Archive for the ‘Acontecendo Aqui’ Category

Será que você é um iconoclasta?

Friday, September 3rd, 2010

Fotografia: Paolo Franco

Fotografia: Paolo Franco

Perguntinha capciosa essa, heim? Vou dar uma pista, afinal, até alguns dias atrás, eu nem fazia ideia se isso era de comer ou de beber.

Vamos lá: iconoclasta, significa, literalmente, destruidor de ícones. A origem da palavra data de 725 d.C., quando Leo II, imperador de Constantinopla, destruiu o ícone dourado de Cristo instalado nos portões de seu palácio. O iconoclasta não respeita símbolos, ídolos, imagens religiosas ou qualquer tipo de convenção social ou tradição. Um iconoclasta entende que nada nem ninguém é digno de culto ou reverência.

Quem desenterrou isso lá das antigas e trouxe para o nosso mundinho contemporâneo foi o neurocientista Gregory Berns, com seu ótimo livro “O iconoclasta“.

Berns atualiza o conceito quando diz que iconoclasta é uma pessoa incomum que interpreta a realidade de maneira distinta e faz aquilo que o senso comum julga impossível de ser feito. Ou seja, iconoclastas são inovadores, aquela raça que muda o mundo e vira pelo avesso tudo o que a gente conhece. Nem sempre esse povo é fácil de lidar, mas são eles que fazem a civilização andar.

Os iconoclastas são pessoas diferentes da média e vêem o mundo de uma maneira diversa e original. Gregory Berns descobriu, inclusive, que o cérebro dessas pessoas é diferente em três aspectos principais: a percepção, a resposta ao medo e a inteligência social. (more…)

Faça como Steve Jobs

Sunday, August 29th, 2010

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Em busca de um jeito melhor de apresentar e organizar minhas ideias, comprei “Faça como Steve Jobs e realize apresentações incríveis em qualquer situação“, de Carmine Gallo. Nossa, se todo mundo lesse isso, quanta diferença em produtividade teríamos.

O autor é especialista no assunto e estudou ponto por ponto o que faz as apresentações de Jobs serem tão encantadoras e convincentes (é claro que ele tem produtos espetaculares para apresentar, o que facilita muito as coisas, mas estes também são reflexo do Job’s way of thinking).

É interessante observar que tudo no livro é absolutamente coerente com a bíblia das apresentações (Presentation Zen - Simple Ideas On Presentation Design And Delivery, de Garr Reynolds), que também recomendo fortemente (além do que, o livro é liiiindo!).

Mas vamos ao que interesssa: o que Steve Jobs faz de tão excepcional que atrai todo mundo para as suas apresentações? Vou compartilhar um pouco do que li, mas recomendo o livro todo.

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Pensar ou ter razão?

Wednesday, August 18th, 2010
Fotografia: Howard Berman

Fotografia: Howard Berman

Em 1909, Harry Gordon Selfridge, fundador de uma loja de departamentos em Londres, cunhou a seguinte máxima para motivar seus funcionários a serem gentis: “o cliente tem sempre razão“. Desde então, a polêmica tem rolado solta. Há quem concorde, quem discorde, e até quem que se meta em brigas acirradas para ter razão sobre quem tem razão.

Coloque a frase entre aspas no Google, nosso oráculo moderno, e você vai encontrar todo tipo de defensor de cada parte. É como se clientes e empresas fossem inimigos declarados, cada qual tentando defender seus direitos.

A questão é que mais de um século já se passou e tem gente que não reparou que, não apenas essa página da história do marketing e relacionamento com clientes já foi virada há tempo, como até o livro mudou. Não faz mais sentido discutir esse tipo de coisa.

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As marcas não são tudo aquilo que se pensava

Sunday, August 8th, 2010

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Acabei de ler “A lógica do consumo: verdades e mentiras sobre o que compramos” e estou encantada, assustada, perplexa, curiosa e cheia de palavras. Pena que a versão brasileira não conseguiu achar nada equivalente para traduzir a grande sacada que é “Buyology“, o título original.

O volume, escrito pelo consultor dinamarquês especializado em global branding, Martin Lindstrom, deveria ser leitura obrigatória para todo mundo que trabalha com marketing, design ou propaganda. É que o sujeito conseguiu parceiros suficientes para organizar o maior estudo até então feito sobre neuromarketing; ou seja, deu um jeito de escarafunchar nosso cérebro para descobrir como tomamos as decisões de compra.

Na real, cada capítulo mereceria uma resenha, mas um dos que mais me deixou perplexa foi o que fala de propaganda subliminar. Lindstrom conta que o termo foi cunhado em 1957 pelo pesquisador de mercado James Vicary, com a lendária inserção de quadros incitando o consumo de pipoca e Coca-Cola no meio de um filme, de maneira que só o subconsciente das pessoas conseguisse reconhecer as mensagens. Vicary saiu divulgando que as vendas tinham aumentado consideravelmente depois dessa experiência (e por causa dela), mas depois, em 1962, quando o experimento foi refeito e não se conseguiu os mesmos resultados, o próprio assumiu em uma entrevista que tudo não passava de invenção, inclusive os números referentes ao aumento das vendas. A Associação Psicológica Americana decretou que a propaganda subliminar não funcionava tão bem como a tradicional.

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8 dicas para contratar um designer

Thursday, July 29th, 2010

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Assino várias newsletters de sites de design, mas nem sempre consigo dar conta de ler tudo. Mas na semana passada recebi um texto da Before&After Magazine que achei interessante compartilhar aqui. Um amigo do designer John McWade pediu para que ele lhe desse algumas dicas de pontos que deveriam ser levados em consideração na contratação de um profissional. Segue, abaixo, uma tradução livre (o texto original está aqui).

****

1)   Paixão, visão e automotivação. Sem essas qualidades, você estará arrastando uma pedra. Você precisa de alguém com quem compartilhar a sua visão. Nada pior do que um designer tipo “o que você quer que eu faça agora?“. Bem, existe sim. Alguém melindroso e confuso também.

2)   Vocabulário. Um líder criativo deve ser capaz de articular o que está acontecendo e porquê, em linguagem que você e seu staff possam entender. Se você começar a escutar termos vagos como “pop” e “impacto“, faça-o explicar o que isso significa. Procure ouvir algo como “se nós fizermos A e B, podemos esperar C“. Isso não é trivial.

3)   Inteligência inquisitiva. Procure por alguém curioso acerca de tudo e que aborde a vida com senso de deslumbramento. Similarmente, quero alguém que invista tempo para aprender sobre minha empresa e quais as questões são importantes.

