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Há rios no céu

Vi uma pessoa (não me lembro mais quem) recomendando esse livro em alguma rede social e fiquei com ele na cabeça. Depois de um tempo, a Amazon me sugeriu e acabei comprando.

There are rivers in the sky” (tradução livre: “Há rios no céu”), de Elif Shafak é daquelas obras que fazem a gente viajar no tempo e no espaço. E posso dizer que amei passar os últimos dias na Mesopotâmia e em Londres do século XIX.

ASSURBANIPAL

A história começa em Nínive que, na época era uma cidade à margem do Rio Tigre (hoje em dia é um Estado que fica no Iraque), em 640 AC. Com cerca de 175 mil habitantes, era uma das cidades mais ricas da antiguidade, governada pelo imperador Assurbanipal, rei da Assíria. 

O sujeito era escroto como a maioria dos reis, narcisista e egocêntrico, explorador de pessoas, capaz de desviar rios inteiros e deixar pessoas morrerem de fome só para regar seus sensacionais jardins, mas se achava melhor que os outros porque era culto. 

Ele amava livros, mesmo que, naquela época, eles ainda tivessem a forma de lousas de cerâmica gravadas em relevo com escrita cuneiforme. A biblioteca dele era gigantesca (ele usava o mesmo esquema da mítica biblioteca de Alexandria: confiscava todos os “livros” que passavam pelas suas terras — ou então pregava emprestado por um tempo para copiá-los.

Em seu palácio deslumbrante ficava a enorme biblioteca guardada por esculturas enormes chamadas Lamassus. Essas divindades tinham cabeças humanas e corpos de touros alados e serviam como proteção.

Um dos grandes tesouros dessa biblioteca era o conjunto de poemas chamado Epopeia de Gilgamesh, considerada a obra literária mais antiga do mundo o primeiro grande clássico. Essa poesia épica de 2000 AC seria, em popularidade, o equivalente à Ilíada de Homero para o mundo ocidental (essa bem mais recente, de 800 AC).

Por ser uma obra clássica e antiga, Assurbanipal tinha várias edições dela. Uma parte, inclusive, inscrita em um pedaço de pedra lápis lázuli.

Pois bem, terminamos esse capítulo na véspera da derrocada desse grande império, que culminou com a destruição completa do palácio e, infelizmente, da biblioteca. Mas, ao contrário de livros de papel, essas lousas de cerâmica, em vez de serem destruídas pelo fogo, acabavam cozinhando e ficando ainda mais resistentes, para a nossa sorte.

ARTHUR

E então vamos para Londres, 1840, uma cidade miserável, escura, suja e desigual. Uma mulher pobre, catadora de lixo da lama do rio Tâmisa, dá à luz um menino, que quase morre diante das condições insalubres. O marido da moça é carpinteiro, mas virou um alcoólatra violento — além das privações físicas, ainda tem o suplício de viver com um ser desses.

O menino acaba se revelando um prodígio de memória e capacidade de aprendizado, fascinado por história. Ele está presente quando dois dos Lamassus são exibidos na Grande Exibição internacional de londres, em 1851, e fica fascinado com a história.

Naquela época, o império britânico saía pelo mundo roubando relíquias descaradamente, por meio de seus arqueólogos. A dó que eu tenho é que estive no Museu Britânico no final de 2024 e fiquei mais concentrada na parte do Egito; assim, não me lembro dos Lamassus da Mesopotâmia. Mas descobri que existem cópias das esculturas aqui em Berlim, no Museu Pergamon, que reabre o ano que vem depois da reforma. 

Arthur, o rapaz, consegue uma vaga no museu Britânico e se tranca numa salinha escura e abafada para decifrar a escrita cuneiforme e traduzir os poemas da Epopeia de Gigamesh.

Depois de muitos anos e dedicação ele consegue o feito e, transformado em celebridade, sai da miséria para uma viagem de exploração para tentar encontrar as partes faltantes do poema em Nínive.

