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Como fazer toda a história da Grécia Antiga caber em um elevador

Apesar de 4 anos mais velho, o Conrado e eu fazemos aniversário no mesmo dia (20 de outubro). Há alguns anos a gente vem tentando manter a tradição de viajar para algum lugar para comemorar, mesmo que seja só um final de semana. Nesse ano resolvemos visitar Atenas e me dei conta de que não sabia quase nada sobre a cidade (sim, sabia o básico da mitologia grega e dos principais filósofos, mas tudo meio misturado…rs).

Já tinha escolhido os livros para levar na viagem (2h45 de vôo a partir de Berlim) quando vi, na livraria do aeroporto, “How to fit all of ancient Greece in an elevator: an epically short history” (tradução livre: “Como fazer toda a história da Grécia Antiga caber em um elevador: uma história epicamente curta”), de Theodore Papakostas. Fui obrigada a levar, né? Li metade na ida e metade na volta; meus outros dois livros foram só passear.

O autor é arqueólogo especialista em Antiguidade Clássica e parece ser um apaixonado pelo tema; ele já apresentou 3 documentários na TV grega e seu podcast (Archaeostoryteller) é um dos mais populares no país (fui até procurar no Spotify, mas é em grego).

MONÓLOGO NO ELEVADOR

A história é a seguinte: um sujeito aleatório (não sabemos absolutamente nada sobre ele) fica preso em um elevador com o autor do livro, no papel dele mesmo. Enquanto esperam o socorro chegar (também não sabemos quanto tempo, mas pelo conteúdo do livro foi muito!) o estranho pergunta o que o autor faz na vida. Ele diz que é arqueólogo e imediatamente começa a sua aula sobre antiguidade clássica, sua especialidade. 

O pobre do companheiro não tem nem chance de dizer nada a seu próprio respeito; ele só faz algumas perguntas e interjeições no meio do monólogo que é a aula do arqueólogo.

Como informação, achei bem bacana; mas como estrutura de ficção, ficou bem esquisito mesmo. O coitado do acompanhante foi usado apenas como um microfone, desses que influencers usam para fingir que estão conversando em um podcast com alguém. Mas enfim, vamos ver o que deu para aprender (muita coisa!).

O narrador começa contando para o rapaz (que nem nome tem), que a antiguidade clássica é dividida em períodos e sub períodos — depois ele vai detalhando cada um. Mas aqui, em vez de resumir tudo o que ele conta na sua aula, vou me ater em compartilhar as curiosidades, coisas que eu não sabia (ou não me lembrava).

PENSANDO COM LIRISMO

A primeira coisa é em relação à palavra lírico. Hoje em dia, a gente fala em poema lírico e imediatamente as pessoas associam a algo nobre, clássico, superior culturalmente. Um poema lírico é um poema que, ao ser declamado, é acompanhado pela lira, um instrumento musical. E isso acontecia, na antiguidade clássica, para dar mais ênfase aos poemas populares, que tratavam do dia-a-dia das pessoas e assuntos mais triviais (inclusive sexo), para se contrapor aos poemas épicos, que tratavam de fatos históricos importantes (como a Ilíada e a Odisseia, de Homero, por exemplo). 

Então os poemas ou músicas líricas eram o equivalente, na antiguidade, à nossa música popular — aquela que o povão curte. Interessante, né?

PALÁCIOS

Isso eu já tinha lido em outros livros, mas não custa lembrar, pois é muito bizarro: o planeta tem 4.5 bilhões de anos; a vida na Terra surgiu há 3.5 bilhões de anos — e os humanos começaram a habitar o planeta há 3.5 milhões de anos. A Era Neolítica, onde começaram a surgir as civilizações ocidentais (a idade da Pedra), foi há apenas 3000 AC. Ou seja, nossa ocupação organizada no planeta como humanos é muito recente — pouco mais de 5000 anos.

Há mais ou menos 2000 AC surgiram palácios na Ilha de Creta, inclusive com joalheria e decoração. Os seres humanos ocuparam espaços muito rapidamente, assim como desenvolveram tecnologias. Pensa que em menos de 5000 anos a gente foi da Idade da Pedra à Inteligência Artificial (inclusive, os estragos que provocamos no planeta apenas no último século é assustador).