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Eco pecados

Friday, July 16th, 2010
Ilustração: Banski

Ilustração: Banksy

O pecado é inerente ao ser humano e, desde que o conceito existe, temos convivido com a culpa como se fosse uma sombra; dependendo do sol, ela some, mas sempre volta. O povo apronta bastante, mas, quando sente que pegou pesado, corre atrás de salvação para sua alma atormentada na esperança de que alguém passe a mão na sua cabeça e diga que está tudo bem; nem foi tão mal assim, vai.

Empreendedora como sempre foi, na Idade Média a Igreja sacou que aí havia uma grande oportunidade de negócio e começou a vender pequenos pedaços de papel com o perdão escrito por sacerdotes autorizados. Em parte, o sucesso da prensa de Gutenberg se deu por essa “malinagem”, uma vez que quase ninguém sabia ler na época, mas todo mundo tinha pecados guardados nas gavetas e nos armários. O resultado é que descobriu-se que imprimir indulgências era o mesmo que imprimir dinheiro e o projeto foi um tremendo sucesso. Dizem alguns historiadores que essa foi a gota de tinta que faltava para que Lutero se revoltasse e consolidasse a Reforma Protestante. A coisa foi tão escandalosa que, depois de muita indulgência vendida, a Igreja achou por bem colocar fim nesse comércio de perdões, pelo menos oficialmente (como não freqüento nenhuma igreja, não sei bem como funciona hoje, então vamos deixar assim).

De qualquer maneira, os tempos mudaram, mas os seres humanos e, principalmente, seus pecados, continuam bombando. A diferença é que, como as pessoas estão menos pudicas e as leis dão conta dos crimes mais sérios, o grande pecado de nossa época é atentar contra a sustentabilidade do planeta. Simples como a tabuada de dois, todo mundo tem pelo menos algum grau de consciência de que, do jeito que a coisa anda, a gente não vai muito longe. O planeta está se desintegrando a olhos vistos e tudo por culpa da absoluta falta de educação de uma geração mimada que cresceu (e se multiplicou) achando que os recursos eram infinitos e que algum funcionário solícito iria aparecer do além para limpar a sujeira e deixar tudo em ordem de novo.

Então, crianças, quando a gente sabe que está fazendo alguma coisa errada, mas não quer mudar porque acha bom assim mesmo, faz o quê? Ressuscita da Idade Média a tal da indulgência, agora na versão empresarial na forma de créditos de carbono e na versão civil, na forma de camisetas engajadas, adesivos irados e biocombustível.

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A dentista equivocada

Sunday, July 11th, 2010
Ilustração: Eve Duhamel

Ilustração: Eve Duhamel

Droga, aconteceu de novo! Entro no carro com pressa, ponho o cinto de segurança, dou partida e, quando olho para a frente aparece um daqueles papeizinhos irritantes presos no limpador de pára-brisas. Como estou voltando da aula de yôga, só me resta colocar os ensinamentos em prática: respirar fundo, manter a calma e a serenidade e, sem movimentos bruscos, retirar o lixo e colocá-lo no devido lugar, dentro do carro. Há que se perdoar esse tipo de coisa, pois eles não sabem o que fazem.

E não sabem mesmo. A equivocada da vez é uma dentista oferecendo seus serviços. Tenho a mais absoluta certeza de que essa moça não tem a menor noção do estrago que está fazendo em sua vida profissional com essa “ação de marketing”.

O maior problema, a meu ver, é que as faculdades que formam profissionais liberais não oferecem em seus currículos nem a mais leve noção do que venha a ser marketing e para que serve. O resultado é que a aluna mais habilidosa da turma pode ser um fracasso profissional pela falta de conhecimentos básicos sobre como se posicionar e se manter no mercado. Um desperdício de talento que resulta numa eterna fonte de poluição para o público em geral e muita frustração para o profissional em questão.

Todo mundo sabe que é complicado para quem está começando um negócio investir em consultorias de marketing e design (até porque está cheio de profissionais de marketing e design fazendo o mesmo tipo de bobagem), mas pelo menos alguma informação básica sobre o que não fazer talvez possa ajudar. (more…)

A viagem do elefante

Monday, July 5th, 2010

21441856_4O José Saramago era assim: ou a pessoa amava o que ele escrevia, ou não conseguia se entender muito bem com aquelas vírgulas todas e acabava deixando-o de lado. Faço parte do primeiro grupo; desde o “Ensaio sobre a cegueira“, que li há uns 15 anos, fiquei tão impressionada que não perdi mais nenhuma oportunidade que apareceu para desfrutar dessa imaginação tão fértil e surrealista.

Além desse, os volumes “Todos os nomes“, “Conto da ilha desconhecida“, “As intermitências da morte“, “A jangada de pedra” e “A caverna” foram os que li até agora, e só não fiquei mais triste com a morte do autor porque ainda tenho uma lista enorme com a qual me ocupar por um bom tempo.

Pois peguei uma promoção relâmpago no Submarino e comprei “A viagem do elefante” por R$ 9,90 (agora está por R$ 34,90). Conta a história do Salomão, um elefante indiano que vai parar em Portugal e acaba sendo enviado pelo rei D. João III como um presente ao seu primo Maximiliano, Arquiduque da Áustria. A questão é que o presente precisa ir andando de Portugal até Viena; depois de meses de caminhada, o pobre paquiderme ainda tem que atravessar os desfiladeiros alpinos em pleno inverno, sempre acompanhado por seu cornaca Subhro (cornaca é o sujeito especializado em cuidar de elefantes) e uma comitiva real.

Os diálogos e as linhas de raciocínio são brilhantes como só Saramago é capaz, o que faz a gente viajar no lombo de Salomão bem na garupa de Subhro.

Desembarquei ontem à noite e já estou com saudades. Recomendo.

Simplesmente vermelho

Sunday, July 4th, 2010

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A gente vive num mundo colorido e sabe que cada cor tem seu valor, mas nenhuma é tão polêmica e cheia de personalidade como o vermelho. Por causa dela, reis, imperadores e até cidadãos comuns fizeram intrigas, guerras, espionagem e tingiram o solo de sangue, veja só.

Sobre a epopéia do vermelho é que trata o curioso “A perfect red: empire, espionage and the quest for the color of desire“*, de Amy Greenfield. A gente não faz idéia, mas o vermelho teve participação importante na economia de países, na manutenção de impérios e até na preservação ou aniquilação de vidas.

