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Artemisia Gentileschi: A Pintora das mulheres

Eu já conhecia essa artista de tê-la visto em museus, e também sabia da história dela. Quando estive no Nationalmuseum em Estocolmo, há alguns meses, vi um livro sobre a moça na lojinha do museu e acabei deixando para comprar depois.

Sei lá por que o nome dessa linda apareceu nas minhas redes sociais e resolvi ir atrás. Aí comprei essa edição de “Die Malerin der Frauen: Artemisia Gentileschi — Gegen die männerdominierten Widerstände der Zeit wurde sie die bedeutendste Künstlerin der Epoche” (tradução livre: “A pintora de mulheres: Artemisia Gentileschi — Contra a resistência masculina da época, ela se tornou a artista mais importante do seu tempo”), de Lena Dietrich.

A primeira curiosidade é que Lena Dietrich é o pseudônimo de um casal austríaco formado por uma professora de escrita criativa, Gerlinde Friewald, e o jornalista Stefan Pabeschittz. 

Como esse livro não é uma biografia, mas um romance histórico, alguns episódios e detalhes foram inventados para dar mais interessância, mas a essência e os principais fatos foram respeitados e baseados em extensa pesquisa.

Artemisia é a filha mais velha de Orazio, um pintor baseado em Roma que havia sido parceiro de Caravaggio (os dois tinham estilos semelhantes). 

Seu pai ensinou a ela o ofício da pintura e a moça era talentosíssima — trabalhava com ele no atelier em alguns projetos importantes. Orazio era viúvo e a irmã dele veio morar com a família para ajudar a cuidar das crianças — Artemisia amava tia Lucrezia como se fosse sua mãe. 

Mas o pai também tinha encomendas externas, principalmente igrejas, palácios e mosteiros, onde ele tinha que pintar in loco. Quando o trabalho era muito extenso, dividia com alguns colegas.

Foi assim que Orazio conheceu Agostino Tassi, em 1611; os dois se deram tão bem que o pai achou uma boa ideia casar a filha com esse Jurandir. Pensa num boy lixo. Era o próprio.

Agostino, assim que viu a jovem de 17 anos, lambeu os beiços. Como já tinha mais ou menos acordado o casamento com o pai dela, achou-se no direito de invadir a casa enquanto ele não estava e estuprá-la sem nenhuma cerimônia. Imagina o choque da menina. 

O pai fez vista grossa, mas, com o tempo, um dos assistentes descobriu que Agostino não poderia se casar, uma vez que já era casado em outra cidade e tinha abandonado a mulher (divórcio não existia nessa época). Orazio, putíssimo, foi tirar satisfações, sem sucesso. Foi então que resolveu processar o dito cujo pelo estupro e entrou em contato com um advogado que conhecia.

O processo foi um show de horrores; para se ter uma ideia, o juiz bateu na porta da família uma bela noite levando uma freira para examinar se Artemisia de fato não era mais virgem (freira entende tudo desse assunto…). O exame foi péssimo, grosseiro e traumático, mas a freira entendeu que o processo poderia ser levado adiante. 

Teve mentiras, intrigas, tentativas de descredibilizar a vítima alegando que ela tinha vários amantes, enfim — o de sempre. Mas as evidências eram gritantes: Agostino chegou bem na hora que Artemisia estava retratando uma mãe e seu menino — ele expulsou ambos, assim como Lucrezia — mas elas ouviram tudo pela porta trancada do quarto. Além disso, as testemunhas da vida desregrada de Artemisia (como se isso justificasse um estupro) se contradisseram grosseiramente. 

No final, Agostino foi condenado, mas pode escolher entre duas penas: ou ficar preso por 5 anos ou ser banido definitivamente de Roma. Ele escolheu a segunda opção.

Só que no meio do processo, Orazio, sempre preocupado com a reputação de sua filha, combinou o casamento com o irmão do advogado, mediante um rico dote (gente, a mulher não tem um minuto de paz). Mas pelo menos ele cuidou para que o dinheiro não fosse entregue diretamente a ele; Artemisia iria liberar assim que ele instalasse a sua farmácia, sonho do rapaz. 

