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Circe

O último livro do ano foi o que mais me emocionou. Eu gostei tanto que fiquei enrolando quase 3 semanas porque não queria que ele acabasse. 

Achei o exemplar usado num sebo e resolvi levar porque já tinha gostado muito de Uma Canção para Aquiles, da mesma autora, Madeleine Miller. Mas em Circe, ela simplesmente se superou.

Madeleine é especializada em mitologia grega e aqui ela pega várias partes da história e compõe uma obra inesquecível para contar a história da mulher que foi literalmente deusa e feiticeira.

Desde sempre, nós humanos precisamos de explicações para as coisas que a gente não entende. É por isso que temos tantas religiões no mundo. A mitologia grega era uma religião politeísta (com vários deuses, em vez das predominantes nos tempos atuais, monoteístas, que acreditam apenas em um Deus).

Então, se tem uma tempestade muito forte ou uma seca muito prolongada e a gente não sabia o motivo, a solução era usar a criatividade para explicar. E nisso a mitologia grega dava banho; para cada fenômeno da natureza, cada emoção ou cada acontecimento que não tinha explicação (pelo menos naquela época) era designado um deus ou deusa.

A organização era mais ou menos assim; no começo, era o caos (o vazio primordial) e surgem as primeiras divindades, entre elas Gaia (a Terra).

Gaia gera sozinha Urano (céu) e tem 12 filhos com eles, os chamados Titãs. 

Um dos Titãs (chamado Cronos), recebe uma profecia que vai ser destronado pelo filho e resolve comer cada filho que nasce. Réia (a irmã e mesmo tempo mulher dele) fica de saco cheio e resolve esconder um dos filhos — esse filho, Zeus, cresce , força o pai vomitar os irmãos e começa uma luta contra os Titãs.

Zeus ganha a guerra e se muda com sua gangue para o monte Olimpo. Os Titãs que ficaram neutros na guerra podem continuar de boas.

Pois Helius, o deus Sol, era um desses Titãs — só que agora era, digamos, subalterno de Zeus. 

Helius se apaixona por uma ninfa e tem 4 filhos, sendo a mais velha, a Circe. Ela nunca foi respeitada pela família porque tinha uma voz muito parecida com uma humana.

As deusas eram imortais, nunca envelheciam, e tinham uma voz mais poderosa, o que não era o caso de Circe. 

E a autora conta toda a história dessa deusa em primeira pessoa. Como pano de fundo, todos os acontecimentos históricos que a gente já ouviu falar: a guerra de Tróia, o Minotauro, Ulisses, enfim — é tipo um “aprenda mitologia grega se emocionando e se encantando com Circe”.

É bacana porque, ao contrário das religiões monoteístas que sempre colocam Deus como fonte de bondade, sabedoria e amor, na mitologia grega os deuses são movidos a ego, vaidade e sede de poder. Eles amam ser adulados, querem que os humanos sacrifiquem animais por eles, mudam de ideia à toda hora, são narcisistas (que inclusive é um dos mitos — que não aparece nesse livro) e totalmente temperamentais. Emoção é coisa que eles não dominam.

Eu acho mais divertido porque, além da criatividade, que é muita, fica muito mais coerente para explicar o mundo que a gente vive — que funciona exatamente desse jeito: quem está no poder, só quer mais poder. Justiça — um conceito totalmente criado pelos humanos, uma vez que não existe na natureza — não faz parte do vocabulário de quem manda de verdade no mundo (e nunca esteve).

E a gente começa então com Circe sofrendo bullying desde criança pelo pai, que se envergonha dela, da mãe, que a despreza, e dos irmãos e irmãs, que a ridicularizam e todas as oportunidades possíveis.

Mesmo assim, ela vive no palácio do pai e convive com os tios, que também são titãs. Ela tem tias e parentes ninfas, e também primos semideuses (que são filhos de deuses com humanos, como no caso de Aquiles).

Um belo dia, Circe conhece um pescador (humano), se apaixona por ele e resolve, intuitivamente, fazer uma espécie de magia usando as flores locais, para transformá-lo num deus (nos desejos dela, a instrução é que ele se torne quem realmente ele é). 

O jurandir (que se chama Glauco), vira um deus daqueles clássicos — com o ego maior que o universo inteiro. 

Vem com o papinho que ama Circe como irmã e começa a arrastar a asa para uma ninfa mais bonita (e fútil).

Circe fica desesperada e faz o mesmo com Scylla, a tal ninfa. Só que a mona se transforma num monstro marinho gigantesco com 6 cabeças, que se alimenta da tripulação dos navios que passam perto do seu esconderijo.