A autora (por sinal, filha e neta de tintureiros) conta que na Idade Média, a arte de tingir tecidos era conhecida e dominada por poucos e que esse expertise era passado de pai para filho. Conseguir os pigmentos corretos e fazer com que tecidos parecessem vivos e brilhantes era um desafio formidável, se considerarmos os parcos recursos; mas não menor era a dificuldade em impedir que desbotassem. O trabalho de tintureiro, apesar de muitíssimo bem remunerado, era sacrificante; o sujeito tinha que lidar com tinas enormes, temperaturas desumanas, ácidos perigosos, gomas tóxicas e substâncias esquisitas (estercos e fluidos corporais de animais diversos eram largamente usados como componentes).

Num mundo dominado pelo cinza, bege e branco-sujo (pense nos cenários dos filmes dessa época), uma cor viva nas vestes era privilégio de poucos (nobres, ricos e sacerdotes). E de todas as cores, a mais difícil de se obter e conservar era o carmim. Pessoas comuns, mesmo que tivessem acesso, eram proibidas por lei de usar esse tom (que variava muito de aparência, indo do vermelho amarronzado ao púrpura).

Durante o renascimento, a admiração pelo escarlate passou a ser um verdadeiro fetiche, de maneira que os proprietários de roupas dessa cor eram realmente afortunados (tecidos vermelhos equivaliam quase a ouro e jóias). A importância da coisa era tamanha, que os tingidores de Lucca, na Itália, famosos pelas suas habilidades e competências, eram sentenciados de morte caso resolvessem trabalhar em outra cidade (e os reis de vários lugares viviam fazendo-lhes convites indecorosos).

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Alles Schwarz

Monday, June 7th, 2010

Fotografia: Angela Baconkidwell

Fotografia: Angela Baconkidwell

Ontem reservamos uma mesa no restaurante Unsicht-Bar (o nome é um trocadilho, pois unsicht significa invisível e unsichtbar significa não visto; assim, o nome pode significar tanto bar invisível como oculto ou não visto).

Esse é um restaurante onde a gente come completamente no escuro. Mas não é penumbra ou aquele escuro de quando a gente fecha os olhos. É breu absoluto mesmo; você escancara a pupila e continua vendo tudo preto. Os garçons são cegos e funciona assim: primeiro é preciso fazer uma reserva porque o lugar é pequeno (cabem umas 15 pessoas); aí a gente chega e é recebido numa espécie de lounge à meia luz, onde se escolhe o cardápio (são sempre 4 pratos: entrada; sopa; prato principal e sobremesa) e as bebidas. O cardápio só dá uma ideia do que se vai comer (se é carne, peixe, ave, ovelha ou vegetariano), mas sem muitos detalhes. Depois a gente precisa tirar os relógios e guardar os celulares; nada que tiver brilho ou luz deve entrar na sala de refeições.

Quando chega a nossa vez de ser chamados, vem uma senhora cega e explica que eu devo colocar as mãos sobre os ombros dela; o Conrado põe as dele sobre os meus ombros e a gente vai assim, de trenzinho, até a mesa. Primeiro entramos por um corredor cheio de curvas que vai escurecendo aos poucos, até chegar ao breu total (não precisa se preocupar porque o pessoal do restaurante fala inglês, como, de resto, quase todo mundo em Berlim; seu eu tivesse que depender das instruções em alemão teria derrubado tudo…eheheh).

A gente chega na mesa e ela nos indica as cadeiras, onde nos sentamos com todo o cuidado e já começamos a perceber melhor os cheiros e os sons. É estranho, pois a gente não sabe o tamanho da sala e nem a disposição dos móveis, mas ouve uma babel de pessoas conversando (muitas risadinhas nervosas), som de talheres e cheiro de comida. Também rola uma música instrumental bem baixinho.

Ângela nos explica onde estão os talheres e as taças (pedimos vinho, que já vem servido). A água fica numa garrafa fechada, com tampa de rosca. A gente deve se servir porque é preciso colocar o dedo dentro do copo para saber se está cheio. Tudo é feito devagar e com atenção para não esbarrar em nada. A sensação é indescritível. Principalmente ao constatar que nos acostumamos muito rápido a não ver nada e passamos a tatear sobre a mesa com mais delicadeza.

Quando a Ângela serve nossos pratos, temos que tomar cuidado para deixar as mãos embaixo da mesa ou sobre o colo. Essas instruções nos foram dadas no início, junto com outra: toda vez que precisarmos de algo ou tivermos acabado de comer, devemos chamar “Ângela” que ela vem (não tem aquela de a gente fazer mímica desesperadamente para o garçom e ele ficar olhando para o outro lado…).

À toda hora, as garçonetes (conseguimos identificar duas vozes distintas) são chamadas pelo celular, que não tem nenhuma indicação luminosa. É o aviso para buscar clientes que chegam ou pratos que ficam prontos. A comida vem em cima de um carrinho (pelo menos o barulho é esse) para que elas não precisem equilibrar perigosamente bandejas cheias de coisas quebráveis e sujáveis. Quando a gente ouve o som das rodas do carrinho sabe que a Ângela vem chegando (dá para sentir o cheiro da comida quase que instantaneamente).

O aroma do vinho é inebriante; coisa de louco mesmo. O primeiro prato é uma salada; é a maior viagem imaginar o que se está comendo pelo cheiro e a consistência. Incrível como eu nunca tinha me dado conta de que folhas verdes têm cheiro (pelo menos eu acho que eram verdes….). Na minha salada tinha algo parecido com um queijo cremoso e tomatinhos cereja. Acho que comi umas azeitonas também.

Depois vem a sopa, e é bem difícil tomá-la sem babar tudo. Estava deliciosa. O prato quente veio depois e levei um tempo para descobrir que era difícil de cortar a carne porque estava tentando fazer isso usando as costas da faca. A sobremesa foi desafiadora, porque o prato era retangular e tinha divisões internas, além de um copinho com alguma coisa que parecia um mousse; às vezes é preciso enfiar os dedos dentro do prato para se localizar melhor e não tascar a colher na toalha. Por último, o café, o mais cheiroso de tudo.

Quando a gente quer ir embora (isso tudo leva umas duas horas, pois é preciso comer e desfrutar da experiência com bastante calma), é só chamar a Ângela que ela vem encabeçar o trenzinho para sair (dessa vez, bem mais difícil de organizar, já que estamos no escuro e não queremos derrubar as cadeiras e os objetos com manobras desajeitadas). No final, já no lounge, temos à nossa disposição o menu detalhado só como curiosidade, para ver se acertamos o que estávamos comendo.

