hipnotizada pensando em como a autora vai conseguir terminar essa história de maneira que faça algum sentido. E sabe do que mais? Ela consegue com louvor!
Além do mais, fiquei sabendo que o filme baseado no livro já está em pré produção pela equipe da Anne Heathway. Então a hora de ler é agora, antes que saia o filme!
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