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Quando

Eu já li todos os outros livros da Carla Madeira e gostei muito; então estava ansiosamente esperando por “Quando”. Mas zapeando por perfis literários, vi que virou moda criticar a autora. Alguns reviews são bem debochados; pegam frases soltas e ficam fazendo comentários desnecessários, na minha opinião. Não gosta, não lê. Acho perda de tempo, sinceramente.

De minha parte, a única crítica que tenho sobre o livro é a tipografia; apesar da edição muito bem cuidada, não gostei da fonte tipográfica, que parece aquelas antigas que vazam tinta pelos cantinhos. Fora isso, a capa é maravilhosa!

Mas vamos ao que interessa mesmo; a história.

A protagonista é Veridiana, uma mulher com a vida atormentada por um marido péssimo, com quem tem 3 filhos: Margarida, Valquíria e Tito. Aos poucos, ela vai percebendo seu talento como costureira, até se tornar famosa e requisitada na cidade, o que faz sua vida ficar mais leve, inclusive com a independência financeira. Depois que o marido morre, a tarefa é dar conta de cuidar das filhas, muito diferentes entre si, e do estrago que o finado fez na criação do caçula, Tito.

A parte principal da história acontece em 1986, quando Tito tinha 17 anos e Margarida, a irmã mais velha, estava prestes a se casar (com um embuste igual ao pai dela). Minha única dúvida é que eu vivi a adolescência bem nessa época e acho pouco provável alguém se chamar Margarida em 1986. De resto, atesto a veracidade; os cenários, hábitos e costumes estão bem fieis (acho que a autora é um pouco mais jovem que eu, mas regulamos a mesma geração).

Tito, criado como o machinho caçula da família, se apaixona por Maria, uma menina tímida que se transforma quando sobre num palco para cantar (ela fazia parte de uma banda).

Valquíria, pouquinha coisa mais velha, acaba se descobrindo apaixonada pela mesma menina, no que é correspondida. Mas, lembremos, estamos em 1986. Naquele tempo, as pessoas debochavam da homossexualidade, tanto masculina como feminina. Um irmão de Maria já havia sido expulso de casa porque o pai descobriu que ele era gay; a mãe, em depressão, se tranca no quarto e deixa de participar da vida da família. A missão da moça agora é proteger seu irmão de 8 anos, Nino, que é um menino querido, delicado, e que ama roupas de mulher.

Tito não está acostumado a ser contrariado, e ele faz uma coisa que ninguém imagina (Carla vai levando a gente por um caminho desde o começo do livro, e depois apresenta uma pequena surpresa). Veridiana fica tão desnorteada que o denuncia para a polícia, sem imaginar o que acontece com ele na cadeia, naqueles tempos de ditadura, onde a polícia não devia satisfações a ninguém e só se dobrava um pouco com quem tinha contatos (e dinheiro, claro).

As consequências para a vida de todos os envolvidos na história são pesadas e permanentes.

A Carla é muito delicada na maneira de apresentar os conflitos íntimos, o peso das palavras não ditas, os mal entendidos, aquilo que se faz sem pensar e logo depois se arrepende, o preconceito absurdo que a sociedade hipócrita tem com homossexuais e as mulheres que se submetem a casamentos ruins por pressão da sociedade. Ela coloca tudo na mesa com muita engenhosidade, contando cada pedaço da história como um bordado, cada personagem sendo costurado aos poucos até ficar completo no quadro.

É triste, mas é belo. 

Vai que eu recomendo. Muito.

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1 comentário

  1. […] Resenha do livro Quando, de Carla Madeira. A resenha escrita está nesse link. […]

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