Como aqui só escurece às 10 da noite, quando saímos ainda era dia. Por momentos, acho que a gente conseguiu sentir o que um cego sente, para o bem e para o mal. Dá um cansaço grande, porque a concentração para interpretar indícios de sons e cheiros é muito maior (adeus piloto automático). Como um cego, nunca descobriremos a aparência daquilo que comemos, o tamanho da sala do restaurante, a disposição dos móveis, os rostos das pessoas com quem compartilhamos a refeição e nem o que estavam vestindo. É uma sensação estranha e grave, curiosíssima. O mundo parece diferente depois dessa experiência.

Imperdível, inesquecível, insubstituível. Indispensável para aprender a ver. E a comer também…

Canais depois de amanhã

Wednesday, May 26th, 2010

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O mundo já foi muito mais simples. Se você fabricava um produto e queria vendê-lo, podia fazer duas coisas: colocar a mão na massa e vender; ou arrumar alguém que fizesse esse papel (um representante, uma loja, um armazém ou coisa do tipo). A esses personagens que não fabricam nada, mas contribuem para que o produto chegue às mãos de quem dele precisa, convencionou-se chamar canais de marketing ou canais de vendas e distribuição.

Até há bem pouco tempo, esses canais eram bem conhecidos: o representante, o distribuidor, revendedor, o varejista (que pode ser classificado em vááárias categorias) e diversos tipos de intermediários. Aos poucos, essas possibilidades foram se ampliando e já se podia vender por telefone, pela televisão, pela internet, em parceria com outros fabricantes, em eventos, enfim, um mundo novo foi se escancarando para a alegria de vendedores e compradores.

Lendo o excelente “O marketing depois de amanhã“, do Ricardo Cavallini download grátis aqui), dá para perceber que isso é só o começo. Não foram só os canais que mudaram. Os vendedores mudaram; os produtos mudaram; os compradores mudaram; e as engenhocas eletrônicas que habitam o planeta também mudaram, e de maneira espetacular.

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Um pouco de impossível todo dia

Sunday, May 9th, 2010

ligiafascioni_bolsaimpossAlice riu: “Não se pode acreditar em coisas impossíveis“.

Com certeza você não tem muita prática“, disse a Rainha Branca. “Quando eu tinha a sua idade, sempre praticava meia hora por dia. Ora, algumas vezes cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã“.

Lembrei desse trecho do livro “Alice no País dos Espelhos” quando vi o filme “Alice” no cinema, há algumas semanas. Na versão Timburtoniana, as palavras vão para a boca do pai de Alice, que tenta convencer um investidor.

Depois lembrei de novo quando pedi para meus alunos desenvolverem um produto conceitual, sem nenhum tipo de restrição técnica ou financeira. Sempre vejo o pessoal reclamar que sua criatividade nunca é bem aproveitada por conta das tais restrições, que podam e bloqueiam seus talentos. Pois é, paguei para ver e o resultado foi menos que decepcionante. Nada extraordinário, tudo bem convencional e dentro da caixinha. Por que será que isso acontece? (more…)

Inhotim

Sunday, May 2nd, 2010

Reza a lenda que a fazenda era de um gringo chamado Tim, eis porque o lugar agora se chama Nhô Tim, ou melhor, Instituto Inhotim.

Imagine uma fazenda mineira. Agora imagine que alguém com muuuuuuiiiito dinheiro comprou o lugar; transformou-o num jardim botânico com cinco lagos ornamentais e mais de 1200 espécies de palmeiras do mundo todo. Não contente com a obra, o sujeito ainda instala várias galerias de arte contemporânea totalmente integradas à paisagem, cujo acervo reúne mais de 500 obras de artistas de renome internacional espalhadas nos jardins e nas construções. Isso é o que virou Inhotim. Chega a arrepiar.

Coisa linda quando uma pessoa que tem muito dinheiro sabe gastá-lo bem. Desde os bebedouros públicos até os banheiros das galerias, passando pelo mobiliário da lanchonete, nada foi economizado. Até carrinhos elétricos estão disponíveis para quem tem dificuldade de andar. Há monitores em todos os lugares, muitíssimo bem treinados, educados e informados. Todos jovens nativos de uma cidadezinha próxima que carrega o singelo nome de Brumadinho.

Gente, o Brasil ainda tem jeito.

Posso dizer que vale a viagem, seja de onde for, só para visitar esse lugar. Difícil acreditar que isso existe aqui no país do jeitinho e da malandragem.

A visita começou às duas da tarde, com um almoço delicioso no restaurante local. Preços justos, lugar fantástico, louça Vista Alegre e guardanapos de linho.  Garçons eficientes como há muito não vejo e atendimento impecável. Nem vou comentar a vista… vejam por vocês mesmos.

Esse é o caminho da entrada

Esse é o caminho da entrada

Essas palmeiras devem ter vindo de longeEssas palmeiras devem ter vindo de longe
Essa espécie parece um leque de renda

Essa espécie parece um leque de renda

Quando a arquitetura e a botânica se completam

Quando a arquitetura e a botânica se complementam

Obras de arte com o espaço que elas precisam

Obras de arte com o espaço que elas precisam

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A arte da pesquisa

Tuesday, April 27th, 2010
Ilustração: Benedict Campbell

Ilustração: Benedict Campbell

O objetivo da maior parte das empresas (inclusive da sua) é conquistar e fidelizar clientes, certo? Então, estamos falando basicamente de relacionamentos. Mas também é fato que não é possível se relacionar e, muito menos, fidelizar, alguém que a gente não conhece.

A ferramenta que inventaram para iniciar e manter um relacionamento é muito antiga; todos devem conhecê-la: chamam-la pesquisa. E esse instrumento cumpre muito bem as duas funções básicas: conhecer (para conquistar) e medir satisfação (para fidelizar).

Nos dois casos, há várias técnicas disponíveis, mas as pessoas teimam em utilizar apenas uma: o malfadado “questionário”. Ele pode ser verbal ou escrito, mas, apesar de útil e poderoso, carrega sempre uma distorção importante que precisa ser considerada na avaliação dos resultados.

Vamos falar primeiro da função “conhecer” da pesquisa. Produto, marca, site ou o que mais for que baseia sua pesquisa de desenvolvimento apenas num questionário, boa coisa não vai sair.

