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Agnes

Eu estava guardando esse livro justamente para uma viagem — ele faz parte de uma coleção (tenho vários outros) que adoro. A editora alemã Fisher publica romances famosos no formato A6, encapados em tecido e com uma fitinha de seda para marcar página. Cabe em qualquer bolsa pequena; perfeito para essas ocasiões.

Agnes, romance de Peter Stamm, é o primeiro livro que leio desse autor suíço (que escreve em alemão) e o que posso dizer é que ele realmente me despertou emoções. Terminei morrendo de raiva do narrador…rs

Já nas primeiras páginas, o spoiler: Agnes está morta. Então agora é descobrir como foi que isso aconteceu.

Quem conta a história é um homem de 40 anos, sem nome. Ele é suíço e está em Chicago para uma pesquisa. A especialidade dele é escrever livros de mesa de centro, aqueles cheios de ilustrações e com informações técnicas e pesquisas apuradas sobre algum assunto aleatório que o dono da casa admira. Ele já escreveu sobre cigarros e bicicletas; a pesquisa atual trata de trens de luxo. Está aí um trabalho que eu amaria fazer…

A questão é que por isso ele está passando uma temporada nos Estados Unidos, e começa a história na biblioteca pública de Chicago, onde observa uma moça na outra mesa — é Agnes.

Agnes tem 25 anos e está na biblioteca trabalhando na sua tese de doutorado em física. Ela é quieta, tem poucos amigos e toca violoncelo. Depois de alguns dias se encontrando no fumódromo, ela topa tomar um café com o sujeito.

Eles começam a namorar e ela se muda para o apartamento dele. O relacionamento vai relativamente bem, mas, pessoalmente, acho ele bastante apático e ela muito insegura e carente. Eles acampam um final de semana, parecem se conectar profundamente, apesar de saberem relativamente pouco um sobre o outro.

Agnes pergunta para o homem se ele já escreveu algo de ficção. Ele diz que sim, mas que foi um fracasso comercial e por isso ele se concentra nesses livros técnicos. Então ela pede que ele escreva uma história sobre ela.

E aí, na minha opinião, está a grande chave do livro. Ele começa contando como  se conheceram e eles se dão conta que ambos têm lembranças completamente diferentes (ele erra várias coisas; ela tem registro na agenda do restaurante onde jantaram a primeira vez, por exemplo). Interessante como a percepção do relacionamento muda para cada parte. A gente não conhece a versão e nem os sentimentos dela; só temos a visão dele como narrador.

Ele vai desenvolvendo a história e lendo para ela; que às vezes pede para tirar partes. Não é exatamente uma co-criação, mas ele vai meio que escrevendo a história do relacionamento dos dois, imaginando um futuro.

Até que… ela fica grávida. Aí a coisa fica meio previsível: ele não está preparado para ser pai. Pois é, ela estava tomando pílula (nenhum método é 100%), mas ele não tomou nenhuma medida protetiva da parte dele. Ele simplesmente diz que não quer o filho e deixa Agnes se virar sozinha, como se não tivesse nada a ver com isso.  

Ela sai de casa, vai morar em outro lugar e ele sofre um pouco, mas acaba encontrando uma mulher rica que prefere europeus para namorar.

Agnes sofre um aborto espontâneo e eles acabam voltando; ela o perdoa e tentam viver como antes. Até que ela adoece, mas a ex-namorada dele o convida para uma festa de réveillon. Adivinha? Ele vai e deixa Agnes doente em casa. Quando ele volta, ela não está mais lá.

E ele escreve o final da história dela (que a gente não tem como saber se é real).

Passei muita raiva lendo esse livro, mas admito que a ideia de contar a história dentro da história foi muito boa. O livro também é muito bem escrito (tanto que peguei ranço do narrador)…

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