Borboleta by Ligia Fascioni
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O escafandro e a borboleta

Quando estive em agosto no Brasil para o aniversário de 80 anos da minha mãe, ela me pediu para arrumar a estante de livros, pois tinha recém se mudado de apartamento. Lá descobri vários volumes que tinham sido meus e não puderam vir na mudança e achei “O escafandro e a borboleta”, de Jean-Dominique Bauby, que devo ter comprado em algum momento e esquecido. 

Como era pequeno, achei uma boa ideia para ler no avião (mas acabei lendo outro, e a vez dele chegou só agora, depois de ter lido quase 100 páginas de outro livro e desistido de continuar). 

Eu sei que esse livro virou filme premiado, mas, para variar, não assisti. Então, para quem não conhece, aqui vai a história (que é real) e minhas impressões a respeito.

Estamos em dezembro de 1995. Jean-Dominique é editor da revista Elle, mora em Paris com sua namorada e tem dois filhos pequenos que moram com a mãe, sua primeira esposa, em uma casa nos arredores da cidade.

Ele está indo pegar o filho de 10 anos para passar o final de semana quando sofre um AVC e é imediatamente internado num hospital. Depois de 20 dias em coma, ele acorda e é diagnosticado com a síndrome Locked-in, que é raríssima. O cérebro dele funciona perfeitamente, mas o corpo não responde mais. O único órgão que ele controla é o olho esquerdo (e também consegue mexer um pouco a cabeça).

Aí, criativo e bem humorado como ele é, começa a chamar o corpo, que o prende e o limita, de escafandro. A mente, que voa e divaga, de borboleta.

Aí Bauby começa a descrever a rotina no hospital e tudo o que vai passando pela cabeça dele. Como sabemos disso? Porque uma ortofonista do hospital (nem sabia que existia isso, assim como ele) estabeleceu um código de comunicação onde ele olharia para uma sequência de letras (por ordem de frequência de uso no idioma francês) e uma pessoa ao lado anotaria a frase. Pensa no trabalho. Esse livro inteirinho foi escrito assim. E essa foi a primeira vez que ficamos então sabendo o que se passa na cabeça de uma pessoa enclausurada no próprio corpo.

Bauby é realmente uma mente extraordinária; ele olha para o seu corpo como se realmente fosse um escafandro — um invólucro desconfortável. Ele não consegue mais nem comer (coisa que adorava), pois não faz os movimentos de engolir — depende de tubos. Por conta disso, está sempre babando. 

Aliás, o dia que ele se viu no espelho, foi assustador (e, empático, ele imagina como deve ter sido difícil para as pessoas que gostam dele): de um homem elegante e bem vestido de 43 anos, agora ele está com os cabelos desgrenhados; o corpo magro e desmoronado (perdeu 30 kg em menos de 4 meses); um olho arregalado e outro costurado. Mas a vaidade não chega a se abalar; ele acaba rindo da figura. 

Na verdade, o grande milagre e acontecimento desse livro é justamente a maneira como ele encara os fatos; não com revolta, mas com curiosidade. Ele não pensa no futuro (que, desconfia, não existe), mas no presente. Nas sensações e descobertas. Nessa nova vida onde ele é grato pelo repertório que acumulou na vida anterior.

Ele não pode mais comer, mas saboreia mentalmente seus pratos prediletos, lembrando-se de cada sabor, textura e aroma. Ele revisita os museus, os cafés, as conversas com os amigos. Ele se aventura na pele dos personagens dos livros que leu. Ele compara paisagens. 

O escafandro é incômodo, desconfortável e inconveniente. Mas a borboleta é livre e pode voar. Por ser uma pessoa culta e viajada, ele tem muita coisa para reviver e experimentar novas combinações, pode se distrair e tentar compensar a sensibilidade auditiva, as dores e a sensação de impotência quando precisa fechar um porta ou abaixar a televisão.

Além do livro, ele faz uma espécie de boletim para os parentes e amigos mensalmente, como uma carta aberta, contando da sua vida de borboleta. Ele ama receber as respostas e saber as notícias do mundo que continua sem a sua presença.

Mas, além de ser grato pelo amplo repertório que lhe permite voar e criar novas histórias, mesmo de tão de um escafandro, a outra parte que me impressionou muito foi a descrição dele do último dia, que ele não sabia ser o último. As coisas feitas com pressa e sem atenção.

Em algum momento, todos nós estaremos fazendo alguma coisa pela última vez sem saber. Uma vez vi em alguma rede social que, um dia, vamos brincar na rua como nossos amigos pela última vez sem saber. Eu não me lembro da minha.

Eu acho, sinceramente, que todo mundo devia ler esse livro. Para prestar atenção e registrar bem todos os cheiros, sabores, sentimentos e experiências; a gente não sabe quando vai ser a última vez de cada coisa e muito menos do tanto que vamos precisar dessa biblioteca.

Por favor, leiam “O escafandro e a borboleta” e apreciem esse homem que viveu pouco mais de um ano nessa situação e depois morreu de uma pneumonia. Mas deixou essa mensagem para sempre e para a gente nunca esquecer de viver o presente.

Se você tem andado numa correria automática nos últimos tempos, talvez esse seja um sinal.

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