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Fazendo o design da sua vida profissional

Há algum tempo tenho pensado bastante nos rumos que não apenas a minha, mas a vida profissional das pessoas em geral, está tomando. 

Com a expectativa de não aposentadoria, avanço cada vez mais agressivo das tecnologias, principalmente da inteligência artificial generativa, e as mudanças políticas e econômicas se desenhando na nova ordem mundial, é necessário parar e pensar um pouco como vamos viver nas próximas décadas.

Foi mais ou menos com esse espírito que comprei, há alguns anos, enquanto estudava Futures Thinking, “Designing your Work Life: how to thrive and change and finda happiness at work”, de Bill Burnett e Dave Evans, por sugestão da Amazon. Eis que arrumando a minha pilha, vi que ainda não tinha dado chance para essa leitura.

Chegou a hora, então.

Os autores começam dizendo que tem muita gente com, teoricamente, o trabalho dos sonhos, mas que se sente esgotado porque gasta tempo demais trabalhando em proporção ao tempo na vida real, fora do sistema (seria culpa do capitalismo?).

Eles prometem que usando as ferramentas do design thinking, essa questão será resolvida e podemos projetar como gostaríamos de projetar nossa vida profissional de uma maneira que nos deixe mais felizes e realizados. Vamos lá então!

A dupla apresenta a primeira ferramenta: um conjunto de cinco atitudes  que vão ser muito úteis na construção do caminho que você quer. São elas: curiosidade, tendência para agir e experimentar coisas, recontextualizar problemas, ter consciência de que está num processo, pedir por ajuda e, finalmente, contar a sua história.  

ESTÁ BOM QUE CHEGA?

Muita gente diz que bom suficiente não é o suficiente. Elas querem mais, sempre mais.

Burnett e Evans explicam que a primeira coisa é entender que bom o suficiente é ÓTIMO — por agora, pelo menos.

Porque senão a gente fica que nem criança pequena em viagem, que fica a toda hora perguntando “A gente já chegou?”, “Falta muito?”.

Eles explicam o clássico mapa impresso numa placa ou painel que mostra onde a gente está. Aquele sinal escrito “você está aqui” não diz onde você quer chegar, quanto tempo vai levar e nem como. Inclusive você pode mudar de ideia no meio do caminho.

O sinal apenas mostra onde você está no mapa. E isso é maravilhoso!

Não importa onde você esteja; se você consegue se localizar, já está ótimo!

A questão é que as pessoas estão viciadas em novas experiências e novas coisas; é um vício mesmo — o prazer da conquista dura pouquíssimo, a pessoa quase não desfruta porque está preocupada com o próximo passo, que é sempre maior, em outra escala. Não aproveita a viagem.

A vantagem é que a postura “ótimo para o momento” deixa aberta a possibilidade de crescimento e mudança, mas sem a neurose de conquistar o próximo objetivo compulsivamente. Não faz “conseguir mais” como sendo uma prioridade. É como viajar, mas curtindo a paisagem que se vê pela janela.

Aí eles contam a história de um homem contratado para um cargo de liderança e, no segundo dia de trabalho descobre que o lugar e as pessoas lá são horríveis. Pedir demissão não é uma opção (ele acaba de comprar uma casa e ser pai), então decide que “está ótimo por agora”. Vai mudar, mas vai demorar um pouco. Até lá, não adianta se martirizar, que só piora a situação.

Então ele toma a primeira decisão simples — tornar sua vida lá mais agradável. Uma vez por dia, ele sai do escritório para dar uma volta, passeia pelo escritório e toma um sorvete na cafeteria. O sorvete é o ponto mais agradável do seu dia e passa a ser esperado.

Em paralelo, ele resolve conhecer pessoas na empresa (podem ajudar quando ele resolver sair) e aprender o máximo que puder sobre vários processos. No final, o balanço é: o trabalho é péssimo, mas estou conhecendo novas pessoas todos os dias e aprendendo coisas. Além disso, tem a hora do sorvete. Assim não parece tão ruim; vou sobreviver pelo menos por um ano até adquirir mais experiência e poder me candidatar em outra empresa. No final, ele consegue sair para uma empresa muito melhor por conta das recomendações das novas amizades que ele fez e o currículo, que melhorou com essa experiência.