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Design de muros

Sunday, April 18th, 2010

Ilustração: Karez

Ilustração: Karez

Há algumas semanas escrevi uma coluna que falava da regulamentação da profissão de designer. Eu questionava os benefícios que o cliente teria com a medida. A ideia não era desencadear uma campanha anti-regulamentação, mas entender melhor os ângulos da questão para que as pessoas que estavam em dúvida como eu pudessem ter mais elementos para formar a sua opinião.

Recebi muitos comentários e contribuições de pessoas que estão há muito tempo na luta pela regulamentação da profissão. Os argumentos eram numerosos: alguns bastante fortes e convincentes; outros, na minha opinião, só faziam número. De qualquer maneira, um argumento em especial, apresentado pelo professor Freddy Van Camp, foi matador. Finalmente me convenci (e me entristeci muito também).

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12 dicas sobre currículos

Monday, April 5th, 2010

Imagem: Erik Johansson

Imagem: Erik Johansson

Apesar da minha empresa de consultoria não ter nenhum funcionário, essa semana recebi de novo mais um monte de currículos, alguns, inclusive, impressos. Mesmo que eu não possa ajudar, que é o que acontece na maioria das vezes, tento pelo menos dar um feedback sobre a impressão que tive e algumas dicas para melhorar a abordagem. Há quem leve a mal e há quem aprecie. Para não ter que escrever tudo de novo toda vez, vou fazer uma listinha de dicas que acredito que possam ajudar quem está procurando se posicionar no mercado.

1)   Não distribua seu currículo como se fosse um panfleteiro de semáforo. Isso só desperdiça seu tempo, algumas vezes dinheiro e, sobretudo, queima seu filme. É incrível que essa técnica “espalha chumbo” seja usada inclusive por gente que diz que estudou (ou estuda) marketing. Se é assim que a pessoa aplica seus conhecimentos, mau sinal. É preciso ter foco; estude meticulosamente as empresas nas quais você gostaria de trabalhar antes de se oferecer; tente encontrar oportunidades para mostrar o que você poderia realizar. Em vez de sair espalhando seu currículo, é mais eficiente investir o tempo estudando o mercado e elaborando propostas onde o contratante consiga vislumbrar o valor que seu trabalho pode ter para a empresa dele.

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Informação demais atrapalha?

Wednesday, March 17th, 2010

Imagem: Christophe Huet

Imagem: Christophe Huet

Se você colocar a expressão “excesso de informação” no Google vai achar mais de 6 milhões de ocorrências, e isso somente em português. Há matérias, estudos, tratados, teses sobre o tema e até doenças (a chamada “síndrome do excesso de informação“, com várias vítimas diagnosticadas).

Esse parece ser o mal do século e ninguém pode fugir. Ok, mas o que caracteriza excesso? Segundo o Aulete Digital, é algo que excede o normal ou desejável, que sobra, que é demais. Mas será mesmo que a gente tem informação demais?

Pois esses dias encontrei, no blog do Dauro Veras, um trecho de entrevista com o sociólogo espanhol Manuel Castells que diz exatamente o contrário. A entrevista completa está no site da BBC (em espanhol, e vale muito a pena ler). A pergunta era se Castells crê que a grande quantidade de informação disponível na Internet nos levará a um novo obscurantismo. Vou fazer uma tradução livre da resposta cujo trecho Dauro reproduziu no original.

“ Não há excesso de informação.

Se você vai a uma biblioteca que tem 12 milhões de volumes, tem melhores possibilidades de encontrar o que busca do que em uma que tem um milhão de volumes.

O que faz falta é ter a capacidade de saber o que busco, como encontrá-lo e o que fazer com isso.

O que acontece é que a internet exige um desenvolvimento muito maior de nível cultural e educacional dos usuários.

Portanto, a verdadeira brecha em relação ao uso da internet é a brecha mais antiga da humanidade: a cultura e a educação.

Aqueles mais educados, na era da internet aumentam sua capacidade de ação sobre a sociedade e sobre si próprios.

Aqueles com pouca educação se dedicam usar a internet com estupidez e perdem muito mais em relação ao conjunto da sociedade.

Que dizer? Concordo em gênero, número e grau e nada mais tenho a acrescentar.

Os afins que se unam

Wednesday, March 10th, 2010

Fotografia: Martin Parr

Fotografia: Martin Parr

A gente sabe que há bons e maus profissionais, e sabe também que essa avaliação é muito subjetiva. Há quem acredite que regulamentar as profissões iria, entre outras coisas, resolver também o problema dos profissionais sem escrúpulos. Será?

Algumas das profissões mais populares no Brasil são regulamentadas, ou seja, têm conselhos que fiscalizam a atuação dos profissionais credenciados. Do jeito que a coisa funciona hoje, para poder atuar na maior parte dessas áreas a pessoa só precisa ter um diploma provando que se formou; aí se inscreve no conselho e ganha uma carteirinha, que não é nada mais do que um diploma em miniatura plastificado; enquanto a sua anuidade estiver em dia, você pode usar a tal carteirinha e exercer a profissão.

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Design do bem

Monday, March 1st, 2010

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Acabei de ler “Do good design: how designers can change the world”, do vice-presidente da ICOGRADA* David Berman e confesso que fiquei bastante impressionada. Não que o livro contenha grandes novidades sobre a responsabilidade dos designers na destruição (e salvação) do planeta. Mas ver todos os argumentos reunidos num lugar só de maneira tão contundente arrepia.

Apesar da brochura simples e monocromática, o extraordinário projeto gráfico (e eu não esperaria menos) contribui em muito para a força da persuasão.

Berman começa sem delongas ou sutilezas, afirmando, com convicção, que o design é uma das mais poderosas armas de ilusão em massa. Que o poder do design tem sido usado prioritariamente para convencer as pessoas que elas não são bacanas e que essa situação só vai mudar se elas adquirirem sem demora tais e tais produtos. Ele vê o branding, da maneira como é praticado hoje, como uma forma de desmaterializar o produto real (as marcas não têm mais enfatizado as qualidades objetivas dos produtos) e convencer o consumidor da sua inadequação no mundo. Usando o desodorante X ou o carro Y, por exemplo, as mulheres todas vão fazer fila para serem seduzidas por você (mensagem implícita: você não está pegando ninguém agora porque não quer). Eles fazem isso porque sabem que o desodorante X é intrinsecamente igual aos seus concorrentes e o carro Y não tem nada de especial. Então o design (aqui muito intimamente ligado à propaganda) serve basicamente para contar mentiras e alimentar a compulsão pelo consumo.