Como resultado, Artemisia e seu marido se mudaram para a casa de seu sogro, em Florença (melhor lugar do mundo para uma artista estar, naquela época; pelo menos isso). Sua tia, apavorada com o destino da sobrinha, deu um jeito de ir junto para ajudá-la.

O marido revelou-se um inútil preguiçoso filhinho de papai, que não gostava de trabalhar — mas pelo menos conseguiu umas tintas boas e raras para Artemisia pintar (já que ele era farmacêutico, entendia de química).

Orazio, ainda preocupado com a filha e sem muita fé no genro (com razão), mandou uma carta para a uma grã-duquesa da família dos Medici com alguns esboços e desenhos de Artemisia.

A grã-duquesa Christine, fundadora da Academia de Artes de Florença, ficou imediatamente encantada com o trabalho da moça e a convidou para visitar o seu palácio. Nada como uma mulher apoiando a outra; Christine praticamente salvou a vida e a obra de Artemisia. 

Não apenas apresentou a moça a outros artistas e a personalidades como Galileu Galilei, mas também providenciou para que ela aprendesse a ler e a escrever, bem como a fazer contas e a administrar seu próprio dinheiro, para não ficar na mão do marido imprestável — na época, poucas mulheres tinham o privilégio de serem alfabetizadas.

A trama conta com vários episódios que foram inseridos para dar mais emoção, incluindo Agostino perseguindo Artemisia em Florença, seu marido se mancomunando com ele em troca de dinheiro, um pigmento raro desaparecido, uma obra importante que dependia desse pigmento, enfim.

O mais importante é que Artemisia foi a primeira mulher formalmente a ser aceita nessa prestigiosa academia e teve uma vida profissional cheia de conquistas. 

Ela se apaixona por um nobre banqueiro mas não se casa (nem tinha como, mesmo o marido não ligando para o amante) — eles mantém um relacionamento amoroso, mas Artemisia passa anos em várias cidades diferentes, incluindo Londres, por conta do seu trabalho. Só no século XX as cartas que eles trocaram foram descobertas.

Artemisia foi uma celebridade na sua época, uma feminista aguerrida, que só pode desenvolver a sua arte graças a outra mulher com poder que a apoiou; a grã-duquesa Christine — sem falar na sua tia Lucrezia, que esteve do lado dela em todas as horas.

Enfim, uma história inspiradora de uma jovem que conseguiu transformar sua dor e sofrimento em obras de arte; Artemisia evitou o conforto de pintar retratos e preferiu o drama e a violência de cenas históricas e brutais, como Judith decapitando Holofernes — e também cenas de homens observando maldosamente mulheres vulneráveis. As pinturas, como ela mesma admitia, eram autobiográficas e representavam a sua revolta (em várias é possível reconhecê-la, assim como Agostino e até a própria Christine).

Apesar do sucesso em vida, Artemisia foi praticamente esquecida depois da sua morte. Só foi relembrada já no século XXI, graças ao movimento feminista. 

O romance histórico é bem no estilo romance mesmo; tem algumas cenas bem explícitas, como a do estupro e algumas outras, mas de resto, segue o roteiro e a linguagem. Infelizmente, não achei nenhuma tradução para o português, mas o original em alemão está disponível na Amazon do Brasil

De qualquer maneira, o que não faltam são livros sobre essa diva, heroína do seu tempo; se quiser pesquisar, é só clicar nesse link da Amazon.

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1 comentário

  1. […] Resenha do livro “Die Malerin der Frauen: Artemisia Gentileschi — Gegen die männerdominierten Widerstände der Zeit wurde sie die bedeutendste Künstlerin der Epoche” (tradução livre: “A pintora de mulheres: Artemisia Gentileschi — Contra a resistência masculina da época, ela se tornou a artista mais importante do seu tempo”), de Lena Dietrich. O texto escrito está nesse link. […]

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