Tenho visto vários influencers de livros falarem do Seishi Yokomizo, recém descoberto pelo ocidente. O povo costuma chamá-lo de Agatha Christie japonês, e, olha, não é à toa.
Yokomizo morreu em 1981 e deixou mais de 77 livros. Curiosamente, a primeira tradução de um livro dele para o inglês é de 2019, mais de 70 anos depois do lançamento das obras dele no Japão.
Como adoro policiais, fui procurar os livros dele e achei “Murder at the Black Cat Cafe” (publicado originalmente em 1975 e traduzido para o inglês somente em 2025!). Essa não é a obra mais famosa dele (The Honkin Murders), mas eu escolhi porque tinha gato no nome. Sim, foi esse meu critério; me julguem…rs
E sabe o pior? Já no início da história, me arrependi, pois eles encontram um gato preto enterrado num jardim….😭😭😭
Mas vamos do começo: Yokomizo tem um estilo bem clássico. A história é contada do ponto de vista do policial que investiga o crime, no caso, o inspetor Kosuke Kindaichi. Às vezes tem recortes de notícias de jornal, testemunhos e cartas, sempre para organizar a narrativa e ajudar a montar o quebra-cabeças que resolve o mistério.
Nesse caso, na primeira parte do livro, Kosuke se encontra com um escritor que lia os casos que ele resolvia nos jornais, juntava tudo e montava as histórias para uma revista (estamos em 1946 e as revistas são a Netflix da época — as pessoas acompanham os episódios conforme a história vai se desenvolvendo).
O sonho desse escritor (que não conhece pessoalmente o inspetor) é escrever uma história de um “faceless corpse” (tradução livre: “cadáver sem rosto”), onde o principal suspeito de um assassinato acaba se revelando como a vítima, numa troca de papeis. Eis que Kosuke fica sabendo da existência do escritor e vai até ele, oferecer material para o seu trabalho. A partir daí, a história é contada e organizada pelo moço (mais feliz, impossível, né? Bom para os dois!).
Na verdade, O assassinato no Café Gato Preto é a primeira de duas histórias do inspetor Kosuke contadas nesse livro. Então vamos a ela.
Um belo dia, o policial de um lugarejo muito pequeno está fazendo a sua ronda de madrugada, quando vê um monge budista cavando um buraco no quintal do templo. Esse quintal tem limites com o terreno do tal café Gato Preto.
O policial fica intrigado com a cena, vai olhar de perto, e descobre que o monge está desenterrando o corpo de uma mulher, totalmente nua. O monge explica que ele seguiu um cachorro que estava farejando algo no meio das folhas do chão e ele viu uma perna. Foi quando resolveu ver o que era.
A mulher estava com o rosto totalmente desfigurado, impossível de reconhecer. E aí ficamos conhecendo os outros personagens: o café Gato Preto era de propriedade de um casal e tinha 3 funcionárias, mas tinha sido recém vendido. Desde então, ninguém mais viu os donos.
O casal tinha se casado há muitos anos e ido para a China; com a guerra, tiveram que voltar para o Japão, mais especificamente para essa cidade. Ela, chamada O-Shige, chegou 6 meses antes e trabalhou num bordel local a fim de juntar dinheiro e comprar o café (falava-se muito de sua beleza exuberante). Nesse meio tempo ela também consegue um amante, um empreiteiro chamado Kazama, apaixonadíssimo pela mulher.
Quando o marido Daigo, chega na cidade, sabemos que ele também veio de caso com uma mulher no navio, e que ela vai trabalhar no bordel local. Essa mulher se chama Ayuko.
O que se espera é que cada um fique com seu par e vida que segue. Porém, o quadrilátero amoroso está formado e é sustentado por muitas fofocas, intrigas e mistérios.
Agora, todo mundo é supeito. Quem, afinal, é a tal mulher morta? Ayuko ou O-Shige?
E por que ao lado dela tinha um gato preto enterrado, se o mascote do café continua passeando pelo quintal?
Bom, pensa num emaranhado de informações contraditórias que o inspetor Kosuke só consegue desenlear porque ele vem a ser amigo de infância de Kazama, amante de O-Shige. No final, minha gente, nada é o que parecia.
Yokomizo é realmente uma Agatha Christie de saias, até com aquela informação final que ninguém poderia ter, além do inspetor.
A segunda história, chamada “Why did the well creak?”(tradução livre: “Por que o poço rangia?”), conta a saga de três famílias tradicionais de um lugarejo, que eram abastadas e tinham muitas terras: os Honiden, os Ono e os Akizuki.
Por causa da falta de herdeiros, má gestão ou casos diversos, somente a família Honiden consegue passar pelo tempo conservando as propriedades. Os Akizuki ficaram no lugarejo, mas os Ono foram embora tentar a sorte em cidades maiores.
Eis que o patriarca dos Honiden vem a ter um caso com a esposa do chefe da família Akizuki, um sujeito que maltratava, batia e humilhava a esposa de todas as formas possíveis. Isso fica evidente quando, tanto a esposa de Honiden quanto a de Akizuki ficam grávidas ao mesmo tempo, sendo que a de Akizuki não se relacionava mais com o marido há mais de ano, desde que ele teve um AVC, ficou paralisado de um lado e tornou-se ainda mais irascível.
Nasceram dois meninos praticamente idênticos, exceto pelo fato de que Goishi, filho bastardo, tem policoria como o pai, ou seja, ele tinha duas pupilas em um único olho. Daisuke, o filho oficial, não tem.
Os dois rapazes se odeiam (Goishi se ressente por ter uma vida miserável, enquanto o irmão desfruta de todas as benesses e privilégios) e Daisuke se casa com uma moça belíssima; tudo vai nesse clima de tensão até que ambos são recrutados para a guerra.
Um belo dia, Daisuke volta da guerra completamente cego, avisando que Goishi morreu. Ele é recebido pela avó, pela irmã adolescente, Tsuruyo, debilitada, mas muito perspicaz; e pela esposa. Elas tentam conviver com esse completo e insuportável estranho que em nada lembra o rapaz que saiu de casa. A esposa, Rie, desesperada, definha a olhos vistos.
O outro irmão, Shinkichi, está internado e isolado num sanatório distante dali por conta de uma tuberculose; por isso, ele raramente tem contato físico com a família.
Daí segue uma série de eventos mal explicados, incluindo a morte de uma criada, de Rie e, finalmente, o corpo do homem cego, que a irmã Tsuruyo desconfia ser na verdade, Goichi, aparece dentro do poço da casa da família, todo sujo de barro.
Há várias reviravoltas, e, como sempre, nada é o que parece, mas nessa o inspetor Kosuke entra de gaiato, pois quem consegue descobrir tudo é Tsuruyo a adolescente que ama escrever.
A gente vai acompanhando a história pelas cartas que ela escreve para o irmão que está internado.
Enfim, ambiente sinistro e trágico daquela família, mas o quebra-cabeças muito bem montado para quem gosta de se divertir com policiais!
Recomendo demais!
Esse livro ainda não tem em português, mas você pode comprar o livro mais famoso do autor, Os assassinatos no Honjin, na Amazon do Brasil, clicando nesse link.