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A história das listras

Sunday, February 21st, 2010

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Uma das coisas que mais me encantam no mercado editorial americano é que o volume de publicações é tão escandalosamente astronômico que dá até para um sujeito escrever um livro sobre listras e seu significado ao longo da história* (sim, listras, aquelas faixas compridas de cores diferentes que estampam um tecido).

Não pude resistir a algo assim (como poderia?) e antes de alguém achar que o meu já altíssimo nível de futilidade atingiu o seu extremo, devo dizer que essas informações podem ser bastante úteis para quem trabalha com design gráfico, artes, ilustrações ou qualquer área da comunicação visual.

O livro se chama “The devil’s cloth: a history of stripes” e foi escrito pelo historiador de arte francês Michel Pastoureau (ele também estudou a história de várias cores que já estão na minha lista - sem trocadilhos).

A história começa com o grande escândalo registrado em 1254 em Paris, quando uma ordem de religiosos carmelitas chegada de Jerusalém entrou na cidade usando hábitos listrados de branco e marrom. Reza a lenda que as roupas eram assim porque representavam como as vestes brancas do profeta Elias, fundador da ordem, ficaram após terem passado através de chamas. Como ele não morreu, os hábitos listrados passaram a simbolizar uma espécie de armadura de proteção. Há variações de interpretação dependendo do número e das cores das faixas (as 4 brancas representavam as virtudes cardinais: retidão, justiça, prudência e temperança; e as 3 marrons, as virtudes teológicas: fé, esperança, amor).

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O civilizado

Monday, February 15th, 2010

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A coluna passada deu o que falar no meu blog e caixa postal. Parece que muita gente não pegou bem a mensagem; como a responsabilidade sempre é de quem comunica, provavelmente não devo ter sido muito clara. Parte do problema pode ter se dado pela escolha da palavra “espontâneo”, que talvez não seja a mais adequada para traduzir a idéia (mas não achei outra melhor; aceito sugestões).

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O espontâneo

Monday, February 8th, 2010
Fotografia: Marco Grizelj e Kristian Kran

Fotografia: Marco Grizelj e Kristian Kran

Trabalhei com um sujeito que pensava em voz alta o dia todo. O resultado é que a gente nunca podia confiar no que ele dizia, uma vez que as idéias ainda não estavam maduras e ele as mudava a toda hora. Nas reuniões, fazia questão de expressar seu ponto de vista, mesmo que não acrescentasse nada no que estava sendo discutido. Ele se gabava de ser autêntico, espontâneo, em resumo: “ele era ele mesmo“.  Seu lema: “Quem quiser que goste de mim do jeito que eu sou“.

O resultado é que, na empresa, em vez de ressaltar a sua competência, ele era conhecido como “o chato“. E não estava sozinho não. A legião de espontâneos só vem crescendo depois que os BBBs da vida começaram a alardear em cadeia nacional o valor de ser “eu mesmo“. E, nas empresas, isso está cada vez mais se tornando um problema.

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O andar do bêbado

Monday, February 1st, 2010
Foto: Kerry Karbakka

Foto: Kerry Karbakka

Já estava namorando do livro desde o ano passado, mas agora finalmente consegui dar conta de lê-lo. Estou falando de “O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas“, do PhD em Física Leonard Mlodinow. Apesar do estofo acadêmico, Leonard contribuiu como roteirista nas séries MacGyver (eu adorava!) e Star Trek, além de ter escrito “Uma nova história do tempo” tendo ninguém menos que Stephen Hawking como co-autor.

Mlodinow explica a teoria da aleatoriedade de uma maneira, que, como diria (e aprovaria) Einstein, até uma garçonete entenderia.

Ele começa já destruindo nossos mais sólidos paradigmas que costumam associar sucesso com competência. Segundo uma galera que se ocupa há anos (na verdade, há séculos) em estudar  as questões probabilísticas, o número de variáveis aleatórias envolvidas em qualquer situação da vida real é tão grande que nos seria impossível calculá-las, mesmo que tivéssemos todas as informações necessárias. Sim, o que ele afirma categoricamente é que não há uma associação simples e direta de que a empresa X vai indo bem por causa do talento e brilhantismo seu principal executivo. Ele tem que ser capaz, mas também precisa muito que os eventos aleatórios sobre os quais não possui nenhum controle lhe sejam favoráveis (chamamos isso vulgarmente de sorte). Depois ele mostra uma série de exemplos muito convincentes e faz contas probabilísticas bem simples (que, infelizmente não cabem numa coluna) para corroborar a idéia.

Nós tentamos ser desesperadamente determinísticos o tempo todo: se o filme fez sucesso, então é porque é bom; se fulana se separou é porque o marido a enganava; se beltrano não consegue se dar bem na vida é porque é um fracassado; rápido, fácil, simples e… errado (ou pelo menos, não é bem assim).

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Pirâmide bibliográfica

Tuesday, January 26th, 2010

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Todo mundo conhece aquele desenho da pirâmide alimentar, que começa com fartura de cereais e massas na base, depois empilha frutas, hortaliças, leite, leguminosas até chegar na pontinha, com consumo limitado de carnes, gorduras, açúcares e doces.

A pirâmide de Maslow é outra dessas figuras geométricas muito famosas, que coloca as necessidades fisiológicas e de segurança na base para só depois pensar em relacionamentos, aceitação social; a auto-realização fica lá no topo, quando tudo já foi resolvido. Pesquisando mais um pouco a gente descobre pirâmides políticas, organizacionais, socioeconômicas e até, veja só, egípcias.

Como se vê, pirâmides são muito didáticas para deixar bem claro o que é fundamental e o que é cereja; também são ótimas para mostrar por onde se começa a construir bases bem estruturadas para qualquer coisa.

Pois então. Estava aqui ruminando umas alcachofras e resolvi elaborar uma espécie de pirâmide da leitura. Vamos lá então.

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Afinal, o que é design thinking?

Sunday, January 17th, 2010

Ilustração: Shikakun

Ilustração: Shikakun

Você ainda não ouviu? Agora só se fala em design thinking como solução para todos os problemas do mercado. Mas será que o negócio é tão bom assim? Vamos ver do que se trata para depois pensar e formar uma opinião.

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Design de armadilhas

Tuesday, December 8th, 2009

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A gente fica vendo o noticiário que mais parece cinema-catástrofe e quase não acredita como as coisas chegaram nesse ponto. Vamos recapitular, então.

Até a revolução industrial, o mundo andava aos trancos e barrancos como sempre, mas, porque a população ainda não era tão grande, o estrago também não era tão visível.