NARIN

Temos também Narin, uma menina criada pela avó que mora na Turquia e pertence a uma religião antiga e amaldiçoada. Estamos em 2014 e a cidade onde elas moram está prestes a ser alagada para a construção de uma hidroelétrica — o capítulo começa com a tentativa de Narin ser batizada aos 9 anos de idade. A cerimônia, ao ar livre, é interrompida pelas máquinas escavadeiras.

A mãe de Narin morreu no parto e o pai é músico; ele toca um antigo instrumento (que, depois vamos saber, foi dado por Arthur a uma ancestral da família); então vive de cidade em cidade. 

A avó decide levar a neta para a região de origem da família, no Iraque, à margem do rio Tigre, para realizar o batizado. O pai tem um trabalho na região e concorda em levá-las. 

O problema é que o ISIS invadiu o Iraque e o lugar não é mais seguro para ninguém, muito menos para uma menina e uma senhora de idade.

ZALEEKHAH

Agora estamos em Londres, em 2018, e Zaleekhah (vou chamá-la de Zuleika, pois é uma das variações do nome e mais fácil de escrever) é uma cientista especializada e hidrologia. Ou seja, ela estuda água e sustentabilidade.

Zuleika acaba de alugar uma casa barco em uma margem do rio Tâmisa. Ela está saindo de um casamento e enfrenta uma profunda crise de depressão (tem planos, inclusive, de tirar a própria vida). 

Seu tio, um homem riquíssimo, que a adotou quando seus pais sofreram um acidente na Turquia, tem origem árabe. Ele lutou muito pela sua fortuna e tem muito orgulho de ser cidadão britânico. Tio Malek também tem uma biblioteca belíssima e coleciona obras de arte e antiguidades, inclusive, veja só, uma pedra de lápis lázuli com versos da Epopeia de Gigamesh.

Ele também tem livros de história da mesopotâmia (que é a região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates — hoje em ocupa o território onde fica o Iraque e algumas partes da Síria e Turquia.

A questão é que Zuleika sempre foi a sobrinha perfeita — boas notas, melhor aluna — porém, não mostra nenhum interesse em dinheiro. O tio queria que ela usasse o talento para negócios (ele só pensa nisso), mas ela preferiu a carreira obscura e não muito rentável de cientista. 

OS ENCONTROS E A ÁGUA

Os personagens vão se alternando na narrativa e alguns objetos fazem a ligação entre eles. Outra coisa interessante, é um pingo d’água, que testemunha alguns fatos históricos que ligam os 4 personagens (se a gente considerar Assurbanipal); ela cai com a chuva, evapora, “reencarna”como floco de neve no nascimento de Arthur e assim vai fazendo suas aparições até o fim da história.

Tem algumas frases muito bonitas, como quando a autora diz que a água é um imigrante consumado, presa num eterno trânsito, nunca capaz de ficar e se estabelecer.

Tem também um pensamento de Arthur, onde ele se dá conta que o que chamam de civilização, na verdade, é uma tempestade em espera. Poderosa, protetiva e perfeitamente destrutiva; cedo ou tarde irá explodir sem limites, engolindo tudo no seu insaciável caminho. 

Ele se decepciona quando percebe que está a serviço de um império que rouba e destrói; que pouco se interessa pelas pessoas vivas — quer apenas, como Assurbanipal, mais itens para a sua maravilhosa biblioteca.

CONCLUSÕES

O livro mostra os constrastes de valores, de culturas, de modos de vida e como o poder, seja de impérios ocidentais ou grupos terroristas, dizimam culturas e pessoas por causa da ambição cega.

Não vou dar spoiler, mas, na medida do possível, temos um final feliz, pelo menos para Zuleika e Narin.

Infelizmente, o livro lançado em 2024, ainda não tem tradução para o português, mas achei a versão em espanhol e inglês para quem quiser se aventurar e comprar o seu na Amazon do Brasil. Senão, vale procurar outras obras da autora aqui (são muitas).

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