O que mudou não foi a situação (ele não tinha esse poder), mas a percepção dele — o que mudou também a forma dele de agir. Em vez de ficar chorando escondido no banheiro, ele agiu; foi atrás de conhecer outras pessoas, outros processos — foi atrás de aprender. A percepção mudou de “não estou satisfeito com meu trabalho e meu chefe” para “estou convivendo com várias pessoas talentosas e aprendendo coisas novas” — percebe que a mudança foi basicamente de foco — ele passou a olhar para outros aspectos?

Ainda nessa linha, para uma situação temporária, mantenha a régua baixa e seja comedido nos objetivos — assim o progresso fica mais evidente. 

Aqui, a primeira ferramenta prática. Numa situação semelhante (descontente com o chefe ou algo no trabalho), faça proativamente algo para preencher essa tabela, se possível, todos os dias da semana:

  • O que eu aprendi?
  • O que eu comecei?
  • Quem eu ajudei?

Podem ser coisas pequenas, mas que nos deixa mais atentos e proativos.

No final de cada semana, os autores recomendam que se olhe a tabela, e tente relembrar cada um dos itens anotados e a situação em que aconteceram. Depois tentar tirar insights dessas experiências (é claro que, como são pequenas, nem todas serão inspiradoras; mas é bom praticar).

DINHEIRO OU SENTIDO?

Boa parte das pessoas acredita que dinheiro e sentido são coisas mutuamente exclusivas; você tem que escolher um ou outro. Ter ambos seria um sonho inatingível.

Nesse capítulo, o autor apresenta algumas ferramentas (bem no modelo coach) em que você pode analisar o impacto do seu trabalho, como ele o sustenta, e o sentido que você dá para ele. Com base nisso, você consegue tomar algumas decisões que quebram essa dicotomia falsa, do trabalho x dinheiro.

DEFININDO O PROBLEMA CORRETAMENTE

Aqui é para quem tem problemas no trabalho atual. O autor ensina e reestruturar o problema de maneira que você consiga lidar com a situação e veja as soluções possíveis. 

Mais uma vez, ele apresenta ferramentas para você conseguir desenhar e ver claramente a situação, bem como as saídas e possíveis armadilhas.

Os próximos capítulos trazem uma série de análises e métodos para quem está realmente tendo problemas profissionais, envolvendo sobrecarga, entendimento sobre poder e política na empresa, influência e autoridade. Fala sobre redesenhar o trabalho, em vez de pedir demissão, como lidar com ambientes tóxicos e como conhecer suas forças e fraquezas para lidar com tudo isso.

O livro também apresenta ferramentas para quem pretende mudar de emprego e explica como identificar seus talentos diferenciais, como contar a sua história de uma maneira que impressione positivamente.

Por último, como alternativa, também tem a opção de abrir sua própria empresa, ser seu próprio chefe e criar o trabalho dos seus sonhos. Para quem vai escolher esse caminho, eles apresentam a jornada do cliente, que é uma ferramenta bem antiga de design usada para melhorar a experiência do usuário (que, na real, foi a única ferramenta de design thinking que vi no livro).

CONCLUSÕES

O que eu achei do livro?

Não é para mim. Apesar de muito bem apresentado e diagramado, com os capítulos estruturados de maneira bem didática, é o tipo de autoajuda que não me atrai (e às vezes me irrita um pouco).

Mas a culpa não é do livro; eu é que me empolguei e não pesquisei o suficiente antes de comprá-lo.

Eu estava atrás de um estudo mais aprofundado sobre o futuro do trabalho (área que estou me dedicando a estudar agora), sobre o impacto das novas tecnologias, sobre os rumos que o capitalismo vem tomando e as consequências disso na nova vida profissional. Aí peguei esse livro com uma abordagem totalmente diferente.

Como disse, falha totalmente minha.

Mesmo assim, resolvi resenhá-lo porque pode ser o estilo preferido de algum leitor, que, por acaso esteja passando por uma crise profissional e se entenda bem com o tipo de ferramenta que os autores trabalham.

Bom, pesquisando depois, fiquei sabendo que esse livro é um desdobramento do sucesso anterior da dupla, que se chama “O design da sua vida” (é só clicar aqui). A versão para o trabalho ainda não tem em português, então vou colocar o link para o livro original em inglês na Amazon do Brasil

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1 comentário

  1. […] Resenha do livro “Designing your Work Life: how to thrive and change and finda happiness at work”, de Bill Burnett e Dave Evans. O texto escrito está nesse link. […]

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