Comprei “Mona’s Eyes” (tradução livre “Olhos de Mona”), de Thomas Schlesser, por causa da montanha de elogios que li a respeito. Os mais empolgados diziam que era a versão para a arte de “O mundo de Sofia” (Jostein Gaarder), que conta a história da filosofia em forma de romance e um dos meus preferidos da vida. Pensei: não posso perder de jeito nenhum.
O livro tem vários méritos, mas não se compara ao romance de Gaarder nem de longe, nem com muito boa vontade.
Mona’s Eyes conta a história de Mona, uma parisiense de 10 anos de idade que mora com os pais. Um belo dia, ela fica totalmente cega do nada — passa algumas horas na mais completa escuridão. A mãe leva ao hospital e os médicos estão investigando. O pai, que tem um comércio de usados vintage decadente, está praticamente falido e não dá conta — bebe cada vez mais. Ele ama muito a filha, porém, a mãe que se vire para resolver os problemas práticos do dia-a-dia.
Um dos médicos recomenda um psiquiatra para que Mona consiga resgatar as emoções ou algo que possa ser associado à sua cegueira temporária. O avô querido, Henry, homem cultíssimo e muito ligado à neta, fica responsável por encontrar o profissional e levar a neta nas sessões.
A linha de raciocínio dele é clara: se existe a possibilidade da neta ficar cega, que pelo menos ela conheça a verdadeira beleza e tenha do que se lembrar quando não puder mais ver (achei certa coincidência, pois no livro “O escafandro e a borboleta”, que resenhei há algumas semanas, também se passa em Paris e fala de um homem que passa a viver através das suas lembranças quando perde totalmente a mobilidade).
Bom, eles moram em Paris, Henry é um sujeito cultíssimo, então decide que essas horas que seriam do terapeuta seriam mais bem aproveitadas se eles fossem ver obras clássicas em museus. E Mona promete ao avô que esse segredo vai ser só deles.
Aqui vejo o primeiro problema gigantesco — ele troca a terapia pelo que ele acha melhor sem consultar os pais — e pior, faz a menina manter esse segredo entre os dois. Na minha opinião de leiga, essa decisão não pode ser dele, à revelia dos responsáveis. Além disso, criança nenhuma pode ter segredos com adultos, mesmo com seu avô querido. É assim que começam os abusos sexuais. Mesmo que o avô seja bem intencionado, ele abre a brecha para outro adulto fazer o mesmo. Enfim.
Aí uma vez por semana eles vão ao Louvre, depois ao Museu D’Orsay e, por último, o Beaubourg.
A regra é clara: a cada visita Mona tem que ficar em silêncio observando a obra que o avô escolheu. Depois, ele descreve a obra de maneira bem literal, e, por fim, conta a história do pintor/escultor, do contexto e da importância dela.
Cada capítulo é igual: começa com pinceladas do pequeno drama familiar (pai bebeu/não bebeu; mãe nervosa; médicos fazendo exames, etc) seguido da visita de Mona e o avô ao museu com o quadro, a descrição e os comentários dele. No vigésimo quadro a estrutura começa a ficar chata, até porque não difere em nada de um livro comum de arte, se a gente tirar os poucos parágrafos sobre a rotina de Mona.
A parte boa é que a capa, com orelhas, tem, na parte de dentro, a reprodução numerada de todas as obras (são 52 no total, o que perfaz um ano inteiro de visitas), então a gente vai lendo e olhando as reproduções minúsculas — pelo menos para ter uma ideia do que ele está falando. Mas muitas delas tive que procurar no Google para ver melhor os detalhes.
Não sei que critério ele usou para escolher as obras (o autor é professor de história da arte), mas com certeza uma das limitações foi se ater àquelas que estavam acessíveis em Paris. Acredito que por causa disso ele deixou de fora várias que me deixaram muito emocionada, mesmo sendo leiga. Se bem que, mesmo restrita a Paris, minha lista teria sido totalmente outra; mas o autor é professor de arte e quem sou eu na fila do pão, né? Cada leitor deve ter sua própria lista pessoal e pelo menos ele deve ter usado critérios mais objetivos.
Outra coisa que me incomodou foi Henry ter dito que queria mostrar a Mona toda a beleza do mundo. Gente, menos, né? Mesmo se a gente estiver falando só de arte, o eurocentrismo aqui pegou pesado demais. Ele pode apresentar à pequena coisas belas, mas há certamente muito mais beleza no mundo que esse senhor sequer sonharia, em formas que ele nem imagina.
Bom, no final, não vou dizer se realmente a Mona fica ou não definitivamente cega para não dar spoiler, até porque isso não tem muita importância; esse era apenas o pretexto para o autor dar suas aulas de história da arte.
Talvez porque as expectativas estivessem altas demais (o autor, coitado, já começa devendo sem ter culpa nenhuma), ou talvez porque eu tenha muitos volumes de arte em casa, achei o livro bem mais ou menos. Mas para ruim, não chega, pois sempre tem alguma informação interessante sobre um quadro que normalmente eu não teria dado muita atenção.
De qualquer maneira, já tem a versão em português e você pode ter o seu clicando nesse link da Amazon do Brasil.


Interessante o conceito do livro! Mas concordo com a sua resenha que, da forma como foi feito, ficou muito limitado, eurocêntrico etc.
Agora essa premissa me lembrou de uma história real que tem o documentário no Disney Plus. É sobre uma família em Montreal que descobre que 3 dos 4 filhos possuem uma doença genética que fará gradativamente com que fiquem cegos.
Os pais então decidem viajar com os filhos durante 1 ano, para que possam literalmente ver o mundo antes de ficarem cegos.
O mais legal é que todos da família escolhem algo que querem ver ou fazer, desde conhecer as pirâmides a andar de balão.
É emocionante e, por vezes, muito triste, mas tem belas lições e as crianças são muito fofas.