Mas a produção em série de objetos fez com que se precisasse também consumir em escala. Afinal, de que adianta produzir tanto se não tiver quem compre? O deslumbramento com a tecnologia e o conforto transformou o progresso numa espécie de religião.

Depois veio o American Way of Life, o ideal de costumes desejado no mundo todo.  Ainda hoje essa é uma referência importante de bem viver; o problema é que, só para citar alguns números, um único americano de classe média consumia, em 1990, energia equivalente a 3 japoneses, 6 mexicanos ou 531 etíopes. Quer se assustar? Saiba que para produzir uma latinha de refrigerante se gasta 60 litros de água e para fazer uma única calça jeans são precisos 1914 litros do precioso líquido. Assim fica difícil, né?

Se o mundo todo vivesse com esse estilo de vida (que, por sinal, a gente vive hoje em Florianópolis), precisaríamos de 3 planetas terra. E o pior é que esse cálculo considera a população de 2008, que não pára de crescer; sem contar que a China e a Índia estão botando as manguinhas de fora e aquele povo todo quer conforto também, como qualquer ser humano.

E o que o design tem a ver com isso?

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Sobre designers e pessoas

Wednesday, November 18th, 2009

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Nos últimos tempos venho sendo assaltada por uma sensação incômoda quase toda vez que tenho a oportunidade de ver designers apresentarem seus projetos, sejam estudantes de graduação, pós-graduação, ou mesmo profissionais atuantes no mercado. Levei um tempo para identificar o problema, mas creio que agora o descobri.

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Palavras novas

Tuesday, November 10th, 2009

Foto: Kevin Steele

Foto: Kevin Steele

Ontem assisti a uma palestra do Walter Longo no Clube de Propaganda e Marketing. Gostei bastante, principalmente porque aprendi várias palavras novas. Olha só:

EXTELIGÊNCIA: se a inteligência é o conhecimento que está na nossa cabeça, a exteligência é o que está fora, disponível no mundo. Usamos a exteligência para buscar informações e a inteligência para solucionar problemas. Muita gente acha que só porque o nível de exteligência está aumentando (mais informações disponíveis), não se precisa mais da inteligência. Ledo engano: é preciso cada vez mais inteligência para achar uma sacada realmente inovadora no meio desse caos.

NEXIALISTA: aprendi também que a discussão sobre se é melhor ser generalista ou especialista está mais que datada. Cada um pode ser o que quiser, desde que conte com a ajuda de um nexialista, que é quem tem visão geral de várias especialidades e consegue integrar de maneira sinérgica e complementar as várias áreas do conhecimento de modo que elas façam nexo (Marketing na era do nexo, aliás, é o título do livro que ele estava lançando e eu comprei, mas ainda não deu tempo de ler). Ele explicou que esse termo foi criado por A. E. Van Vogt no romance de ficção científica Voyage of the Space Beagle publicado em 1950, onde o protagonista era um nexialista contratado para gerenciar situações de crise em uma nave espacial cheia de especialistas. Na verdade, acho que esse é só um novo nome para o generalista, mas vou estudar mais para formar uma opinião. Nem preciso dizer que na minha próxima visita à Amazon esse livro vai entrar na lista…

TESARAC: Essa palavra foi cunhada pelo poeta, autor de livros infantis, músico, compositor e cartunista americado Shel Silverstein para descrever períodos da história onde ocorrem mudanças sociais e culturais tão significativas que os velhos conceitos já estão desaparecendo, mas os novos ainda não estão prontos para substitui-los. O resultado disso é o próprio caos, exatamente como estamos vivendo hoje, em pleno tesarac. Depois da tempestade, as coisas começam a se reorganizar e experimentamos mais um tempo de estabilidade, até o próximo terasac. O mundo já passou por vários: a transição entre a idade média e a renascença e a acomodação pós-revolução industrial, para citar só dois. O que vem depois de um terasac ninguém sabe…

Todos os ouvidos

Tuesday, October 20th, 2009

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Essa semana assisti a uma palestra bem interessante. No coquetel de encerramento conversei com um empresário que elogiava a ótima apresentação, pois tinha lhe rendido ótimas ideias. Quando ele começou a apresentar suas propostas, fiquei surpresa: a maioria contradizia ponto a ponto tudo o que o palestrante tinha falado.

Aos poucos, dei-me conta do que aconteceu: as primeiras frases lhe inspiraram tanto que depois ele não prestou atenção em mais nada do que foi dito. Perdeu a melhor parte e, apesar da diversão mental, suas ideias cairiam todas por terra em uma análise mais crítica. Mas ele estava feliz e satisfeito com seu próprio desempenho e despejava, contente, suas sacadas geniais.

Quantas vezes a gente comete o mesmo erro, de começar a elucubrar e não ouvir o que poderíamos aprender? Ficamos tão maravilhados com a festa que rola dentro da nossa própria cabeça que o mundo exterior fica completamente dispensável e até meio entediante. Do lado de dentro da gente não há críticas, chatos duvidando do nosso brilhantismo, ceticismos e julgamentos fora de hora. São ideias lindas pipocando e se reproduzindo descontroladamente como fogos de artifício. Resistir, quem há de?

Isso faz lembrar de um dito antigo, onde há quem se gabe de “enquanto você está indo com a farinha, eu já estou voltando com o bolo”. Essa frase, apesar da pessoa que a usa com frequência não perceber, resume a total e incontestável incapacidade de ouvir. Para mim ela faz um parzinho perfeito com outra que diz que “tem gente que só aprende o que já sabe”. É ou não é?

É que ouvir é uma das tarefas mais difíceis que existem para um ser humano. Desviar um pouquinho os olhos do próprio e adorado umbigo e prestar atenção no outro; concentrar os sentidos em absorver o conhecimento e a experiência de alguém que não mora na nossa cabeça; deixar de lado nossas próprias convicções e tentar vestir a pele de outrem. A missão demanda muito esforço e um domínio quase sobrehumano do nosso pobre ego. Mas compensa. Sem isso, é quase impossível aprender de verdade.

Mas é preciso dizer que é difícil, muito difícil mesmo. Resta a confissão final e envergonhada: eu mesma bolei essa coluna inteirinha enquanto “ouvia” o tal empresário…

Fazer o quê?