Mortificada e cheia de culpa, Circe acaba contando para o irmão que ela foi a causadora da transformação e isso chega aos ouvidos do pai. Ele tem um ataque de fúria e incendeia a moça, a ponto de machucá-la toda. Ela é uma deusa, então vai sarar e voltar como antes — mas a dor e a humilhação não tem como evitar.

O alvoroço todo é porque ninguém sabia que ela tinha poderes mágicos (o pai, inclusive duvida, pois a considera incompetente demais para isso). Mas depois ela descobre que os irmãos têm o mesmo talento, só que foram espertos o suficiente para nunca contar para ninguém a respeito.

Zeus não gosta nada de saber disso e manda Helius castigá-la (mais ainda). É aí que Circe é mandada para a ilha de Aiaia em exílio — ela está condenada a passar toda a eternidade lá, sozinha.

A ilha tem uma casa enorme e confortável (afinal, ela é uma deusa), e muitos animais. Circe descobre que gosta de pesquisar ervas e que tem um talento especial para transmutação — ela consegue transformar coisas em outras. Por exemplo, ela transforma algumas cabras em leões que a seguem por toda a ilha, o tempo todo.

Hermes, o deus mensageiro (e fofoqueiro), de vez em quando aparece e conta as novidades; ele vira um PA (Pau Amigo…rsrs) e eles passam séculos assim.

Até que irmã, uma víbora, casada com o rei Mino (que é humano), resolve traí-lo com um touro sagrado e engravida.

Um belo dia, aparece na Ilha de Circe o famoso Dédalo, com um navio cheio de marinheiro, dizendo que está vindo a mando da irmã dela, Perséfone (Pasiphäe), que precisa de ajuda. E, que no caminho, tem que enfrentar o monstro que Scylla se transformou.

Circe poderia dizer que não se importava e não iria de jeito nenhum, mas lembrou que Dédalo perdeu 12 homens na ida para o monstro e isso tudo teria sido em vão, se Circe não fosse. Ela acaba indo e fazendo o parto do Minotauro.

Então ela conhece Ícaro, filho de Dédalo e Ariadne, sua sobrinha. Dédalo é um marceneiro talentosíssimo e constrói o labirinto para proteger a população do Minotauro, que se alimenta de gente viva. Dédalo e Circe se tornam amantes, até que ela é mandada de volta para o exílio, como “agradecimento”.

Séculos se passam e a ilha começa a ser visitada por marinheiros famintos, perdidos e desesperados. Circe acolhe a todos, mas vendo que não tem nenhum homem responsável pela ilha, os marinheiros sempre tentam violentá-la, mesmo depois de alimentá-los e recebê-los. Aí que, num acesso de fúria, ela transforma todos em porcos. Ela faz isso navio após navio por mais alguns séculos.

Até que um belo dia aparece o barco de ninguém menos que Odisseu (aquele guerreiro que vem da Ilha chamada Ilíada e que é cantado em versos no famoso poema de Homero). Circe transforma os homens de Odisseu em porcos também (ele estava no barco e chegou por último), mas, porque o homem é bom de papo, acaba poupando-o.

Odisseu fica encantado com o tear de Circe (presente de Dédalo) e sempre fala da esposa Penélope. Ainda assim, os dois se tornam amantes e ele fica na Ilha por alguns anos, até que resolve retornar ao trabalho.

Daí pra frente a história fica muito mais interessante. Circe tem um filho, que incomoda profundamente a deus Atenas, da guerra, que protegia Odisseu (que tem o nome de Ulisses entre os romanos).

 A narrativa é encantadora; cada frase bem construída — sabe aquele texto que dá prazer em ler? Eu me lembro de ter sentido isso lendo Jane Austen e Oscar Wilde. Cada frase, uma admiração!

Confesso que lendo em inglês tive que pegar o dicionário várias vezes, pois o vocabulário tinha bastante coisa desconhecida, mas valeu demais.

O final é simplesmente a coisa mais linda, poética e maravilhosa que alguém poderia imaginar. Recomendo com todas as estrelinhas. Foi o melhor livro que eu li esse ano. Espero que a autora esteja trabalhando no próximo romance.

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2 comentários

  1. […] Resenha do livro Circe, de Madeline Miller. O texto escrito está nesse link. […]

  2. Eu fiquei enrolando quase três semanas para terminar porque não queria que acabasse. Depois de já ter amado Uma Canção para Aquiles, achei que já sabia o que esperar da autora… mas em Circe, ela simplesmente se superou. O mais incrível é como a Madeleine transforma a mitologia grega em algo tão humano e emocionante. A Circe que conhecemos é uma deusa, mas ela sofre, se apaixona, erra, sente raiva e aprende com seus erros.

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