FOFOCA BOA

Tem também algumas passagens da mitologia grega que eu sempre acho divertidas pelo tamanho absurdo (sim, entendo que a linguagem é simbólica, mas mesmo assim, é muito criativo!).

O autor conta a história de Zeus, que nasceu na Ilha de Creta (nossa, preciso muito visitar essa Ilha!). O pai dele, Chronos, um tipo bem supersticioso, foi avisado pelo oráculo que um dos seus filhos iria destroná-lo. Como ainda não existiam métodos contraceptivos na época, ele teve a brilhante ideia de comer todos os rebentos que nasciam. Até que a mulher dele, Rhea, ficou de saco cheio de engravidar só para servir de lanchonete para o marido — e teve a ideia de esconder o último filho, Zeus, numa caverna de Creta. Quando Chronos perguntou pelo lanchinho, ela disfarçou, serviu outra coisa e o comilão nem percebeu.

O menino foi mantido escondido, alimentado por uma cabra e protegido por outros deuses menos importantes. Imagina que o rapaz se tornou um adolescente tão empoderado, que obrigou o pai a vomitar todos os outros filhos que ele tinha comido. 

Você deve pensar; mas mesmo engolindo todos inteiros, igual ao Lobo Mau, ainda teria anos de imersão no suco gástrico, né? Mas deuses gregos não se incomodavam com esses detalhes. A real é que Zeus se reuniu com os irmãos para lutar contra seu pai e tios (os Titans).

O sucesso de Zeus subiu à cabeça, e agora, dono do pedaço, ele achou de bom tom pegar todas as donzelas bonitas daquele tempo. O sujeito chegou a se transformar num touro para raptar a jovem Europa (convidar para jantar era muito clichê, né?). 

Europa e Zeus tiveram um filho, Minos, que gostava de testar limites; um dia, os deuses mandaram um touro para ele sacrificar e ele se recusou. Como punição, essa gente querida que era a turma dos deuses, fez a esposa dele, Pasiphae, se apaixonar pelo touro.

O casal de amantes teve um filho que veio a ser o Minotauro. Fruto de uma família disfuncional, obviamente o rapaz teve muitos problemas psicológicos mal resolvidos e recorreu ao gosto do avô nas preferências gastronômicas (ele também comia humanos). O resto da história a gente já sabe; Teseu resolveu a questão do labirinto e ficou com Ariadne, a filha do Minotauro. 

OS REIS NÃO ERAM TUDO ISSO

Outra curiosidade que gostei muito é que, na antiguidade, a hierarquia de poder era um pouco diferente da que conhecemos hoje. O líder supremo de uma região era chamado Wanax. Depois dele na hierarquia, os mais importantes eram os Lawagetas. Os próximos níveis eram Ekwetai, Korete e Porokorete. Só então vinham os reis (basileus), numa ordem bem inferior — eram tipo os chefes locais, mais diretos e operacionais. Como um coordenador de seção, digamos assim.

Não se sabe ao certo os detalhes das atribuições de cada título, mas com certeza havia os que cuidavam das estratégias de guerra, outros das questões religiosas e administrativas, e assim por diante. Já deu para ver que o Estado é lotado de funcionários públicos não é de hoje, né?

Pois bem, então entramos na Idade das trevas da Antiguidade, onde rolou um monte de guerras entre Wanaxes diversos; os palácios foram destruídos e muita gente morreu. Acaba que daquela hierarquia toda, só sobraram os pés de chinelo de cada grupo étnico— eles mesmos: os reis!

Foi então que eles colocaram as mãos à obram, organizaram a reconstrução e ganharam a importância que têm hoje.

ANTES ERA TUDO GREGO!

Outra curiosidade que eu não fazia ideia: o arqueólogo explica que o grego foi o primeiro idioma que tinha uma letra para cada som feito pela língua falada, fosse vogal ou consoante, ou seja, o primeiro alfabeto foneticamente fiel. Daí a espalhar a palavra grega (filosofia, artes e outras áreas do conhecimento) foi um pulo; ao ponto de ter culminado com a origem da democracia (alguns atestam que isso não teria sido possível sem um sistema de escrita acessível).