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br

Excelência Pitbull

Monday, October 12th, 2009
Ilustração: Marcos Guilherme

Ilustração: Marcos Guilherme

Spam é uma chateação na vida da gente, mas, dependendo do enfoque, pode virar diversão ou mesmo tema de coluna quando a gente está sem assunto. Pois essa semana recebi um e-mail não solicitado com um design de dar dor de cabeça me convidando para um curso imperdível. Eles prometiam que, se eu aceitasse o convite, poderia me tornar uma super-mega-master vendedora pitbull.
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Vaca fresca

Saturday, October 10th, 2009

Por uma questão de sustentabilidade, está voltando à moda vender leite em garrafinhas de vidro. Essas aqui, verdadeiras belezinhas desenvolvidas pelo designer Alvaro Rubio para a empresa espanhola Bon Vivant, são lindas. Só achei que no rótulo, parece que a fauna de lá conta com três tipos de “bovinas”: há vacas, vacas semidesnatadas e vacas desnatadas. Como será a aparência de uma vaca semidesnatada, heim?

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Achei no Packaging UQAM.

Sobre muros, arte e design

Wednesday, September 23rd, 2009

Norman Rockwell

Ilustração: Norman Rockwell

O Lindomar, de Belém, me pediu para falar sobre as relações entre arte e design (é tema do TCC dele) e eu achava que já tinha publicado algo a respeito nesse blog. Não encontrei a coluna (que está no meu livro “O design do designer“). Então segue o texto, ok, Lindomar?

*****

Minha atração pelo design começou na arte. Quanto mais lia a respeito dos dois, mais via autores se engalfinharem na discussão sobre se um era outro e o outro era um. Gostei do tema e gastei dúzias de conexões neuronais pensando sobre as diferenças entre ambos até formular uma explicação cartesiana (bem a minha cara) que me deixou satisfeita até ontem à noite, mais exatamente, até às 23h40.

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Inovação obsoleta

Monday, September 21st, 2009

Foto: Hans Pollner

Foto: Hans Pollner

Essa semana tive a oportunidade de ler um artigo interessantíssimo do Umair Haque, diretor do Havas Media Lab, chamado “The Awesomeness Manifesto“. É difícil traduzir awesomeness, que seria mais ou menos a capacidade de impressionar, causar espanto. Pensei em substituir por incrível, sensacional, deslumbrante e até mesmo impressionante, mas esses são adjetivos e o Haque acrescentou o “ness” no final justamente porque queria um substantivo. Aí fica difícil traduzir, né?

Mas não faz mal, usamos o original e vamos ao que interessa: Haque diz que a palavra inovação soa como uma relíquia da era industrial e que, por isso, a própria palavra precisa ser inovada.

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Joia rara

Wednesday, September 16th, 2009

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Hoje recebi uma propaganda por e-mail que promete transformar seus cabelos em diamantes, literalmente. Para quem quiser saber detalhes, o site é esse aqui.

Isso acabou me lembrando de uma coluna que escrevi em 2005, quando ainda não tinha esse blog. Dá uma olhada e veja se você concorda.

***

Sou sensível à arte, mas jóias me sensibilizam menos que outras formas de expressão. Apesar de reconhecer que algumas peças deveriam ser apreciadas como verdadeiras esculturas, ainda acho as bijuterias mais versáteis, acessíveis e interessantes. Trocaria sem piscar um belo colar de diamantes por um quadro que me agradasse ou por muitos livros legais. Entendo racionalmente o fascínio que as pessoas têm por essas peças tão especiais, mas por algum motivo não consigo me emocionar.

Ou não conseguia. Alguma coisa mudou.

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Bolsa de valores

Wednesday, September 9th, 2009
Ilustração: Arturo Elena

Ilustração: Arturo Elena


Estava ontem sentada num café esperando meus companheiros de reunião chegarem e acabei ouvindo um pedaço de conversa entre duas moças sentadas na mesa do lado. Uma parecia muito indignada, pois tinha saído de uma avaliação de desempenho e o chefe havia lhe dado um mero “regular” no quesito comprometimento. “Mas ele sabe muito bem que esse semestre está difícil na faculdade, que eu tenho que estudar. Minha prioridade é me formar. Além disso, minha mãe ficou doente. O cara sabe disso, não sei porque ele foi tão injusto”, bradava a revoltada profissional.

A amiga dava o maior apoio e, para ajudar mais, começou a tecer comentários sobre as preferências sexuais do superior hierárquico em questão, que, na opinião dela, parecia “meio gay”.

Que bela dupla. A amiga, por falta de um argumento melhor para defender a causa, apela para a clássica mudança de assunto, atacando a conduta do outro (já falei aqui sobre o argumentum ad hominem).

A profissional, se é que se pode chamá-la assim, mostrou claramente a falta de comprometimento, de modo que dá para entender facilmente a nota que ganhou na avaliação. Ela mesma se entregou quando declarou: “ele sabe que a minha prioridade é me formar”.

Ora, vamos pensar com calma. Você tem R$ 1.000,00 para investir. Resolve aplicar R$ 900 no Itaú e R$ 100 no Bradesco. É claro que você tem que esperar um retorno muito maior do Itaú e bem pouco do Bradesco, confere? Matemática básica. Pois se a moça está investindo, vamos dizer, 90% da sua atenção, vontade, dedicação e empenho na faculdade, é lá que ela tem que reclamar os rendimentos. Não no lugar onde ela está aplicando só 10%.

Você resolve ter um filho e, como pessoa consciente, resolve dedicar 80% da sua energia para ele. Beleza, mas é preciso estar ciente que o retorno esperado tem que vir dele mesmo, da convivência entre vocês, das alegrias afetivas, da participação no dia-a-dia. Mas, uma vez que você é uma pessoa só, certamente outras partes da sua vida ficarão com um investimento menor, portanto trarão menos retorno. Não tem nada de errado nisso, cada um tem as suas prioridades entre as muitas demandas do dia-a-dia.

A questão é que a gente tem que esperar retorno do lugar onde está investindo. Não adianta querer ser promovida se a sua prioridade é a faculdade. Também não dá para ver os filhos crescerem se você trabalha 12 horas por dia. Assim como é impossível organizar um megaevento internacional se o amor da sua vida está doente de cama.

A vida é assim, os recursos são limitados e a gente tem que fazer escolhas sobre onde e quanto investir. Além disso, todos os investimentos são de risco, não há como ter certeza do retorno.

O que é preciso ter em mente é que a gente só aufere lucros do lugar onde investiu. Senão, é como chamar o gerente de mau caráter só porque sua conta está negativa.

Aí não dá, né, moça?

Lígia Fascioni | www.ligiafascioni.com.br