E olha que bacana; os primeiros textos foram poemas, porque o alfabeto conseguia traduzir bem a fonética — não à toa a Ilíada e a Odisseia fizeram tanto sucesso na época. E a efemeridade da fala foi sendo gradualmente sendo eternizada por símbolos visuais.

Outra curiosidade: a partir daí, os objetos pessoais começaram a ter palavras gravadas, não apenas com os nome, mas até com maldições do tipo “Quem me roubar terá seus olhos arrancados”. Os arqueólogos acharam um copo de cerâmica que trazia os dizeres: “Eu pertenço a Ariston. Devolva-me e vá embora.”

PÂNICO

Uma  das histórias mais legais é a dos soldados gregos correram 42 km da de Atenas até a Baía de Maraton para lutar contra os persas — isso tudo usando armaduras! Pensa! 

Segundo a lenda, Pheidippides era um soldado que foi mandado a Sparta para pedir ajuda na guerra contra os persas. Sparta fez corpo mole e o soldado, que tinha andado mais de 200 km a pé em poucos dias, estava exaurido e quase vendo estrelinhas, quando o deus Pan apareceu para ele e prometeu que, se os gregos o adorassem, ele os ajudaria a vencer a próxima batalha contra os persas.

Os atenienses acreditaram na história que Pheidippides contou (mesmo com a altíssima probabilidade de ser uma alucinação causada pelo cansaço extremo) e correram para salvar Marathon, que ia ser incinerada do mapa (e Atenas seria a próxima, se ninguém parasse os persas). 

Apesar do exército grego ser bem menor que o persa, eles se posicionaram de maneira que não parecesse e, segundo a lenda, Pan espalhou o terror e os soldados persas entraram em pânico (Pan = Pânico). Mas há versões que colocam a ajuda na conta de Perseu, o herói mítico.

A batalha de Marathon se tornou lendária, principalmente a parte que os soldados atenienses vão, vestindo uma armadura completa e cheia de penduricalhos, correr os 42 km para chegar a tempo de defender a cidade. Essa corrida deu origem à competição que hoje chamamos de maratona.

DIAS DE GLÓRIA

Entre 500 e 338 AC a Grécia viveu o que se chama de período Clássico, quando discutia-se política e comércio na ágora, no meio da cidade. Os filósofos mais famosos (Sócrates, Platão e Aristóteles) também são dessa época. 

As artes também viveram seu apogeu ao ponto que, na Acrópole de Atenas, foi construído o Parthenon, o mais espetacular templo da época — tinha as mais finas esculturas e foi inteiramente construído em mármore nobre. O templo de Hephaestus, na ágora (a praça que fica embaixo do morro da Acrópole, bem no centro da cidade), também é maravilhoso. Você pode ver as minhas fotos e descrições da visita a Atenas nesse post aqui.

O FIM DA ANTIGUIDADE

Beleza, tudo parecia relativamente bem até que chegou Alexandre o Grande e acabou com a festa, anexando a Grécia ao Império Macedônico. É claro que não foi tão simples; anos de guerras sangrentas e batalhas diplomáticas — mas a verdade é que a Grécia nunca mais foi a mesma depois desse cara. As cidades-estado como Atenas e Sparta perderam a sua autonomia e tudo começou a desandar.

Ainda tem muito mais curiosidades e histórias até o fim da Antiguidade, que é marcada pela queda do Império Romano.

Olha, não sei você, mas apesar do excesso de informações concentradas (não sou boa em nomes e datas), adorei saber dessa parte da história, ainda mais tendo a oportunidade de ver o que sobrou dela ao vivo e em cores.

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1 comentário

  1. […] Resenha do livro “How to fit all of ancient Greece in an elevator: an epically short history” (tradução livre: “Como fazer toda a história da Grécia Antiga caber em um elevador: uma história epicamente curta”), de Theodore Papakostas. O texto escrito está nesse link. […]

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